| Carta
da FUP encaminhada ao Presidente Lula
em agosto de 2004 |
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Ao:
Excelentíssimo Sr Presidente da República
Federativa do Brasil - Luis Inácio
Lula da Silva
De:
Federação Única dos
Petroleiros - FUP
Assunto: 6ª Rodada de Licitação
da Agencia Nacional de Petróleo -
ANP
Sr Presidente, nos últimos vinte
e cinco anos, o Brasil vem "andando
para os lados", sem se desenvolver.
Ao longo da década de 90, e dos primeiros
anos do século XXI, implantou-se
no país, como Vossa Excelência
bem sabe, um longo processo de desmonte
da capacidade de ação do Estado,
como mola propulsora do tão sonhado
desenvolvimento sustentável. A população,
mais especificamente os estratos mais pobres,
sentiu na pele este movimento.
Nunca devemos esquecer as lições
deixadas pela falta generalizada de energia
por que passou o país ao longo do
ano 2000. Uma mistura de falta de planejamento/irresponsabilidade
do Governo Federal e de incapacidade do
empresariado que atua no setor de pensar,
a médio/longo prazos, e que priorizou
seu ganho imediato em detrimento dos investimentos
em ampliação da capacidade
e melhoria da eficiência dos ativos
já existentes.
Antes de mais nada, gostaríamos de
deixar aqui nossa saudação
para com Vossa Excelência e reforçar
nosso apoio incondicional às medidas
de governo que apontem para o desenvolvimento
sustentável, com distribuição
de renda em nosso país. Reconstruir
uma estrutura institucional que alicerce
o desenvolvimento do país a longo
prazo não é tarefa fácil,
mas, para nossa sorte, cabe à Vossa
Excelência conduzir este movimento.
Alias, foi por acreditar em vossa capacidade
de conduzir este processo que os petroleiros,
liderados pela FUP, apoiaram vossa candidatura
à Presidência da República
em todos os pleitos, desde 1999.
Vários são os problemas a
serem enfrentados para se pavimentar, de
fato, o caminho para o desenvolvimento com
distribuição de renda. Mas,
disponibilizar todos os tipos de energia,
a curto, médio e longo prazos, em
quantidade suficiente e preços competitivos,
que não inviabilizem as industrias
locais, é um dos maiores desafios
de vosso governo.
Os derivados de petróleo são
responsáveis por aproximadamente
um terço da matriz energética
brasileira, situação muito
mais confortável que a dos países
desenvolvidos, onde tais derivados têm
um peso muito maior enquanto fonte energética.
No entanto, a participação
dos hidrocarbonetos na matriz energética
brasileira não é desprezível
e merece atenção especial
por parte de vossa administração.
Ao longo dos últimos 50 anos, o país
perseguiu uma meta que será alcançada
no Governo de Vossa Excelência, a
de se tornar auto-suficiente na produção
de petróleo. No seu recém
divulgado planejamento estratégico,
a Petrobras S.A. anunciou para 2006 esta
façanha. É fundamental ressaltar
aqui que atingiremos a auto-suficiência
sem contar com uma gota do petróleo
produzido pela Shell na Bacia de Campos,
já que esta obteve autorização
da Agência Nacional de Petróleo
- ANP para exportar sua produção.
O cenário internacional atual dá
toda a dimensão desta conquista.
Não fosse a produção
da Petrobras, estaríamos gastando
bilhões de dólares com a importação
de petróleo e comprometendo, de vez,
qualquer expectativa de retomada do desenvolvimento
com distribuição de renda.
Não menos importante, Sr Presidente,
é que o primeiro ano de seu governo
entrará para a história da
Petrobras como um dos melhores anos para
as atividades exploratórias da empresa.
