Maio
de 1995, a maior greve dos petroleiros
Os
petroleiros terminam o ano de 1994
sem acordo de trabalho, mesmo após
duas greves nacionais (em setembro
e em novembro) para pressionar a
Petrobrás a repor as perdas
salariais da categoria, que já
chegava a 100%. Intransigente, a
direção da empresa
nega-se a cumprir os termos de compromissos
assinados pelo presidente Itamar
e pelo ministro da Minas e Energia,
Delcídio Gomes, e até
mesmo o acordo que o próprio
presidente da Petrobrás,
Joel Rennó, assinou com a
FUP, garantindo a negociação
das perdas e reajustes entre 12%
e 18% (o acordo dos interníveis).
Para
piorar, a conjuntura política
do país também se
mostra desfavorável à
classe trabalhadora. As eleições
de 1994 endossam a política
econômica neoliberal em andamento
e dão vitória ao candidato
das elites, Fernando Henrique Cardoso.
A direção da Petrobrás
segue à risca o projeto governamental
de ataque aos trabalhadores: redução
de direitos e arrocho salarial.
As principais vítimas são
o funcionalismo público e
os trabalhadores de estatais.
Em
plenária nacional convocada
pela FUP, em janeiro de 1995, os
petroleiros decidem unificar a luta
com outras categorias do setor público:
eletricitários, telefônicos,
trabalhadores dos Correios e os
servidores federais. Em abril, durante
reunião com a direção
da Federação, o presidente
da Petrobrás admite não
ter autonomia para cumprir o acordo
dos interníveis. A greve
unificada é marcada para
03 de maio.
Os
trabalhadores do Sistema Petrobrás
aderem em massa à mobilização
convocada pela FUP. Além
da recuperação das
perdas salariais e da preservação
dos direitos dos trabalhadores do
setor público, a greve tem
também um caráter
político: a luta contra a
quebra dos monopólios do
petróleo e das telecomunicações.
O movimento unificado, no entanto,
vai perdendo força e os petroleiros
acabam sustentando a greve sozinhos
por 32 dias. Mais de 90% da categoria
cruzam os braços nas refinarias,
nas plataformas, nos terminais de
distribuição e nas
unidades administrativas da Petrobrás.
Os
trabalhadores se revezavam nas refinarias
para garantir o abastecimento básico
da população e preservar
os equipamentos. Mas a imprensa
faz terrorismo, acusando os petroleiros
pela falta de derivados de petróleo
e, principalmente, do gás
de cozinha. A FUP seguia firme na
condução da greve,
orientando os trabalhadores em seus
boletins de que a redução
e paralisação gradativa
da produção devem
ter como diretriz a "não
penalização da população".
Apesar
da legitimidade das reivindicações
da categoria, que exigia o cumprimento
dos acordos de 1994, o Tribunal
Superior do Trabalho julga a greve
abusiva em seu sétimo dia.
Os petroleiros não se intimidam.
Nem mesmo quando a direção
da Petrobrás anuncia em 11
de maio a primeira lista de demitidos:
Antônio Carlos Spis, coordenador
da FUP, lidera a relação
de 25 nomes divulgados pela empresa
na mídia. A repressão
do governo FHC estava apenas começando.
No dia 24, o Exército ocupa
as refinarias de Paraná (REPAR),
Paulínia (REPLAN), Mauá
(RECAP) e São José
dos Campos (REVAP). No dia seguinte,
os petroleiros recebem seus contracheques
zerados.
A
categoria continua impassível.
Resistência é a palavra
de ordem entre os trabalhadores.
Quanto mais o governo endurecia,
mais os petroleiros resistiam. O
movimento ganha o apoio de centenas
de sindicatos, estudantes, parlamentares,
organizações civis
nacionais e estrangeiras. O TST
julga mais uma vez a greve abusiva
no dia 26 de maio e impõe
multas milionárias à
FUP e aos sindicatos: R$ 100 mil
por cada dia não trabalhado!
No
dia 31 de maio, a CUT promove o
Dia Nacional de Solidariedade: Somos
todos petroleiros, bradavam
as demais categorias em passeatas
pelo país afora. No dia seguinte,
uma frente parlamentar é
formada por representantes de vários
partidos, com o compromisso de intermediar
a reabertura das negociações
com a Petrobrás, em nome
do Congresso Nacional. A direção
da empresa aceita e compromete-se
a cancelar as punições
e a parcelar os dias parados. No
dia 02 de junho, a FUP indica a
suspensão da greve, o que
é aprovado pela categoria
em todo o país, com exceção
da RPBC, em Cubatão, onde
300 trabalhadores ocupavam a refinaria
desde o dia 05 de maio. No dia 03
de junho, cobertos por uma imensa
bandeira nacional, os petroleiros
de Cubatão deixam a refinaria
e são saudados pela categoria
em todo o país.
Mesmo
com o fim da greve, os sindicatos
e a FUP tiveram suas contas bloqueadas,
o repasse das mensalidades dos associados
retido e os bens penhorados. Cada
um dos 20 sindicatos que participaram
do movimento recebeu multas de R$
2,1 milhões. Ao todo, 73
trabalhadores foram demitidos, entre
eles vários dirigentes sindicais.
