| ANP
começa leilão e FUP exige
mudanças na Lei do Petróleo |
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Diante
da realização de novos leilões
para a exploração de petróleo
e gás, Federação Única
dos Petroleiros programou manifestações
pela suspensão dos negócios
e mudanças na Lei do Petróleo.
Para governo, leilões ajudarão
a garantir a auto-suficiência do país
no setor.
MAURÍCIO THUSWOHL - CARTA MAIOR
18/10/2005
Rio de Janeiro - O petróleo
é nosso? Debatida com grande entusiasmo
político em períodos recentes
de nossa história, a questão
volta a ganhar as páginas dos jornais
brasileiros esta semana. De um lado, a Agência
Nacional de Petróleo, Gás
Natural e Biocombustíveis (ANP) deu
início na segunda-feira (17) a sua
Sétima Rodada de Licitações
para blocos de exploração
de petróleo e gás. O processo
atraiu diversas empresas estrangeiras e
arredou R$ 546,6 milhões no primeiro
dia de um leilão que deve acabar
somente na sexta-feira (21), pois foram
vendidos apenas 140 blocos de um total de
450 oferecidos. De outro lado, a Federação
Única dos Petroleiros (FUP) iniciou
uma semana de mobilizações
exigindo a alteração da Lei
do Petróleo e a suspensão
imediata dos leilões. A ação
dos petroleiros teve início com uma
manifestação em frente ao
Hotel Sheraton, no Rio de Janeiro, onde
está sendo realizado o leilão
da ANP. Com apoio de militantes da CUT e
do MST, o ato reuniu cerca de 300 pessoas,
segundo avaliação da FUP.
Na quarta-feira (19), dirigentes da FUP
passarão o dia em Brasília,
onde pretendem conversar com os deputados
sobre o andamento da Proposta de Emenda
Constitucional (PEC) ao Artigo 176, que
trata da propriedade das reservas de petróleo
no Brasil. Elaborada pelos petroleiros e
apresentada pelo deputado federal Luciano
Zica (PT-SP), a PEC devolve à União
o monopólio sobre as reservas petrolíferas
brasileiras. Em sua redação
atual, o Artigo 176 da Constituição
Federal determina que "as jazidas,
em lavra ou não, e demais recursos
minerais e os potenciais de energia hidráulica
constituem propriedade distinta da do solo,
para efeito de exploração
ou aproveitamento, e pertencem à
União, garantida ao concessionário
a propriedade do produto da lavra".
O texto da PEC proposto pela FUP, por sua
vez, suprime a última parte e afirma
que "as jazidas, em lavra ou não,
e demais recursos minerais e os potenciais
de energia hidráulica constituem
propriedade distinta da do solo, para efeito
de exploração ou aproveitamento,
e pertencem à União".
Coordenador da FUP, Hélio Seidel,
revela que a categoria pretende negociar
com os deputados a inclusão, no texto
da PEC, de um trecho que determine qual
a destinação da renda obtida
com o petróleo. "Queremos que
a renda do petróleo seja revertida
para a erradicação da pobreza,
para a realização da reforma
agrária e para projetos em saúde
e educação", afirma o
dirigente. Para a FUP, é um absurdo
que os recursos minerais, que pertencem
à União no subsolo, passem
às mãos das empresas concessionárias
depois de extraídos. "O texto
proposto devolve a soberania nacional sobre
este setor estratégico para o nosso
país", avalia Seidel. Os petroleiros
querem apressar o trâmite da PEC,
que foi apresentada por Luciano Zica em
junho e encontra-se atualmente sob análise
dos integrantes da Comissão de Constituição
de Justiça (CCJ) da Câmara.
Os dirigentes da FUP pretendem conversar
com os parlamentares também sobre
a possibilidade de apresentação
de um projeto determinando a realização
de um plebiscito nacional para que a população
possa opinar sobre a propriedade das reservas
petrolíferas e sobre a construção
de uma nova legislação para
o setor: "O controle e o destino das
reservas de petróleo e a participação
das empresas estrangeiras no setor de exploração
e produção são questões
que dizem respeito a cada um dos brasileiros.
O povo tem que opinar sobre isso, como também
sobre a destinação dos recursos"
, afirmou Seidel.
Ação popular
A FUP também deu entrada esta semana
na Justiça em um ação
popular para interromper o leilão
da ANP. A Sétima Rodada de Licitações
da agência, segundo os petroleiros,
na realidade vai leiloar 1.134 áreas
de exploração petrolífera
com lances inicias irrisórios. "Existem
blocos com lances a partir de R$ 1 mil.
Ou seja, pelo preço de uma geladeira,
pode-se comprar uma área de exploração
com potencial de rendimento anual de R$
12 milhões! O petróleo brasileiro,
que deveria gerar desenvolvimento e riqueza
para o nosso país, é leiloado,
explorado e enviado para o exterior",
diz uma nota divulgada pela federação.
