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geopolítica mundial do petróleo
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A
economia mundial está sob impacto
de uma nova crise de energia, largamente
explicitada pelos preços do barril
do petróleo - além de US$
50 desde setembro de 2004. Menos espetacular
do que as anteriores, a atual crise, mais
silenciosa e duradoura, parece atingir as
próprias bases do modelo energético
do Ocidente. A análise é de
Francisco Carlos Teixeira.
FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA 26/09/2005
Em setembro de 2004, em face dos evidentes
sinais do descontrole dos preços
do petróleo no mercado mundial, as
mais importantes autoridades econômicas
e financeiras do mundo ( nos referimos aos
Estados Unidos, Japão e União
Européia - doravante UE) apressaram-se
a expor, em público, sua confiança
na ordem econômica e nas perspectivas
de crescimento mundial. Coube a Claude Mandil,
diretor da Agência Internacional de
Energia, declarar que o "mercado internacional
de petróleo encontra-se suficientemente
abastecido", podendo, portanto, resistir
ao impacto dos preços do barril do
"cru".
Enquanto
isso o ministro do petróleo da Arábia
Saudita, Ali al Naimi, anunciava que seu
país estava disposto a elevar a produção
em 30%... em dois anos, chegando a 14 milhões
de barris/dia. Por sua vez Ahmad Fahd al
Ahmad, ministro do Kwait, prognosticava
- sem nenhuma evidência histórica,
como veremos a seguir - que os preços
cairíam, em especial após
as eleições americanas de
2 de novembro (de 2004). Várias autoridades
mundiais, entretanto, apresentavam-se bem
menos otimistas, particularmente quando,
em 12 de outubro de 2004 o barril do cru
tipo Brent, negociado em Londres, ultrapassa
a "barreira psicológica"dos
U$50,00. Os setores dependentes do petróleo
(e derivados) mais ligados à produção,
como a pesca, os transportes de mercadoria
e a aviação civil apresentavam
sinais evidentes de nervosismo. No interior
da União Européia os setores
sensíveis, em particular os transportes,
apresentavam-se, conforme assinala o comissariado
europeu, com um caráter crítico.
Mesmo figuras marcadas pela discrição
e muito pouco dadas a críticas públicas,
como o primeiro presidente do Banco Central
da UE advertem para a iminência de
uma crise.
Em meio a uma imensa onda de rumores, o
presidente da OPEP, Purmono Yusgiantoro
(da Indonésia) declara - contrariando
seu colega saudita - que não estavam
programados novos aumentos da produção
de petróleo, visando controlar os
preços, visto que o descontrole atual
derivaria de razões estranhas à
própria economia do petróleo.
Aqui reside um ponto fundamental e bastante
controverso: a alto dos preços (mais
de 70% em relação ao mesmo
período de 2003) seria decorrente
de fatores externos à economia do
petróleo - como o conflito no Iraque
(e depois aos efeitos do Katrina) ou estariam
inscritas suas causas na própria
estrutura de exploração e
industrialização do combustível
fóssil ?
A vulnerabilidade da União Européia
No interior da UE - absolutamente carente
de combustível - o aumento (para
a gasolina de 95 octanas), acumulando um
aumento em igual período de 16.1%,
enquanto o óleo chegava a acumular
20.2%. Deve-se notar que o impacto, até
o presente, não foi maior em razão
da relativa valorização do
euro em face do dólar, criando uma
boa capacidade de absorção
de altas - uma espécie de colchão
pneumático capaz de amortecer o primeiro
impacto - embora, é claro, por um
tempo determinado. Nos Estados Unidos, por
sua vez, o aumento do preço se reflete
diretamente na produção local
e reflui com rapidez para os postos de abastecimento,
conforme já aparece nos grandes estados
turísticos como a Flórida
e a Califórnia, além do saldo
extremamente negativo da temporada de furacões
no Golfo do México.
