| Insegurança
em SP: Estado ausente, crime presente |
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Por
Norian Segatto, da Agência CUT
Fica tranqüilo (sic). Foi
assim que o secretário de Segurança
de São Paulo, Saulo de Castro Abreu
Filho, terminou a coletiva de imprensa que
concedeu na quarta-feira (12) para tentar
explicar a nova onda de ataques no
Estado. Entre as 22h de terça e a
madrugada da quarta-feira foram registrados
48 atentados a 53 alvos, que causaram a
morte de cinco pessoas. O motivo, ou motivos,
dos ataques ainda não estão
claros. Uma das conjecturas é que
seria em represália à prisão
de Emivaldo Silva Santos, o BH, apontado
como um dos líderes do PCC, preso
na noite de terça em São Bernardo
do Campo.
Saulo, no entanto, deu outra versão
afirmando que os ataques teriam se originado
por medo de que líderes da facção
criminosa fossem transferidos para o presídio
federal de Catanduvas (PR). Momentos depois,
disse não existir lista de transferência
e acusou a imprensa de veicular notícias
falsas. Para o ex-investigador de polícia,
Ivan Raymondi Barbosa, presidente da ONG
Nova Ordem, entidade suspeita de ser braço
legal do PCC, os ataques ocorrem por repúdio
à situação dos presídios
e ao tratamento dado aos detentos.
Diante dos fatos ocorridos na madrugada,
as declarações do secretário
soariam cômicas, não fosse
a dupla tragédia os ataques
do crime organizado e a própria permanência
de Saulo à frente da Segurança
Pública de São Paulo. Entre
outras ilações, concluiu que
a situação está melhor
porque, desta vez, os alvos foram civis
(ônibus, agências bancárias
e estabelecimentos comerciais foram os principais
pontos atacados) e afirmou nunca ter recebido
proposta de ajuda do governo federal.
Problema mental Para o presidente
da Comissão de Direitos Humanos da
Assembléia Legislativa paulista,
deputado Ítalo Cardoso (PT), Saulo
de Castro usa um parâmetro equivocado
e perigoso. Se o secretário
considera como sinal de avanço qualquer
ação criminosa que não
ocorra na mesma proporção
do que vimos em maio, ele está completamente
equivocado; o ponto de partida é
a segurança da população
e qualquer coisa fora disso tem que ser
vista com apreensão e não
com descaso como foram algumas afirmações
de Saulo, pondera Ítalo Cardoso,
que completa: Ele deve ter problema
mental, não dá para levar
a sério o que diz.
Além de Ítalo Cardoso, outros
23 deputados estaduais assinaram representação
contra o secretário de Segurança
paulista, protocolada na tarde do dia 12
na Procuradoria-Geral de Justiça,
por desacato ao Parlamento e "ofender
publicamente vários deputados, inclusive
com cunho discriminatório".
O deputado federal e presidente da Comissão
de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), da
Câmara Federal, Luiz Eduardo Greenhalgh
(PT), considera equivocada a nomeação
de Saulo para a pasta de Segurança
do maior estado do país. Acho
inadequado para o estado de São Paulo
ter um secretário que não
entende de segurança pública.
Em maio, quando se iniciou a onda de ataques,
ele veio a público falar que estava
tudo sob controle, mas pelas costas da população,
enviou uma advogada do PCC, em avião
fretado, negociar com os chefes do crime
organizado. Os ataques pararam por determinação
desses chefes e não pela atitude
da polícia. De lá para cá,
São Paulo assiste à continuação
de ataques, que têm vitimados inocentes
e a Segurança do estado não
tem conseguido combater isso.
Segundo o parlamentar, Saulo de Castro ou
mente ou está mal informado quando
diz que o governo federal não ofereceu
ajuda. Eu estava presente quando o
presidente Lula determinou que o ministro
Márcio Thomaz Bastos procurasse o
governador Cláudio Lembo para oferecer
todo apoio necessário, mas o governo
do estado parece querer travar uma queda-de-braço.
Eu, como presidente da CDHM, já me
propus a conversar reservadamente com o
governador, sem imprensa, para buscar alternativas,
fazer uma força tarefa, prestar solidariedade
às vítimas ou o que for necessário
para combater a ação do crime
organizado.
Superlotação
A CDHM apresentou esta semana um
relatório sobre o sistema prisional
brasileiro, a partir de dados coletados
em 17 estados. Na apresentação
do trabalho, o deputado Greenhalgh, alerta
que o documento não pretende
revelar situações desconhecidas
nem se expressar em modelos acadêmicos.
Aqui se oferece uma visão compartilhada
do problema, a partir do olhar de agentes
públicos, militantes sociais e religiosos
ligados aos direitos humanos de 16 Estados
e do Distrito Federal. Trata-se de um documento
comprometido com os princípios e
padrões ratificados pelo Brasil em
instrumentos internacionais e na legislação
interna. Seus autores, quer atuem no poder
público, quer na sociedade civil,
têm em comum o efetivo conhecimento
da realidade dos cárceres brasileiros.
Segundo
o relatório, o estado de São
Paulo oferece 92.865 vagas nos presídios,
para um contingente de 125.804 presos. Esses
números, conforme esclarece o documento,
foram obtidos através das entidades
e podem não representar com exatidão
o cenário atual, mas demonstra o
problema da superlotação e
todas as conseqüências que isso
traz. Entre os problemas apontados destacam-se,
além do excesso de pessoas, denúncias
de tortura e impunidade, falta de assistência
jurídica e tratamento médico
inexistente ou precário. Em seguida,
arrola uma série de sugestões
tanto do ponto de vista humanitário
como de gestão de inteligência
das polícias para buscar diminuir
a criminalidade e ações de
grupos organizados.
Saulo
de Castro com certeza recebeu o relatório,
mas não deve ter tido tempo de lê-lo
ainda (e quando o fizer não adotará
as medidas propostas porque vão no
sentido oposto à truculência
de sua gestão), ocupado que está
em encontrar desculpas para a ausência
de política de segurança em
São Paulo. E onde não há
estado, o crime comanda. Enquanto isso,
cidadão e cidadã, fiquem
tranqüilos como sarcasticamente
sugeriu o secretário.
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