Seidel afirma "não ter expectativa
maior" sobre a possível concessão
de uma liminar que interrompa o leilão
em andamento, mas qualificou como "açodamento
da ANP" sua realização:
"A ANP deveria ter adiado o leilão
e aguardado um pouco mais o desenrolar das
coisas, pois vivemos um quadro de aumento
constante do preço do barril de petróleo
que gera uma corrida mundial por novas áreas
de exploração", disse.
A FUP também critica a ANP por não
levar em consideração as mudanças
na conjuntura internacional. "Em agosto
de 2004, quando a ANP realizou o sexto leilão
das nossas reservas, o barril de petróleo
custava em torno de US$ 30. Agora, às
vésperas de mais uma rodada de licitação,
o barril já é negociado acima
de US$ 60. E analistas internacionais prevêem
que em breve o barril chegará a U$
100", diz a nota da entidade.
Leilão é
um sucesso
A Sétima Rodada de Licitações
da ANP já está coroada de
êxito, segundo os organizadores do
leilão. Para se ter uma idéia,
a rodada anterior, realizada em agosto do
ano passado, arrecadou R$ 665 milhões,
ou seja, cerca de 80% desse valor já
foi atingido apenas no primeiro dia da rodada
atual. O aumento da venda das áreas
exploratórias deve-se provavelmente
à participação recorde
das empresas interessadas. Segundo dados
apresentados pelo Ministério das
Minas e Energia (MME), cerca de 120 empresas
se inscreveram para participar desse sétimo
leilão. "Isso demonstra o sucesso
desse sistema. Nas seis rodadas anteriores
já foram oferecidas 343 áreas
e os investimentos em exploração
e produção chegam aos US$
15 milhões.", revela o ministro
Silas Rondeau.
Rondeau afirmou que os leilões realizados
pela ANP estão sendo fundamentais
para garantir em breve ao Brasil a auto-suficiência
na produção de petróleo
e gás natural. As projeções
do MME afirmam que já no ano que
vem o país passará a produzir,
na média, todo o petróleo
que consome, o que permitirá a busca
da auto-suficiência para algum tempo
depois: "Isso é muito importante
porque, com a confirmação
do sucesso exploratório das áreas
desta Sétima Rodada, nós poderemos
estar garantindo até o ano de 2015
essa auto-suficiência", afirmou
o ministro em entrevista à página
na internet do jornal O Globo. Outra boa
notícia na opinião do ministro
é o aumento do interesse das empresas
pela prospecção de gás.
"Há uma ênfase no gás
natural, o que é de extrema importância
para o atual cenário energético
do país. O objetivo é a redução
do nosso déficit entre a oferta e
a demanda de gás, melhorando a nossa
relação de dependência
dos países dos quais importamos,
especialmente da Bolívia e da Argentina",
disse.
Para a FUP, no entanto, as afirmativas do
ministro servem como mais uma justificativa
para que o leilão não fosse
realizado. "Se estamos próximos
da auto-suficiência, para que continuar
vendendo as áreas de exploração?
Desse jeito, daqui a pouco essas empresas
concessionárias estarão exportando
nosso petróleo. Se o país,
que não tem reservas que garantam
seu futuro, precisar desse petróleo
mais tarde, terá que comprá-lo",
afirmou Hélio Seidel. O sindicalista
criticou também o valor dos royalties
do petróleo praticados pelo Brasil:
"O valor de 10% está defasado
com a realidade do setor", disse.
Petrobras na cabeça
A Petrobras está sendo mais uma vez
a empresa com maior desenvoltura no leilão
promovido pela ANP. Dos 140 blocos para
exploração arrematados no
primeiro dia de vendas, a empresa brasileira
levou 31, atuando sozinha ou em consórcios
com outras empresas nacionais e estrangeiras.
A Petrobras também chamou a atenção
na abertura da rodada de licitações
ao pagar o maior ágio da história
desses leilões (18.200%), fazendo
uma oferta de R$ 1,8 milhão por um
bloco no Recôncavo Baiano que tinha
lance inicial estipulado em R$ 10 mil. O
lance mais caro do dia também foi
oferecido pela Petrobras, desta vez em parceria
com a empresa estadunidense Devon Energy:
foram R$ 116 milhões por um bloco
na fértil e lucrativa Bacia de Campos.
Além da Devon, muitas outras empresas
estrangeiras participaram do leilão
da ANP. Entre elas, destaque para as também
estadunidenses Aurizônia e Arbi, a
canadense Ressources e as européias
Shell (Holanda), Statoil (Noruega), Repsol
(Espanha) e Petrogal (Portugal), que arremataram
blocos espalhados pelo país.
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