Perante tais sinais, ainda bastante contraditórios,
a questão que se coloca para os experts
no assunto é: estamos perante um
novo choque do petróleo? E, se a
resposta for positiva, como este quinto
choque atingirá a ordem econômica
mundial? Mais ainda: sendo um choque, é
este já um choque decorrente da raridade
do combustível fóssil, uma
fonte não-renovável de energia?
Os choques do petróleo: visitando
a história
Se quisermos ser exatos podemos marcar,
até este último trimestre
de 2004, ao menos quatro grandes impactos
- os chamados "choques" - sobre
a economia mundial decorrente de aumentos
bruscos e continuados do preço do
petróleo. Este bem - o petróleo
-, dada suas especificidades econômicas
e estratégicas (uso universal; larga
dependência dos grandes centros consumidores;
grande concentração da produção
em áreas instáveis do planeta,
etc...) permite-se a uma série de
fortes manipulações, decorrendo
daí os chamados "choques".
Praticamente nenhum outro artigo do comércio
mundial possui características similares
- talvez no futuro a água - para
efeito de comparação com o
petróleo e o gás natural.
Da
mesma forma, foi preciso chegar-se a duas
condições necessárias
para que as manipulações em
torno do petróleo pudessem se converter
em "arma política". De
um lado, a mínima organização
dos produtores - o que se consegue a partir
de 1960 com o lançamento das bases
da OPEP e, de outro lado, um acúmulo
de riquezas por parte dos países
produtores de forma a não leva-los
à ruína - em caso de um boicote
contra o Ocidente - em virtude da paralisia
do comércio mundial de petróleo
- mesmo que por um tempo limitado. Tais
condições estavam maduras
em torno do início dos anos '70.
Especialmente o surgimento de uma organização
"sombra" em meio dos países
produtores, a OPAEP/Organização
dos Países Árabes Produtores
de Petróleo, com ampla coordenação
política e que é quem, em
verdade, coordena o boicote ao Ocidente
no momento da Guerra do Yom Kippur, em 1973.
Esta decorrente, por sua vez, da paralisia
das negociações de paz com
Israel e o fracasso da guerra de fustigamento
do Egito sobre o Canal de Suez, implicou
pela primeira vez no uso de uma cartada
capaz de obrigar o Ocidente a pressionar
Israel em direção às
negociações.
O primeiro choque , 1973: após
a Guerra do Yom Kipur, em outubro de 1973,
os países árabes decretam
completo bloqueio do fornecimento de petróleo
aos aliados de Israel, atingindo principalmente
Estados Unidos, Holanda e Portugal. O barril
de petróleo, de tipo Brent, salta
de U$ 8,00 (deflacionados) para U$ 11,5
e, então, em 1974, com a continuidade
do bloqueio (até março), pula
U$ 38,0 o barril. Manteve-se por bom tempo,
mesmo após o fim do bloqueio, num
patamar de U$ 36,0 o barril.
O segundo choque, 1979/80: surge
inicialmente em decorrência da Revolução
Islâmica no Irã, quando o aiatolá
Khomeini obriga a uma ampla renegociação
dos contratos de exploração
das companhias estrangeiras - em especial
a BP - residentes no país. No ano
seguinte eclode a Guerra Irã-Iraque,
desencadeada em 1980 (durará até
1988) por Saddam Hussein contra o novo regime
xiita do Irã (com o apoio dos Estados
Unidos, que armam o Iraque, inclusive com
armas de destruição em massa).
O preço do barril se eleva ao correspondente
a U$ 78/79,0 entre 1979 e 1980 - na verdade
em preços nominais fica em torno
de U$ 32,0 (são os preços
mais elevados desde a Guerra de Secessão
Americana, 1860-64).
O terceiro choque, 1990/91: dá-se
a partir da invasão do Kwait por
Saddan Hussein em 1990, o que retira de
imediato a produção deste
país do mercado. Com o bloqueio ocidental
contra o Iraque as condições
se deterioram, culminando no início
de 1991 na Operação Tempestade
no Deserto, quando os Estados Unidos liderando
uma coligação proclamada pela
ONU invade o Iraque e restaura a soberania
do Kwait. Saddan responde queimando os poços
de petróleo, o que retira do mercado
de imediato algo em torno de 4.6 milhões
de barris, enquanto o preço nominal
ultrapassa os U$40,0.
