| Carta
da FUP encaminhada ao Presidente Lula
em outubro de 2005 |
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Ao:
Excelentíssimo Sr Presidente da República
Federativa do Brasil - Luis Inácio
Lula da Silva.
De: Federação Única
dos Petroleiros - FUP
Assunto: Cancelamento Imediato da 7ª
Rodada de Licitação da Agencia
Nacional de Petróleo (ANP)
Sr
Presidente, mais uma vez nós, trabalhadores
do setor petróleo do Brasil, nos
dirigimos a Vossa Excelência para
manifestar nossa insatisfação
com o processo de licitação
de blocos para exploração
de petróleo e gás natural,
sob a administração da Agência
Nacional de Petróleo (ANP) e coordenação
do Conselho Nacional de Política
Energética (CNPE), órgão
este vinculado ao Gabinete de Vossa Senhoria.
Sempre fomos contra os leilões dos
blocos exploratórios porque entendemos
que estes são patrimônios estratégicos
da nação brasileira, que não
devem ser explorados dentro da lógica
de valorização do capital
no curto prazo, em detrimento da estabilidade
energética, no longo prazo.
Todo este processo de licitação
dos campos exploratórios em nosso
país tem por base a Emenda Constitucional
n? 9, aprovada em 1995, apesar da resistência
heróica dos petroleiros da Petrobrás;
e a lei 9.478, de iniciativa do então
presidente Fernando Henrique Cardoso, aprovada
em 1997. Ambas legislações
foram implantadas no bojo das medidas neoliberais.
Quando da adoção deste novo
marco regulatório, chamamos a atenção
para as mudanças estruturais que
este setor vinha passando à nível
internacional que apontavam, invariavelmente,
para a alta do preço, no médio
prazo, desta que é a principal fonte
energética da humanidade. Alertamos
que as baixas cotações do
barril do petróleo no mercado, em
média US$ 15 o barril, eram fruto
de fatores conjunturais, mais associados
às mudanças geopolíticas
por que o mundo passava naquele momento,
do que de um excesso estrutural da oferta.
Nossas previsões estavam certas,
o barril do petróleo anda hoje perto
dos US$ 60 e analistas internacionais falam
em US$ 100 dólares, no médio
prazo.
O discurso oficial de então, defendido
a ferro e fogo pelos pefelistas e pesedebistas,
era que as mudanças na legislação
iam garantir, através do aumento
da concorrência, a redução
dos preços dos derivados de petróleo
e o aumento do emprego no setor. De lá
para cá, o preço médio
da gasolina subiu 660 % e o do botijão
do gás de cozinha, 700% enquanto
a inflação acumulada não
passou de 200%. Mais de 97% dos empregos
gerados no setor estão diretamente
relacionados com a atuação
da Petrobrás e as empresas privadas
só querem investir onde o risco é
zero e há garantias/facilidades para
exportação de sua produção.
Exmº Presidente, como já destacamos
em outra carta enviada a Vossa Excelência,
a Petrobrás irá garantir a
auto-suficiência na produção
nacional de petróleo, no ano de 2006.
A partir de então, passaremos a exportar
parcela crescente de petróleo, atingindo
a marca de 550 mil barris diários
no ano de 2010, conforme o planejamento
estratégico da empresa.
Não temos o monopólio da verdade,
mas estamos convencidos de que o país
não precisa vender nossas províncias
petrolíferas ainda não exploradas.
Devemos guardá-las como reservas
estratégicas. De outro modo, corremos
o risco destas irem parar nas mãos
erradas que só querem o lucro fácil
e rápido. Corremos o sério
risco de acelerar nossas exportações
no curto prazo, para garantir o lucro das
multinacionais que atuam neste setor e,
infelizmente, retomar as importações
no médio/longo prazo, com o preço
do barril próximo ou maior que US$
100. A atuação da multinacional
Shell no Brasil confirma este nosso receio,
uma vez que a mesma exporta toda a sua produção
obtida na Bacia de Campos, 58 mil barris/dia
de petróleo.