Mais de mil petroleiros são
punidos, a maioria com suspensões
de até 29 dias. Para manter-se
em funcionamento, alguns sindicatos
são obrigados a atuar quase
que em clandestinidade. Tamanha
repressão sofrida pelos trabalhadores
e pela organização
sindical só havia ocorrido
no Brasil durante a ditadura militar.
A
máscara social democrática
do sociólogo Fernando Henrique
Cardoso é derrubada pelos
petroleiros no primeiro grande enfrentamento
dos trabalhadores contra o projeto
neoliberal. O caráter repressivo
do seu governo ficou evidente na
criminosa demissão dos dirigentes
sindicais e nos canhões dos
tanques do Exército apontados
contra os trabalhadores nas refinarias.
Mas, apesar da truculência
de FHC, dos julgamentos viciados
do TST, da campanha mentirosa da
mídia, da manipulação
dos estoques de combustíveis
pelas distribuidoras, entre tantos
outros ataques, a greve de 32 dias
dos petroleiros, em maio de 1995,
foi essencial para a história
do sindicalismo no Brasil. A categoria
fomentou junto à opinião
pública importantes discussões
políticas, como o direito
de greve, a livre negociação,
o papel da Justiça do Trabalho
e a liberdade de organização
sindical.
A
armação do gás - Em novembro de 1995, o Tribunal
de Contas da União conclui
que as distribuidoras foram responsáveis
pelo desabastecimento de gás
durante a greve dos petroleiros.
Fato que já era, inclusive,
de conhecimento da própria
Petrobrás, segundo admitiu
três anos depois o superintendente
de Recursos Humanos da empresa,
José Lima Neto: "Não
era de interesse da Petrobrás
na época acionar as distribuidoras
por terem sonegado o gás
de cozinha", informou em entrevista
ao jornal do DCE da USP.
Anistia
das multas - Após
ter vetado em abril de 1996 o projeto
de lei aprovado pelo Congresso Nacional,
que anistiava as multas arbitrárias
impostas pelo TST, o presidente
Fernando Henrique tenta novamente
barrar a anistia, dois anos depois.
Alguns sindicatos já estavam
na iminência de terem seus
bens leiloados pelo Tribunal, em
mais uma das explícitas demonstrações
de abuso de poder por parte do governo
tucano. FHC, no entanto, recua e
sanciona, parcialmente, a lei de
anistia, em julho de 1998, vetando
o artigo que dava direito aos sindicatos
de receberem de volta os valores
retidos pelo TST desde 1995.
Demitidos
são reintegrados nove anos
depois - O primeiro Congresso
Nacional da Federação
Única dos Petroleiros é
realizado em agosto de 1995, dois
meses após a greve histórica
protagonizada pela categoria. Uma
das principais resoluções
do Congresso é a luta pela
reintegração dos 85
trabalhadores demitidos nas greves
de 94 e de maio de 95. Mais do que
um objetivo implacável, o
retorno destes companheiros transformou-se
em questão de honra que a
FUP perseguiu incansavelmente ao
longo de todos esses anos. Do primeiro
ao nono CONFUP, esta sempre foi
a principal bandeira de luta dos
petroleiros, estampada em todas
as pautas de reivindicação
saídas dos congressos da
categoria. Seja na mesa de negociação
com a Petrobrás, seja através
de ações judiciais
ou ainda nas idas e vindas a Brasília,
em um trabalho incansável
de convencimento e aliança
com os parlamentares para aprovação
da Lei de Anistia, a FUP jamais
abandonou a luta pela reintegração
dos trabalhadores arbitrariamente
demitidos nas greves de 94 e de
95.
Mas
foi preciso que os trabalhadores
implementassem um novo projeto político
no país, para que a tão
esperada Lei de Anistia dos petroleiros
se transformasse em realidade. Entre
julho e dezembro de 2003, o projeto
de lei do deputado Luciano Zica
(PT/SP) nasceu, ganhou corpo nas
discussões com os parlamentares
e o movimento sindical, foi aprovado
no Congresso Nacional e sancionado
pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. Ou seja, em cinco
meses, o governo Lula começou
a saldar a maior dívida do
governo Fernando Henrique Cardoso
com a categoria. Uma pendência
que se arrastou pelos oito anos
de seu mandato. Nem mesmo os constantes
questionamentos da Organização
Internacional do Trabalho (OIT),
acusando o governo tucano de violação
dos direitos de greve e de livre
negociação foram capazes
de fazer FHC recuar em sua tentativa
de desmonte da organização
sindical dos petroleiros. Às
vésperas de deixar o governo
(em junho de 2002), ele ainda fez
questão de vetar um outro
projeto de anistia que havia sido
aprovado no Congresso, após
um árduo processo de negociação
da FUP com os parlamentares.
Foi
o último golpe sofrido pelos
petroleiros no enfrentamento com
o governo tucano. Em março
de 2004, os trabalhadores de Cubatão,
demitidos após a greve de
maio de 1995, voltam a cruzar os
portões da refinaria, reintegrados
pela Lei de Anistia. Um a um, os
petroleiros que tiveram seus empregos
usurpados por FHC ao exigirem seus
direitos em uma greve legítima
estão retornando à
Petrobrás. Foi preciso quase
uma década de luta da categoria
para que erros históricos
começassem a ser corrigidos.