O quarto choque do petróleo, 2001: a partir dos ataques terroristas contra
Nova York e Washington cria-se uma forte
área de instabilidade no Oriente
Médio, com aumento das pressões
sobre os países produtores. Ao mesmo
tempo um dos maiores produtores mundiais,
a Venezuela, começa a passar por
forte crise institucional, paralisando várias
vezes a produção, e que culminará
em um golpe de estado em 2002 e uma longa
greve da companhia estatal Petróleos
de Venezuela SA, entre 2003 e 2004, levando
o país a importar gasolina. Por fim,
novos produtores - tais como a Nigéria,
a Bolívia e o Equador entram em graves
crises sociais e políticas, com retiradas
ocasionais do mercado. Se bem que o conjunto
de eventos de 2001/2003 não possuem
a dramaticidade dos choques anteriores,
a sucessão de aumentos contínuos
acaba por reforçar a tendência
depressiva da economia mundial, promovendo
grande perdas sobre os índices mundiais
de crescimento, acentuadas pelos efeitos
da Crise Asiática e da sucessão
de ataques especulativos ocorridos anteriormente
( Rússia, Turquia, México,
Brasil e Argentina ).
O quinto choque do petróleo, 2004-2005? Tal como o choque anterior, talvez bem
mais uma eletrificação do
ambiente econômico mundial em torno
dos preços do petróleo, a
atual elevação dos preços
por acima da chamada "barreira psicológica"
dos U$50,0 por barril Brent não ocorre
sob a forma de um impacto inesperado e direto.
Na verdade, desde 2003 vinha-se desenhando
as condições suficientes para
a crise do mercado mundial do petróleo:
a instabilidade venezuelana; a Guerra no
Iraque; a derrubada da petroleira russa
Yukos, além das agitações
sociais e políticas na Nigéria
e mesmo na civilizada Noruega, com conflitos
trabalhistas entre a federação
operária e a patronal.
Devemos aqui fazer uma clara advertência: a maioria dos analistas e a mídia
estavam alinhando uma série de "causas"
de caráter fundamentalmente conjuntural
para a atual elevação dos
preços do petróleo. Só
após a verificação
da consistência da crise, sua profundidade
e possível durabilidade, vários
experts começaram a levantar os fatores
"estruturais" da atual crise,
vinculados principalmente a uma oferta insuficiente
em face de uma demanda cada vez maior. Na
verdade, as autoridades americanas, e dos
grandes organismos mundiais, acreditaram
poder "resolver" rapidamente o
problema venezuelano - de preferência
através do golpe de Estado e a tomada
do poder por uma elite ultra-liberal em
termos econômicos - e, em seguida,
inundar o mercado com petróleo barato
de um Iraque ocupado e pró-ocidental.
Na verdade, a ultrapassagem dos U$ 50,0
por barril, a partir de 12 de outubro de
2004, decorre do fracasso das políticas
americanas em todas estas frentes, além
da incapacidade de voltar-se rapidamente
para fontes alternativas de energia, em
especial em face da chegada do Inverno 2004/05
e a temporada de furacões no Golfo
do México.
Em 2004: as novas condições
para a crise da Ordem Econômica Mundial?
