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O dossiê Serra e o curso das eleições

Revista Carta Capital, por Leandro Fortes

O auto-intitulado “grupo de inteligência” da campanha à reeleição de Lula conseguiu o que as teatrais manifestações do ex-deputado Roberto Jefferson, três comissões parlamentares de inquérito e um ano e meio de bombardeio da oposição não lograram. Quando a Polícia Federal flagrou os petistas na tentativa clandestina de comprar um dossiê contra o tucano José Serra, candidato ao governo de São Paulo, não expunha apenas a relação de uma parcela do Partido dos Trabalhadores com o submundo. As prisões em um hotel paulistano e a apreensão de 1,7 milhão, em notas de reais e dólares, cerca de 15 dias antes de os brasileiros irem às urnas, mudaram o rumo de uma disputa que, mesmo no auge da crise política, parecia decidida em favor do atual presidente.

Lula estava em Nova York, onde participaria da abertura dos trabalhos da Organização das Nações Unidas (ONU), quando foi avisado por assessores da prisão realizada pela Polícia Federal no Hotel Ibis, em São Paulo. Primeiro, segundo pessoas próximas ao presidente, custou a acreditar no ocorrido. Faltavam 15 dias para as eleições e o petista surfava nas pesquisas, enquanto os adversários tentavam, em vão, reverter o desfecho ainda no primeiro turno.

De volta ao Brasil, Lula encontrou o PT e o governo de pernas para o ar. Ainda assim, as primeiras medições do grupo de marqueteiros a serviço da campanha não haviam captado grandes impactos no desempenho do candidato. Tanto que, baseado nos números recentes e na resistência da imagem positiva do governo ao longo da crise iniciada em 2005, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, repetiu a tese da existência de uma dissociação entre a visão dos formadores de opinião e da maior parte dos cidadãos. “A relação entre o posicionamento da mídia e a vontade do eleitor demonstra haver uma modificação na estrutura social do País”, disse a CartaCapital.

Genro foi destacado pelo Palácio do Planalto para dar explicações sobre o dossiê. Segundo ele, a política social do primeiro mandato do PT serviu para criar uma nova classe média, mais pobre, porém mais digna e politizada. “A classe média alta, remediada e acadêmica perdeu muito de sua influência no governo Lula”, avaliou o ministro.

Mas nem o mais criativo roteirista de Hollywood nem os que ainda consideram o Brasil uma república de bananas conseguiriam imaginar um final tão nonsense para uma disputa presidencial. Não bastasse o pastelão proporcionado pelo “grupo de inteligência petista”, houve o clima de conspiração armado, conforme apurou a Polícia Federal, pela falsa denúncia de grampo no telefone de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), encampada pelo presidente da casa, Marco Aurélio Mello. Depois, em um daqueles lances típicos de irreais dramas políticos, a afirmação extemporânea e cavilosa do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Roberto Busatto, sobre a possibilidade de a entidade analisar novamente um pedido de impeachment contra o presidente.

Por fim, a menos de 72 horas das eleições, o clímax: o vazamento das fotos com pilhas de reais e dólares apreendidos com Gedimar Passos e Valdebran Padilha no hotel de São Paulo. A história da distribuição das fotos a jornalistas, obra do delegado Edmilson Bruno, expôs uma disputa interna na Polícia Federal (texto abaixo) e foi o desfecho da guerra entre governistas e oposicionistas em torno da divulgação ou não das imagens do dinheiro destinado ao dossiê.

A gênese da compra de denúncias contra Serra está ligada visceralmente ao comitê de campanha do senador Aloizio Mercadante (PT-SP), candidato ao governo de São Paulo derrotado pelo tucano no primeiro turno. A Polícia Federal descobriu que Hamilton Lacerda, ex-coordenador de Comunicação da campanha de Mercadante, havia levado uma mala ao hotel onde estavam Gedimar Passos e Valdebran Padilha.

Apesar do envolvimento de Lacerda, o petista acabou por colher nas urnas um resultado melhor do que as pesquisas apontavam. Mercadante teve cerca de 30% dos votos válidos, ante 58% do candidato do PSDB. Mas a participação do assessor serviu para reforçar a tese, defendida por amigos e assessores diretos de Lula, de que a compra do dossiê foi obra de um grupo de “aloprados” da seção paulista do partido.

