Começou o terceiro turno. Apoiada em matéria da Veja, oposição desvia CPI das Sanguessugas da investigação sobre o esquema das ambulâncias para convocar os petistas do caso Dossiê. PF não tem dado espaço para ação de opositores.
Nelson Breve, da Agência Carta Maior
Ao invés de aprofundar as investigações sobre um esquema de corrupção envolvendo três ministérios, centenas de prefeituras, dezenas de parlamentares e quatro ex-ministros da Saúde, a CPI dos Sanguessugas decidiu aprovar requerimentos de convocação dos envolvidos na fracassada compra do dossiê contra tucanos, marcando as primeiras audiências para o dia 31 deste mês, logo depois do segundo turno das eleições presidenciais. Em vez de apresentar propostas que convençam a maioria do povo brasileiro de que podem fazer mais e melhor do que o governo atual para diminuir a desigualdade entre as pessoas e as regiões do país, os dirigentes da oposição conservadora apelam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar impugnar, mesmo depois da eleição, a candidatura do presidente Lula, com base em acusações de uma publicação semanal que faz campanha sistemática contra a administração petista.
Os dois movimentos, no mesmo dia em que o instituto Datafolha apontou que a diferença das intenções de voto no presidente para as do seu adversário aumentou para 20 pontos percentuais, indicam que o terceiro turno já começou. Sem convencer o eleitorado de que tem um projeto melhor para o País, a oposição prepara o terreno para tentar ganhar a disputa no chamado “tapetão” do Judiciário. O embate na CPI dos Sanguessugas mostrou isso. Depois de uma exacerbada discussão entre governistas e oposicionistas, foram aprovados requerimentos convocando todos os envolvidos na compra do dossiê pelo lado petista. Inclusive o deputado Ricardo Berzoini, presidente licenciado do PT e ex-coordenador da campanha de reeleição, e Freud Godoy, ex-assessor do presidente Lula.
Os ex-ministros José Serra (PSDB), Barjas Negri (PSDB), Humberto Costa (PT) e Saraiva Felipe (PMDB) foram apenas convidados a prestar depoimento e podem até recusar, ao contrário dos convocados. Mas quando chegou a hora de votar a convocação do empresário Abel Pereira, ligado aos tucanos, a sessão da CPI foi encerrada. “Temos de ouvir as pessoas envolvidas na compra dos documentos, mas também aprovar a convocação dos envolvidos no conteúdo dos documentos. Todos sabem que o Abel Pereira é a peça-chave do superfaturamento das ambulâncias no Ministério [da Saúde]”, protestou a líder do PT no Senado, Ideli Salvati (SC), lembrando que o empresário deixou de comparecer a um depoimento marcado pela Polícia Federal.
Na outra haste da pinça, os presidentes do PSDB, Tasso Jereissati, do PFL, Jorge Bornhausen, e do PPS, Roberto Freire, foram conversar pessoalmente com o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro César Asfor Rocha, depois de protocolar pedido para que ele considere, nas investigações solicitadas para apurar denúncia de crime eleitoral no caso da compra do dossiê, a denúncia da revista Veja, sobre suposta operação do governo para blindar Freud Godoy e, conseqüentemente, o presidente Lula. Os presidentes dos três partidos e o advogado da campanha, Eduardo Alckmin, pediram ao TSE que todos os envolvidos sejam ouvidos, inclusive o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. “Eles cometeram um crime eleitoral organizado. É nosso dever exigir perante a Justiça comportamento adequado da PF e do ministro da Justiça, não como advogado criminalista do presidente da República, mas como uma pessoa responsável, que não induza órgãos auxiliares a cometerem irregularidades em defesa de uma candidatura”, acusou o presidente do PFL.
No entanto, em outra iniciativa para montar o cenário do terceiro turno, colocando em dúvida a seriedade da Polícia Federal, a trinca oposicionista se deu mal. “Temos acompanhado com preocupação a visão de que a Polícia Federal não trabalha com isenção. Não há operação-abafa, a PF é uma instituição séria e os prazos da investigação são normais”, sustentou o presidente da Associação Nacional dos Delegados da PF, Sandro Torres Avelar, na conversa que teve com os dirigentes oposicionistas nesta terça-feira, no gabinete do senador tucano Tasso Jereissati. A opinião dele é compartilhada por gente séria que acompanha de perto o trabalho da PF.