Desde 2003, o preço médio
comparativo do barril tipo Brent estava
- em grande parte devido à Crise
Asiática, e a estagnação
das economias européias e japonesa,
além do passo lento dos Estados Unidos
- em U$ 28,0, refluindo de uma tendência
de alta da década anterior. Contudo,
a incorporação de novos e
poderosos gigantes consumidores, como a
China e a Índia, cujo crescimento
contínuo afeta todo o mercado mundial
de gás e petróleo, começará
a incidir fortemente sobre os preços
internacionais. Já em 2004, somam-se
aos dados anteriores o recrudescimento da
Guerra no Iraque (cuja a primeira fase,
de 19/03 até 01/05 de 2003 anunciava
uma ampla estabilização dos
mercados e grandes negócios para
as firmas de re-estruturação
e modernização da indústria
do petróleo), além dos distúrbios
políticos na Nigéria, os ataques
terroristas na Arábia Saudita e a
crise político-legal da gigante russa
Yukos com o governo Putin. Em suma, se os
fatores conjunturais eram bastante evidentes,
existiam também, desde o início
dos anos '90, dados novos, de caráter
permanente - logo, estruturais - que aparentemente
não foram considerados, em especial
a entrada maciça da China Popular
e da Índia no mercado.
Ao mesmo tempo, em vários outros
pontos do planeta, "mini-crises"
tiravam, mesmo antes de 2004, do mercado
produtores potenciais, tornando o mercado
ainda mais instável. Este foi o caso
da Argentina, paralisada desde 2001; da
Colômbia, que malgrado suas reservas
apreciáveis foi ao mercado como compradora;
a Bolívia, que rompe com um modelo
energético neo-colonial após
uma vitoriosa revolução popular
e mesmo do México e do Brasil, que
em virtude do arrocho fiscal e do combate
ao déficit público não
investem durante anos de forma estratégica
no setor (no caso brasileiro soma-se uma
série de desastres com plataformas
e dutos que diminuem sensivelmente a capacidade
produtiva e os recursos disponíveis
para investimentos, culminando numa grande
crise energética capaz de atingir
duramente o PIB do país).
No caso boliviano, dá-se uma ampla
radicalização da opinião
pública após a queda do presidente
ultra-liberal, e pro-americano, Sanchez
de Lozada, em 2003. Assim, campesinos e
cocaleros, em grande medida liderados pelo
MAS/Movimiento al Socialismo, de Evo Morales
e pelo líder campesino Román
Loyola, mantém um verdadeiro cerco
ao parlamento - ainda herdado do governo
decaído e expressando uma relação
de forças superada pela dinâmica
social - insistindo na completa nacionalização
das reservas de gás e petróleo
do país. Após um áspero
debate, a situação se polariza
em torno do valor dos impostos a serem retidos
na Bolívia em função
da exploração dos seus recursos.
Enquanto a oposição popular
propõe a anulação de
todos os contratos de exploração
existentes, com a subseqüente imposição
de um imposto de até 50%, o governo
propõe manter os contratos vigentes
mediante um imposto de 32%. As companhias
estabelecidas no local mantém-se
em atenta expectativa, ao mesmo tempo em
que os investimentos estão - exceto
pela Petrobrás - paralisados.
Todos estes acontecimentos vieram contrariar
uma tendência bastante otimista em
relação a oferta mundial de
petróleo. Entre 1991 e 2001 o petróleo
passou por uma ampla estabilização
no mercado mundial - mesmo que num patamar
de preços elevados, é verdade
-, com a abertura e colocação
em exploração de vastos jazimentos,
como no Mar do Norte, na África Ocidental
(o "Triângulo de Ouro":
Nigéria, Guiné e Cabinda/Angola),
a expansão da exploração
de novas áreas na Bolívia
e Equador - com as privatizações
-, a extensão da exploração
off shore no Brasil, além da colocação
em prática do Programa da ONU Food
for Oil, que praticamente representava o
retorno do Iraque ao mercado mundial. Claro,
os sinais evidentes de insuficiência
estavam postos: os países "novos"
não investiram o suficiente (México,
Brasil, Bolívia, Equador), enquanto
outros mantinham-se em permanente situação
de crise social e política (Venezuela,
Nigéria).
Petróleo: a chave da sucessão
Clinton/Bush
Em vista de uma análise estratégica
de longo prazo, a Administração
Clinton/Al Gore avançou, como nenhuma
outra presidência americana, em direção
aos estudos de substituição
de fontes de energia, investindo largamente
na ampliação das fontes alternativas
aos combustíveis fósseis.
