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Reconhecimento de diferenças rompe desigualdade nas escolas

 

Agência Carta Maior

Dos eixos temáticos desta edição do Fórum Mundial de Educação, que encerado neste domingo (25) em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, o debate sobre a relação entre educação, cultura e diversidade foi um dos mais procurados. Na última sexta-feira, mais de sete mil pessoas se espremeram no ginásio do Sesc para acompanhar as palestras. No centro da discussão, a importância do reconhecimento da diversidade para o combate à desigualdade dentro das escolas.

“Temos direito de ser iguais. Mas nós somos diferentes. Vivemos o embate entre a subalternidade e a homogeneização. Por isso, a diversidade garante novos espaços de resistência e carece de novas práticas políticas. Só que precisamos ligar todo esse debate à realidade. E a partir da diversidade cultural acabarmos com a desigualdade”, destacou o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), do Ministério da Educação, Ricardo Henriques, que defendeu uma visão não linear do multiculturalismo.

Segundo Henriques, a política do Ministério da Educação (MEC) há 70 anos foi a de tentar apagar as diferenças entre os alunos, buscando sua homogeneização. Como exemplo há o fator dos índices do tempo médio de escola. Há 50 anos, uma pessoa branca tinha em média 5,5 anos de vida escolar, enquanto uma negra tinha 3,4. Hoje, aparentemente os números melhoraram: os brancos têm em média 8,4 anos e os negros, 6,1. No entanto, a desigualdade permanece:

“Os números avançaram, mas não são insuficientes. Agora, precisamos não apenas manter o crescimento como acelerar o processo na questão dos negros. Daí as ações afirmativas; por isso a nossa política de cotas”, explicou Henriques, para quem a exclusão é simplesmente o resultado de um processo de estímulo à desigualdade. “A exclusão é o que há de mais coerente no mundo. A nossa sociedade precisa desses excluídos; eles movem toda a sociedade. Mas precisamos acabar com essa lógica. O primeiro passo para isso é reconhecer as diferenças”, acredita.

Neste sentido, o MEC entende que a lei 10.639, que coloca em pauta a história afro-brasileira nas salas de aula é um projeto para todos, e não para os afrodescendentes. “O princípio das ações afirmativas acaba sendo deturpado por muitas pessoas. É vital tratar desigualmente os desiguais. É urgente trazer de forma radical os saberes diversos. Precisamos explorar as subjetividades como produtores de saberes”, disse o secretário.

Na opinião de Rosangela da Costa Araújo, do Instituto Geledes, uma organização que desenvolve projetos de ações afirmativas voltados a jovens negros, as escolas continuam a servir as elites, deixando de lado o fundamento essencial de construção da sociedade: o respeito às diferenças. Já Ana Paula Brandão, coordenadora do projeto “A Cor da Cultura”, acredita que a diversidade deve ser priorizada para conseguir romper a barreira da invisibilidade dos excluídos: “A visão do educador sobre a realidade deve partir do educando. Somente assim é possível reconhecer, respeitar e incorporar o outro. Assim, rompemos com os valores tradicionais de socialização universais da escola. Assim, começamos enxergar diferente os diferentes”.

O enfrentamento às desigualdades, no entanto, não passa apenas pelo reconhecimento das diferenças de etnias entre os alunos, mas entre os diversos fatores que configuram o processo educacional. Uma das grandes questões para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, por exemplo, é construir a realidade educacional ao lado do trabalho no campo e da luta pela reforma agrária. Na opinião de Clarice Aparecida dos Santos, do MST, a escola proposta pelo Estado brasileiro hoje, dentro de um conceito de “universalização do ensino”, segue um modelo padrão, que é essencialmente urbano e não respeita a diversidade cultural do país.

Outra barreira a ser quebrada pela educação é a idealização da manutenção do mundo familiar. O MEC defende uma “republicanização” do ensino, buscando a emancipação das pessoas e não a manutenção dos valores éticos e morais de uma sociedade excludente. “O problema, no entanto, não é só da escola. É da sociedade, e a escola faz parte disso. Sem mudanças estruturais profundas e de princípios, é impossível alcançarmos mudanças. O Brasil precisa parar de confundir as coisas. Desigualdade é diferente de diferenças. Precisamos assumir as diferenças para diminuir a desigualdade”, afirmou o relator da ONU pelo Direito à Educação, o costa-riquenho Vernor Munhoz.


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