Queremos debater da forma mais ampla possível
esta questão. Por isto, Sr Presidente,
reivindicamos que Vossa Excelência
interrompa o andamento dos preparativos
para a realização da 7? rodada
de licitações de blocos exploratórios
e promova um amplo debate nacional sobre
o tema da regulamentação do
setor petróleo no Brasil. Esta legislação
que esta aí já não
servia quando da sua adoção
e hoje se mostra anacrônica, na contramão
das estratégias que os demais países
vêm adotando à nível
internacional. Aqui mesmo, na América,
temos vários exemplos, com destaque
para o Uruguai, a Venezuela, a Bolívia
e mais recentemente os EUA, onde a sociedade
norte Americana, liderada por Deputados
Republicanos, se mobilizou para impedir
que a petrolífera Unocal fosse adquirida
por uma empresa estatal chinesa. A Câmara
Federal dos Deputados aprovou, por 333 votos
a 92, uma emenda que bloqueava a analise
dentro do governo da venda da Unocal para
a Estatal chinesa e, por 398 a 15, uma resolução
declarando que a operação
ameaça a segurança nacional.
Em que pese os protestos do Governo Chinês,
a operação foi proibida.
O caso da Bolívia merece, também,
uma maior reflexão por seus impactos
diretos na economia brasileira e mais especificamente
no sétimo leilão de licitação.
Desde o final dos anos 90, quando da privatização
da água, os Bolivianos vem se mobilizando
para fazer valer os interesses da sociedade
em detrimento dos interesses dos grandes
grupos econômicos e da elite local.
A recente mobilização da população
local pela nacionalização
de suas reservas estratégicas de
gás natural, assim como da produção,
foram motivadas pela constatação
por parte dos bolivianos de que suas riquezas
naturais sangravam pelos dutos das petrolíferas
sem que seus antigos problemas sociais fossem
minimamente resolvidos. A mobilização
colocou em risco o abastecimento de gás
natural no mercado brasileiro, uma vez que
70% do gás natural comercializado
no Brasil vem deste país.
O exemplo da Bolívia, onde os dutos
das transnacionais escoavam esta importante
riqueza nacional, pode se repetir no Brasil
uma vez que, segundo a ANP, o foco do 7?
Leilão de licitação
dos blocos exploratórios são
as áreas com alto potencial para
produção de gás natural.
Segundo a mesma ANP, tanto a Constituição
Federal quanto a lei 9.478 garantem ao comprador
do bloco a posse das reservas localizadas
no sub-solo e, conseqüentemente, a
exportação das mesmas, se
a empresa exploradora assim decidir. Ora,
Sr presidente, qual o sentido desta operação?
Qual o sentido da Shell exportar sua produção
de petróleo, diga-se de passagem
de alta qualidade ( com API? maior que 30
), se nos ainda necessitamos importar petróleo
leve? Vamos deixar que esta situação
se repita no segmento de gás natural?
Assim sendo, Sr. Presidente, queremos contar
com o apoio de Vossa Excelência para
a realização de um Plebiscito
Nacional que discutirá os marcos-regulatórios
de uma nova legislação para
o setor de hidrocarbonetos no Brasil.
Como já destacado anteriormente,
não nos arvoramos a afirmar que temos
o monopólio da verdade. Queremos
debater com todos os nossos pontos de vista
o mais profundamente possível, e
entendemos que só conseguiremos alcançar
nossos objetivos com o cancelamento do 7?
Leilão e a convocação
do plebiscito para o mais breve o possível.
Sr Presidente Luis Inácio Lula da
Silva, temos consciência das dificuldades
que Vossa Excelência encontra no seu
governo, mas acreditamos em vossa capacidade
e, mais importante de tudo, em vosso compromisso
histórico com o fim das injustiças
sociais e com a luta dos trabalhadores.
Apoiamos V.Excia. nesta tarefa árdua
e queremos contribuir com este processo
que, em nosso entendimento passa pela mudança
no marco regulatório do setor de
hidrocarbonetos no Brasil.
Sem mais para o momento, nos colocamos à
disposição para quaisquer
esclarecimentos adicionais,
Saudações Sindicais,
Antonio Aparecido Carrara - Coordenador
da Federação Única
dos Petroleiros. |