Segundo o relatório Anual 2003 da
Petrobras: "Além do expressivo
volume de petróleo descoberto, a
maior importância das descobertas
de 2003 reside em que foram identificadas
novas províncias de óleo de
excelente qualidade (40 API) e de gás
natural e condensado"
Sem a incorporação das descobertas
de 2003, que ainda estão em avaliação,
as reservas de petróleo da Petrobras
somavam 12,6 bilhões de BOE, o que
garante uma relação reserva/produção
de 17 anos. A incorporação
das reservas descobertas em 2003 fará
com que esta relação suba
para mais de 20 anos.
Outra informação importante
é que a Petrobras incorporou às
suas reservas 2,2 bilhões de barris
de petróleo, em 2003, o maior volume
já incorporado em sua história.
Do total incorporado, 35% foi obtido em
descobertas em blocos exploratórios
e os demais 65% em campos existentes em
dezembro de 2002. Em outras palavras, Sr
Presidente, a história nos tem mostrado
que a empresa tem muito petróleo
ainda a descobrir nos blocos que já
explora atualmente.
Vossa Excelência sabe, pois sempre
esteve ao nosso lado nas nossas brigas históricas
em defesa da Petrobras, que petróleo
não é um produto qualquer.
O comportamento do mercado internacional
deste produto tem reafirmado esta noção.
Mais ainda, estudo recente do Comitê
Brasileiro do Conselho Mundial de Energia
mostra que a situação atual
de preço elevado do barril de petróleo,
menos que conjuntural, vai se consolidando
como um constrangimento estrutural.
É neste cenário que a ANP
vai promover, nos dias 17 e 18 de agosto
de 2004, a 6ª rodada de licitação
para concessão de direitos de exploração
e produção de petróleo.
Há uma diferença entre esta
rodada e as anteriores. A rodada atual vai
leiloar blocos adjacentes aos blocos em
que a Petrobras fez importantes descobertas
em 2003. Segundo a própria ANP, áreas
com alta probabilidade de se localizar hidrocarbonetos.
Como Vossa Excelência bem sabe, Sr
Presidente, há um risco enorme destas
reservas estratégicas caírem
nas mãos de empresas que só
pensam no lucro fácil e rápido.
A alta dos preços no mercado internacional
e a qualidade dos blocos colocados à
venda reforçam este receio. Corremos
o risco de perder o controle sobre estas
reservas que poderão ser exportadas
sem qualquer consideração
quanto ao seu caráter estratégico,
como vem fazendo a Shell com a sua produção
em solo nacional.
As descobertas recentes da Petrobras colocam
o país em uma situação
confortável nos próximos 20
anos. Não devemos nos acomodar, mas
devemos tomar as decisões com muita
sabedoria e segurança, de modo a
não comprometer nosso desenvolvimento
no médio/longo prazos. Não
devemos "queimar" nossas reservas
de petróleo agora e correr o risco
de criar uma dependência de importação
no futuro.
Por tudo isso, Sr Presidente, estamos fazendo
um apelo a Vossa Excelência para que
o Governo suspenda a 6ª rodada de licitação
e promova um debate mais aprofundado, envolvendo
representantes da sociedade civil, sobre
as reais necessidades do país explorar
estas reservas no curto prazo e sobre os
riscos conseqüentes desta decisão.
Queremos que Vosso Governo tenha respaldo
da sociedade no encaminhamento desta questão
tão delicada, motivo pelo qual defendemos
a realização de um plebiscito
com ampla participação popular
para discutir a situação do
setor petróleo como um todo. Vários
países vêm chamando a sociedade,
por meio de plebiscitos, para debater o
futuro da indústria do petróleo,
entre estes podemos citar nossos vizinhos,
Uruguai e Bolívia. Temos que ter
a coragem de debater com a sociedade as
mudanças ora em andamento no setor
petróleo por conta da Lei 9.478/97.
O caráter estratégico do setor
reflete-se na sociedade e as decisões
tomadas agora impactam sobre as gerações
futuras.
Sem mais para o momento, nos colocamos a
disposição de Vossa Excelência
para quaisquer esclarecimentos adicionais,
Saudações Sindicais
Antonio
Aparecido Carrara - Coordenador da Federação
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