Dando um passo arriscado e pleno de significado
no futuro próximo, Clinton apoiou
a constituição do Parque Nacional
de Preservação do Ártico
Americano, transformando boa parte do Alaska
em zona de preservação natural.
Ocorre que os maiores jazimentos americanos
ainda não explorados encontravam-se,
exatamente, aí no Alaska. O movimento
ecologista americano temia pela colocação
em exploração de tais recursos,
inclusive os imensos riscos dos oleodutos
cruzando os santuários naturais do
Pacífico, das Montanhas Rochosas
e dos estados de Oregon e de Washington.
Ora, no momento do debate - entre 1993 e
95 - as maiores empresas petrolíferas
americanas não possuíam reservas
próprias que ultrapassassem os doze
anos de exploração (quando
em verdade o setor conta com uma estimativa
estratégica de planejamento de vinte
e cinco anos em virtude do valor dos investimentos
em plantas industriais).
Assim, não só a Administração
Clinton pensava impor de forma definitiva
a premência das pesquisas sobre formas
alternativas de energia, procurando investir
o saldo orçamentário - entre
outros temas - na pesquisa em energia alternativa.
Tal política alcançou, contudo,
uma objetivo inesperado e negativo: conseguiu
unificar todo o lobby do petróleo
contra si mesmo, seu possível sucessor
Al Gore e abrir um amplo debate - já
consolidado em 1998 - em direção
de uma invasão e "reconfiguração"
de um novo Iraque, enquanto uma saída
estratégica para os setores da indústria
do petróleo americana.
Deve-se somar a isso uma visão quase
paradisíaca oferecida aos mercados
pelas grandes companhias petrolíferas
mundiais em razão da abertura das
reservas do Mar Cáspio, então
calculadas erroneamente como superiores
às reservas do Oriente Médio.
Área interior soviética até
1991, a chamada região caspiana era
considerada reserva estratégica pelas
únicas potências locais com
acesso direto ao Mar Cáspio: URSS
e Irã. O fim da URSS em 1991, entretanto,
cria novos estados com acesso direto aos
recursos: Azerbaidjão, Casaquistão
e Turquemenistão, além de
abrir grandes possibilidades para a Geórgia
e uma possível Tchechênia independente.
O
petróleo e gás natural passam
a ser, a partir de então, um recurso
fundamental para a sobrevivência de
tais países oriundos da dissolução
da União Soviética. Tanto
russos quanto iranianos sentem-se tremendamente
ameaçados pela insistência
de tais países em iniciar a exploração
do petróleo na região. Em
especial a íntima associação
dos americanos com a Geórgia, no
Cáucaso, e dos britânicos no
Azerbaidjão, de um lado, e as negociações
de homens do petróleo do Texas -
contra a vontade do FBI e com apoio da CIA
- com o regime talibã no Afeganistão.
Tais negociações visavam abrir
caminho para os oleodutos que trariam o
petróleo para o Ocidente (via Geórgia,
Turquia, Bósnia e Kossovo até
a Europa e, em outro percurso, através
do Afeganistão até Kandahar
e daí para Karachi (Paquistão),
no Mar Arábico, acesso direto para
o abastecimento, via superpetroleiros, do
Japão e das economias emergentes
do Extremo Oriente ).