Um jornalista que trabalhou em reportagens sobre quase todas as principais operações e investigações da PF nos últimos 10 anos fez a seguinte avaliação para Carta Maior. Entre mais de sete mil delegados, apenas um é identificado como possível simpatizante do PT. Seria o único que não emite opiniões desabonadoras sobre o partido. Os demais estariam divididos em três grupos. Um mais simpatizante do PSDB, composto por delegados que ocuparam postos de maior relevância durante a gestão anterior e esperam retornar caso o partido volte a governar o País. Outro mais identificado com o PFL, pelos posicionamentos mais enfáticos em defesa da ordem, da propriedade e de valores moralistas.
O terceiro grupo seria integrado por delegados sem simpatias partidárias, voltados apenas para o cumprimento de seus deveres e obrigações funcionais e legais. As investigações do dossiê dos empresários corruptores Vedoin estariam sendo conduzidas por integrantes deste terceiro grupo. Na avaliação do repórter, tais delegados não teriam nenhum impedimento nem constrangimento para revelar o resultado das investigações, assim que tivessem certeza sobre a origem do dinheiro que seria usado para pagar o dossiê. Não teriam qualquer inibição pela possibilidade de que essa conclusão pudesse interferir no processo eleitoral.
Portanto, até que haja indícios em contrário, a PF teria conquistado uma independência que a credencia como a entidade melhor qualificada para apurar o caso do dossiê. A pressão da oposição por intermédio da CPI e da Justiça Eleitoral só se justifica pelo desespero de perder uma eleição que só foi para o segundo turno por erros do lado governista, que conseguiu se reabilitar na retomada da disputa ao estabelecer a diferença de projetos, focalizando no emblema das privatizações. Com esse cenário, a propaganda eleitoral do candidato tucano, Geraldo Alckmin, na televisão teve de ir para o tudo ou nada. Na noite desta terça-feira (17), gastou mais da metade do programa tentando colar em Lula todas as denúncias de casos de corrupção no governo. A campanha do candidato petista contra-atacou com o terrorismo que aprenderam com os tucanos nas duas últimas eleições. Deixaram na cabeça do eleitor uma pergunta que não cala: se os tucanos privatizaram tanto, quem garante que não vão privatizar mais?
Essa questão é tão constrangedora para o candidato do PSDB, que a Agência Estado provocou uma grande confusão na campanha de Alckmin ao tentar reproduzir a entrevista concedida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à Rádio CBN na manhã desta terça-feira (17). Deram destaque para a declaração “não sou contra a privatização da Petrobras”. Mas o presidente dissera “eu não; sou contra a privatização da Petrobras”. O contexto da declaração era claro, mas para a jornalista que reproduziu o conteúdo, a opinião do ex-presidente deveria ser outra. Talvez mais afinada com o modelo de seu governo. Ninguém teria essa dúvida se ele não tivesse dados passos nessa direção. Em 1998, o PFL queria colocar a privatização da Petrobras no programa de governo da reeleição de FHC. Acabaram tirando do papel, mas não da cabeça dos dirigentes pefelistas.
Além disso, FHC muda tanto de opinião que ninguém sabe mais o que ele pensa. Em junho de 1999, disse ao Jornal do Brasil que o “lacerdismo” representaria “a ânsia de quebrar regras, de desrespeitar o voto popular”. Semanas atrás engatou um discurso diferente em relação ao ex-governador do antigo Estado da Guanabara Carlos Lacerda, tido como responsável pelas crises que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas, quase impediram a posse de Juscelino Kubtschek e depuseram João Goulart, no Golpe Militar de 1964. Segundo FHC estava faltando um Lacerda na campanha tucana “para tocar fogo no palheiro”. É o que seus seguidores estão fazendo ao deflagrar o terceiro turno da campanha eleitoral.