A história é mais complexa. Desde os primeiros dias da crise, os caminhos levavam ao comitê central da campanha à reeleição, em Brasília. Por lá havia circulado, inclusive pelas mãos do deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), ex-coordenador nacional, substituído às pressas por Marco Aurélio Garcia assim que o escândalo veio à tona, um informe sigiloso do grupo comandado por Jorge Lorenzetti, do PT de Santa Catarina. O documento, conforme revelou CartaCapital na edição 412, de 27 de setembro, falava, claramente, do conteúdo do dossiê e das negociações em curso, dez dias antes das prisões no Hotel Ibis.

Do grupo participavam, além de Lorenzetti, o diretor do Banco do Brasil Expedito Veloso e o coordenador do programa de campanha de Lula, Oswaldo Bargas. Para piorar o clima dentro do Palácio do Planalto, ao depor na Polícia Federal, Gedimar Passos afirmou ter recebido autorização de um assessor direto do presidente, o também petista Freud Godoy. Todos os envolvidos, inclusive Berzoini, presidente do PT e coordenador da campanha de reeleição, foram afastados. Mas ficou o cheiro de pólvora no ar.

Nas tribunas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, a tropa de choque da oposição passou a entoar, então, a ladainha diária sobre a origem do dinheiro. Foi a maneira mais rápida encontrada pela cúpula do PSDB para manter a compra do dossiê na crista da onda do noticiário e, por outro lado, esvaziar a discussão sobre o conteúdo. Tucanos e pefelistas conseguiram praticamente neutralizar a divulgação do pacote de informações montado pelos Vedoin em Cuiabá. Dele constam fotos, documentos, recibos e um vídeo que ligam o ex-ministro Barjas Negri, sucessor de Serra no Ministério da Saúde, com a máfia das ambulâncias.

Atual prefeito de Piracicaba, Negri foi apontado por Luiz Antonio e Darci Vedoin como principal facilitador, dentro da Saúde, de liberação de verbas para a compra de ambulâncias destacadas no Orçamento da União por meio de emendas de parlamentares. O intermediário do ex-ministro, segundo os Vedoin, era o empresário Abel Pereira, amigo de Negri e dono de contratos junto à prefeitura ocupada pelo sucessor de Serra. Os donos da Planam também relataram à Polícia Federal que, durante a gestão tucana no ministério, havia muito mais facilidade para receber os pagamentos.

A CPI dos Sanguessugas decidiu investigar a participação de José Serra, Barjas Negri e Abel Pereira no esquema de corrupção, mas, até agora, ficou apenas no anúncio. Em Piracicaba, Negri foi mais eficiente. A bancada de vereadores aliados ao prefeito do PSDB conseguiu impedir, por dez votos a quatro, a abertura de uma comissão para investigar os contratos realizados entre a prefeitura e empresas da família do empresário Abel Pereira durante a gestão do tucano. “Com certeza, o prefeito Barjas Negri articulou com sua bancada para que a comissão não fosse aprovada”, disse o presidente da Câmara Municipal, Gustavo Herrmann (PSB), da oposição a Barjas Negri.

Até o início da semana da eleição, os petistas consideravam a repercussão do caso do dossiê sob controle. A consulta telefônica junto aos eleitores feita pelo comitê central de Lula – cerca de mil ligações por dia – indicava uma alteração mínima nas intenções de voto por conta do escândalo do dossiê. Os dados também passaram a ser utilizados pelos assessores da campanha para definir, tecnicamente, a ida ou não de Lula ao debate da TV Globo, o último da temporada eleitoral.

O presidente fez mistério até três horas antes do evento. No aeroporto de Brasília, ministros e assessores se aboletavam na sala vip à espera de uma decisão do presidente, que adiou a viagem quatro vezes e só anunciou o destino do vôo, São Paulo e não o Rio, minutos antes de o avião decolar.

Ministros lotados no Palácio do Planalto afirmam que o presidente tomou solitariamente a decisão de não comparecer ao debate. Eram terminantemente contra a participação no programa da Rede Globo o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, e o sociólogo Marcos Coimbra, do Vox Populi, instituto contratado para fazer pesquisas para a campanha à reeleição.

Lula optou por participar do último comício da campanha, em São Bernardo do Campo, seu berço político. “É fato público e notório o grau de virulência e desespero de alguns adversários, que estão deixando em segundo plano o debate de propostas e idéias, para se dedicar, quase exclusivamente, aos ataques gratuitos e agressões pessoais”, escreveu o presidente na carta de recusa enviada à emissora.

