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Diretor da FUP fala sobre os encontros sindicais que agitarão a cidade argentina de Córdoba nos próximos dias

Leonardo Severo, da Agência CUT

De 17 a 20 de julho, a cidade de Córdoba, na Argentina, sediará vários encontros sindicais e sociais, antecipando-se à reunião de presidentes dos países do Mercosul, no dia 21, já fortalecida com a participação da Venezuela como membro pleno do bloco. Diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e do Sindicato dos Trabalhadores Unificados do Estado de São Paulo (Sindipetro), João Antonio de Moraes avalia, em entrevista ao Portal do Mundo do Trabalho, a importância dos eventos, defendendo uma ação mais incisiva do sindicalismo cutista junto à Coordenadora das Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS) para potencializar uma integração soberana, com base na solidariedade e complementaridade de nossas economias.

Desde a Cúpula de Mar del Plata até este evento em Córdoba, o que mudou no Continente?

Já na última cúpula dos presidentes em Mar del Plata houve uma proximidade entre o evento paralelo e o oficial, com o enfático pronunciamento do presidente Chávez, propiciando um momento ímpar onde a Alca foi sepultada. Neste momento, o encontro tem uma importância ainda maior que é a consolidação desta possibilidade de construção de um Mercosul menos mercado e mais voltado para uma efetiva Comunidade Sul-Americana de Nações.

Quais os obstáculos a serem removidos?

Precisamos de livre trânsito entre as pessoas, com o reconhecimento de sua qualificação profissional em cada um dos diversos países, que é o oposto ao que ocorre no Nafta, puramente mercadológico, onde a fronteira do México com os EUA nunca foi tão vigiada.

O processo vai se fortalecendo...

Claro. A formalização da entrada da Venezuela no Mercosul, com um prazo de quatro anos para efetivação das responsabilidades comuns, a associação da Bolívia, tudo isso vai fortalecendo esta caminhada integracionista, o que só beneficiará nossos países e povos, colocando a questão num patamar muito superior.

E o papel do Brasil neste avanço?

O que temos visto, particularmente neste último período, é uma entrada mais propositiva do governo brasileiro na integração, colocando o BNDES para financiar o desenvolvimento regional, se contrapondo à tentativa dos EUA de imporem os TLCs (Tratados de Livre Comércio). É uma ação mais proativa da chancelaria brasileira, saindo da retórica para uma investida mais pesada.

Como representante dos trabalhadores de uma área estratégica, qual sua opinião sobre os próximos passos a serem dados?

A integração energética é imprescindível sob o ponto de vista da soberania dos nossos países e do interesse maior dos nossos povos. E só haverá soberania plena com integração. Isolados nos enfraquecemos. Mesmo um país como o Brasil, que é o maior da América do Sul, precisa estar integrado, necessita da força do conjunto para poder se contrapor aos imperialismos, seja norte-americano ou europeu. Somos países complementares, onde o Brasil é uma grande potência na biomassa, mas que não poderá substituir no curto prazo a energia fóssil. Por outro lado, Venezuela, Equador, Colômbia e Bolívia têm riquezas energéticas diferenciadas. Colocando em sintonia uma estratégia comum, teremos maior autonomia para definir políticas públicas que priorizem o desenvolvimento regional, com resultados positivos para todos.

Como se daria esta integração?

Na área de energia, se não há uma rede de distribuição integrada, a chance de ocorrerem danos ao meio ambiente é enorme, pois se potencializa o uso da energia de cada um. Exemplo disso são os carrões da Venezuela, que desperdiçam muito combustível pelo país ser superavitário em energia fóssil. Devemos colocar à disposição dos venezuelanos uma tecnologia que o Brasil já possui, o que trará melhorias para a economia e ao próprio meio ambiente. Na área social, potencializar a força de trabalho é fundamental. Temos bastante acúmulo de conhecimento e experiência na prospecção de petróleo em águas profundas, por exemplo, que pode ser socializado com os demais países. É claro que para isso temos de afirmar nossa compreensão de uma integração solidária, de complementaridade entre empresas públicas. Não avançaremos, e isso não será alcançado, tendo por base a competitividade das nossas economias, com elas duelando entre si.

E o papel do gasoduto nisso tudo?

O Brasil é um país continente, integrado por malhas de distribuição de energia elétrica, o que sempre lhe deu uma excelente vantagem comparativa. Esta vantagem foi quase desmontada, reduzida em muito pelas privatizações, mas serve para dar uma idéia do que podemos ser. Com o gasoduto, iremos construir algo parecido com o que tivemos, só que, na área do gás, a nível continental. Por exemplo, com a rede elétrica unificada, quando não chove no Sul podemos abrir as comportas das hidrelétricas do Norte e Nordeste, utilizando sua energia. Qual o grande risco do gasoduto? O ambiental. Por isso esta preocupação está incorporada como premissa básica. Também nisso a integração é fundamental, disponibilizando o que temos de acúmulo, como é o caso da preservação de Urucum, no Amazonas, minimizando os ataques ao meio ambiente, para servirem de parâmetro para ações na Amazônia peruana, boliviana e colombiana. Também na questão da biomassa, com o biodiesel e o álcool, o Brasil tem muito a contribuir.

Quantos petroleiros existem no Brasil hoje?

Somos 50 mil em todo o sistema Petrobrás, 40 mil no petróleo e 10 mil envolvidos com petroquímica, transporte e distribuição. Temos outros 120 mil terceirizados, o que prejudica sem dúvida alguma a melhoria da qualidade dos serviços prestados e a força da integração. A Petrobrás conta hoje com onze refinarias instaladas no país, mais de 50 plataformas marítimas e uma grande rede de distribuição de derivados de petróleo em todo o país, incluindo oleodutos e terminais, produzindo e consumindo dois milhões de barris diários, suficientes para a nossa auto-suficiência. Outros 300 mil barris são produzidos pela Petrobrás fora do Brasil. É um potencial que faz a diferença.


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