Para
Irã e Rússia, possuidores
de imensas reservas e de instalações
petrolíferas em pleno funcionamento
em outras regiões, a exploração
de novos jazimentos só poderia representar
uma pressão de baixa sobre os preços,
com a perda de soberania sobre imensas reservas
que estavam estrategicamente alocadas para
exploração para além
de 25 anos e, ao mesmo tempo, perda de inversões
estrangeiras na construção
de oleodutos visando melhorar o seu próprio
escoamento - a principal deficiência
dos dois países atualmente. Estes
países viam as iniciativas anglo-americanas
na região como uma forma de isolar
da exploração e da comercialização
do petróleo caspiano os grandes atores
locais e globais: de um lado os mega-produtores,
a Rússia e Irã; de outro lado,
um mega-comprador, a China Popular. Os dois
trajetos de oleodutos previstos contornariam
a Rússia e colocariam os royalties
nas mãos de novos Estados (pós-soviéticos)
altamente ciosos em reafirmar sua nova soberania,
para o que somavam à exploração
do petróleo uma sólida "amizade"
com os americanos. Da mesma forma, o trajeto
"afegão" até o Mar
da Arábia, via Paquistão,
isolava a China e apontava primordialmente
para o abastecimento do Japão e demais
economias do Pacífico, abrindo uma
brecha na estratégia de crescimento
acelerado e elevado das autoridades de Beijing.
A crise da "solução
Caspiana"
Grande parte desta visão estratégica
dos anglo-americanos (controlar a produção
da Venezuela e do Iraque; colocar em exploração
as reservas do Mar Cáspio) - bastante
ampla, ambiciosa e dependente, por demais,
de fatores aleatórios - centrava-se
na percepção de que o Oriente
Médio se constituíra num barril
de pólvora incontrolável.
Havia regimes inimigos dos Estados Unidos
na Líbia, no Iraque e no Irã;
uma notável instabilidade na Arábia
Saudita e nos Emirados Árabes, contando
apenas com Israel enquanto um aliado fiel
e valoroso, entretanto, sem petróleo.
Assim, a busca de uma alternativa ao Oriente
Médio, de uma nova área de
exploração sem os inconvenientes
políticos pré-existentes,
seria uma solução durável,
de talvez quarenta anos de perspectiva.
Desta forma toda a região do Cáucaso/Mar
Cáspio, com suas saídas estratégicas
através da Turquia, de um lado, e
do Afeganistão/Paquistão,
de outro, constituíam-se em um objetivo
básico para a recuperação
de um novo élan das grandes empresas
anglo-americanas, e sem dúvida, uma
nova configuração geo-estratégica
mundial.
Os trágicos acontecimentos de 11/9
embora embaralhem um pouco as cartas - fim
das negociações com os talibães
- abre, contudo, outras possibilidades,
como o acesso direto dos americanos às
fontes dos jazimentos, na própria
área da caspiana, através
do estabelecimento de bases permanentes
em países pós-soviéticos
da região, como o Uzbesquistão.
Antes dos dramáticos acontecimentos
de Nova York e Washington, a Federação
Russa estava fortemente decidida a não
permitir um estabelecimento americano na
região. Com os atentados tudo muda.
Não só os russos passam a
colaborar mais estreitamente (bem como os
chineses), como ainda abrem espaço
para o deslocamento americano na região
enquanto parte da Guerra no Afeganistão
contra os talibãs (antigos inimigos
russos).
Contudo, aos poucos, a Guerra do Afeganistão
( a partir de outubro de 2001 ) mostrar-se-ia
muito mais dura e a segurança local
por demais precária para incentivar
mega-investimentos na região. A partir
daí as grandes esperanças
- ou ilusões? - americanas começaram
a dar sinais evidentes de eram irrealizáveis.
Mesmo restando ainda a cartada do Iraque,
já estava claro em 2002 que a ocupação
e pacificação do Afeganistão
não eram tarefas imediatas. Talvez
o contato com esta dura realidade tenha
mesmo acelerado o passo seguinte: a invasão
do Iraque. Para viabilizar a pacificação
de toda a Ásia Central, importava
uma manifestação musculosa
de força, nos termos da nova doutrina
de defesa formulada por Donald Rumsfeld.
A vitória anunciada por Bush em Primeiro
de Maio de 2003 foi, entretanto, não
só prematura, como ainda o maior
fiasco que um comandante já cometeu
em relação à realidade
da guerra que deveria conduzir.
*
Francisco Carlos Teixeira é professor
titular de História Moderna e Contemporânea
da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ). |