No comitê, em Brasília, Marco Aurélio Garcia tentava conter os efeitos da crise em escalada. Ex-assessor para Assuntos Internacionais, exonerado às pressas para assumir o posto de Ricardo Berzoini, Garcia manteve a equipe quase intocada, mas desativou o chamado “grupo de análise de riscos” da campanha. “Era um grupo de inteligência muito pouco inteligente”, ironizou. Dentro do comitê, a compra do dossiê por petistas ficou conhecida como “Operação Tabajara”, alusão à fictícia empresa de produtos mirabolantes criada pelos humoristas do Casseta & Planeta.

A primeira missão de Garcia foi afastar qualquer insinuação de vínculo entre Lula e o grupo envolvido na compra do dossiê. O presidente ficou furibundo ao saber da história e, por isso, ordenou o afastamento de todos, mesmo o de Berzoini, para dar uma clara demonstração de indignação pessoal diante do caso. Mas engana-se quem acredita que o resultado das urnas vai enterrar o episódio. Enquanto a origem do dinheiro não for totalmente esclarecida, e os donos das notas não forem identificados, o assunto estenderá a crise para além do momento eleitoral.

Garcia teve de resolver uma pendenga com um xará. O ministro Marco Aurélio Mello, presidente do TSE, havia convocado uma entrevista coletiva com os jornalistas para anunciar a existência de escutas telefônicas clandestinas. O suposto crime foi detectado por uma empresa privada. Além dele, também outros dois ministros do TSE, Cezar Peluso e Marcelo Ribeiro, teriam sido grampeados. Na terça-feira 26, um laudo técnico da Polícia Federal informou que não havia grampo algum no tribunal. Mais ainda, não havia o mínimo indício de que uma escuta tenha sido instalada por lá.

A empresa responsável pelo serviço de rastreamento, até então preservada, teve o nome revelado pela Polícia Federal: Fence Consultoria Empresarial Ltda. Trata-se da mesma firma contratada pelo Ministério da Saúde, durante a gestão de José Serra, para serviços de contra-espionagem, mas até hoje com contrato firmado no órgão. Segundo dados do Siaf, sistema de controle financeiro da administração federal, entre abril de 1999 e setembro deste ano, foi pago 1,19 milhão de reais à Fence. Neste ano, o contrato prevê o pagamento de até 1,87 milhão de reais.

O dono da empresa, Enio Gomes Fonteneli, acabou indiciado pela PF por falsidade ideológica e falsa notificação de crime. Mello, tão rápido e firme na divulgação do suposto grampo, tergiversou ao ser confrontado com o resultado da Polícia Federal. “Os grampos devem ter sido retirados”, respondeu.

A Fence foi contratada para “detectar a existência e desativar campos magnéticos espúrios” nas linhas telefônicas do Ministério da Saúde, conforme está previsto no contrato 18/99, firmado entre a empresa e aquela pasta em abril de 1999. A ela foi creditada, pela cúpula do PFL, a operação de grampo ilícito que resultou na busca e apreensão feita na empresa Lunus, em São Luís. Na empresa, de propriedade da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, foi achado 1,34 milhão de reais. O dinheiro, de origem não registrada, seria utilizado para financiar a campanha de Roseana à Presidência da República, em 2002. A pefelista, líder nas pesquisas das intenções de voto àquela altura, viu sua pré-candidatura abortada.

O clima esquentou ainda mais com as divergências entre o Ministério Público e a Polícia Federal. Em Cuiabá, o procurador da República em Mato Grosso, Mário Lúcio Avelar, principal responsável do Ministério Público pela investigação do dossiê anti-Serra, criticou a demora da Polícia Federal em identificar a origem do dinheiro usado na operação. Segundo ele, em outros casos, o órgão agiu mais rápido para obter informações semelhantes. Referia-se ao Caso Lunus, onde, aliás, também atuou como procurador.

Avelar também tratou de pedir, em pleno período eleitoral, a prisão preventiva dos seis petistas envolvidos na compra do dossiê. A Justiça Federal de Mato Grosso acatou o pedido, embora qualquer estudante de Direito saiba que, segundo a legislação eleitoral em vigor, ninguém poderia ser preso desde a manhã de 26 de setembro até 48 horas após as eleições, a não ser em flagrante ou em virtude de sentença criminal condenatória por crime inafiançável. “A investigação não pode parar por causa do processo eleitoral”, disse.

A decisão provocou reação do delegado federal Geraldo da Silva Pereira, que investiga o caso do dossiê em Cuiabá. “É muito fácil pedir a prisão num momento em que não se pode cumprir os mandados. Foi uma atitude isolada dele. Repudiamos isso dentro de uma investigação nossa”, reagiu Pereira. Esse é mais um confronto que promete se arrastar até o segundo turno da eleição.

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