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AS DUAS TRINCHEIRAS DA POLÍCIA FEDERAL

Revista Carta Capital, por Leandro Fortes

O vazamento das imagens da pilha de dinheiro para pagar por denúncias contra o tucano José Serra, além de esquentar a corrida presidencial nas horas finais, expôs uma luta interna na Polícia Federal entre o grupo liderado pelo diretor-geral, Paulo Lacerda, e a turma remanescente do governo anterior.

O pivô da crise foi o delegado Edmilson Pereira Bruno. Na quinta-feira 28, menos de 72 horas antes das eleições, Bruno presenteou um grupo de jornalistas, na porta da superintendência de São Paulo, com cópias de CDs onde estavam gravadas as fotos do dinheiro apreendido com petistas no Hotel Ibis.

Desde a prisão de Gedimar Passos e Valdebran Padilha, em 15 de setembro, as imagens tinham se tornado uma espécie de Santo Graal para os cavaleiros da oposição. Queriam, como no caso da Operação Lunus, contra Roseana Sarney, uma imagem capaz de desconstruir a candidatura de Lula e empurrar a disputa para o segundo turno. A Polícia Federal negou-se a entrar no jogo, conseguiu colocar o inquérito sob segredo de Justiça, mas foi surpreendida pelo vazamento protagonizado, em uma calçada da rua, pelo delegado Bruno. O episódio também revela muito sobre a mídia. Foi um raro caso em que uma fonte conseguiu combinar um off (o da preservação do seu sigilo) não com um, mas com ao menos seis repórteres. E ao mesmo tempo.

Em entrevista coletiva, no sábado 30, o delegado afirmou não ter agido por motivação política, mas que distribuiu as imagens por se sentir prejudicado pelo afastamento das investigações. “Tudo o que fiz foi legal. Fiz porque senti que era a verdade”, disse. O chefe de Bruno, o superintendente em São Paulo, Geraldo Araújo, ironizou: “Ele teve seus minutos de fama e isso pode ter subido à cabeça”. Em seguida, duro, definiu o episódio como “muito grave”. “Houve uma quebra de confiança muito grande, ele quebrou a impessoalidade do trabalho da Polícia Federal”, emendou Araújo.

Além de vazar as imagens, Edmilson Bruno é o autor do ensaio fotográfico em questão. Ele foi um dos responsáveis pela prisão de Passo e Padilha com o equivalente a 1,7 milhão de reais no Hotel Ibis. Bruno era o delegado de plantão na noite do dia 15, razão pela qual participou da operação. Em seguida, foi afastado pelo inquérito, fato interpretado pela oposição, principalmente políticos tucanos, como uma “operação abafa”, cujo objetivo era manter a investigação sob controle. A Polícia Federal, sabe-se agora, tinha lá suas razões.

De acordo com dados preliminares da sindicância aberta pela PF, no dia 28, véspera do vazamento, Edmilson Bruno, mesmo fora do caso, apresentou-se aos peritos da PF e alegou ter sido designado para acompanhar a perícia do dinheiro. Era mentira. Ao chegar ao laboratório de análises, o delegado abriu uma bolsa e retirou uma máquina fotográfica digital. Depois de fazer várias fotos dos montes de notas de dólares e reais, ele ainda pediu auxílio aos peritos para copiá-las em um CD.

No depoimento, Edmilson Bruno afirmou aos responsáveis pela sindicância que o CD foi levado para uma sala e, lá, teria sumido misteriosamente. “Houve um furto”, mentiu outra vez o delegado. No sábado 30, pressionado pelos investigadores, admitiu ter entregado as fotos para a imprensa. A PF investigava, justamente, qual teria sido o objetivo do policial ao participar ilegalmente da perícia, tirar fotografias e, logo depois, negligenciá-las a ponto de favorecer um vazamento.

Agora, a sindicância trabalha com duas hipóteses, checadas por CartaCapital junto à cúpula da PF: ou o delegado recebeu dinheiro para fazer o serviço ou participou de uma trama, cujo objetivo era favorecer as candidaturas de José Serra e Geraldo Alckmin. A partir da confissão do crime, Bruno corre o risco de ser processado e expulso da PF por quebra de confiança.

Estampadas nas primeiras páginas dos maiores jornais do País, as imagens do dinheiro ganharam mais destaque do que a notícia do acidente com o Boeing 737-800 da empresa aérea Gol, com 155 mortes, o maior e mais terrível da história da aviação brasileira.

Antes de as fotos serem distribuídas pelo delegado de São Paulo, a “ala tucana” da PF fez circular, na quarta 27, e-mails pela corporação dando conta da “utilização política” da instituição. Entre as acusações estampadas nos e-mails constava, como prova definitiva do aparelhamento petista, a informação sobre a presença do jornalista François René na chefia da assessoria de comunicação social do órgão. René, também professor da Academia da Polícia Federal, é filiado ao PPS, partido que apóia a candidatura de Geraldo Alckmin à Presidência da República. Logo, de oposição a Lula.

No mesmo dia, uma nota oficial da Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol), de São Paulo, criticou o uso “político-eleitoreiro da imagem da Polícia Federal pelo governo federal”. O texto é assinado pelo presidente em exercício da entidade, delegado Antônio Barbosa Góis. Em outro trecho, a nota explica que a intenção do manifesto é manter a PF “apartidária” em meio ao processo eleitoral. Na sede da corporação, em Brasília, o documento dos delegados paulistas – entre eles, Edmilson Bruno – soou como uma declaração de guerra. Mas não contra Paulo Lacerda.

O alvo dos simpatizantes do PSDB e dos policiais anti-Lula dentro da PF se chama Zulmar Pimentel, segundo homem na hierarquia da corporação e auxiliar de absoluta confiança de Lacerda. Caso o atual diretor-geral desista de se manter no cargo, se Lula vencer as eleições, ele é o primeiro nome da lista para a sucessão. Na semana passada, Edmilson Bruno, ao ser afastado das investigações, fez questão de vazar para a imprensa que o procedimento visava beneficiar Pimentel.


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