A fala de Deyvid Bacelar, coordenador geral da FUP, marca a mobilização dos petroleiros de norte a sul do país nas manifestações deste 24 de Julho pelo impeachment de Bolsonaro e o fim do genocídio da população brasileira

[Da Assessoria de Comunicação da FUP | Foto: Daniela Dacorso]

De norte a sul do país, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e Sindicatos dos Petroleiros (Sindipetros) afiliados estão participando das manifestações deste sábado (24/7) convocadas por movimentos sociais pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A FUP e seus sindicatos participaram ativamente da organização das manifestações em todos os estados onde atuam.

A mobilização ganhou ainda mais força diante das recentes ameaças feitas pelo ministro da Defesa, general Braga Neto, e comandantes das Forças Armadas ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP/AL), condicionando as eleições presidenciais de 2022 ao retorno do voto impresso.

“Para Bolsonaro, não basta o genocídio da população brasileira que ele e seus comandados estão promovendo no país, com atrasos calculados e corrupção explícita na compra de vacinas, com a CPI da Covid está provando. O presidente grita contra a democracia, tenta articular um golpe por saber que sua derrota nas urnas em 2022 é certa. Os brasileiros e as brasileiras não aguentam mais morrer de Covid, passar fome, perder emprego e renda, ver a inflação subindo todos os meses, pagar caríssimo por gás de cozinha, gasolina, óleo diesel e energia elétrica e ainda estar perto de viver um novo apagão, como aconteceu em 2001. A democracia está sendo ameaçada todos os dias, e estamos nas ruas em defesa da democracia, apesar da pandemia”, afirma o coordenador geral da FUP, Deyvid Bacelar, presente na manifestação realizada nesta manhã no Centro do Rio de Janeiro. Veja as fotos abaixo:

  • abre
  • 20210724110240A13A9871
  • 20210724110529A13A9903
  • deyvid
  • 20367ec8-5bf1-417b-8bff-9021f6bfa743
  • 20210724105602A13A9834
  • tezeu
  • 1a4709b1-bc5d-450c-83dd-2a141aebb0ae
  • 20210724105509A13A9825
  • raimundo
  • Benedita
  • 20210724105443A13A9822
  • alessandro
  • abre2
  • 20210724110503A13A9893
  • 446684aa-58dc-404c-b9ef-ce2a0c06f088
  • 78009c42-07a6-4c71-ae37-07876d92a523
  • 68039f5a-4781-4d78-842c-e2d026a6ceb4
  • 9888ca2f-b318-442f-9e76-1acd2d8d0dfe
  • 1a6f2c9f-00d7-4a15-8f21-e2425c1779f7

Os petroleiros estão nas ruas desde às 8h, quando começaram a se concentrar em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Até o fim da tarde deste sábado, a FUP e seus sindicatos vão participar de manifestações em diversas cidades do Amazonas, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (saiba mais aqui).

“O povo brasileiro já não aguenta mais tanta omissão, que, na verdade, parece ser um projeto muito bem articulado e calculado de extermínio das pessoas mais pobres, de aumento da miséria, de desesperança. Bolsonaro já deu centenas de provas de que não governa para a população brasileira, mas sim para seus interesses, para sua família e seus amigos. Estamos nas ruas com medo do coronavírus, mas temos mais medo ainda do que pode acontecer neste país até 31 de dezembro de 2022, se este genocida continuar no poder. Por isso é fundamental pressionar Arthur Lira para colocar o impeachment de Bolsonaro na pauta da Câmara”, reforça Bacelar. 

Acompanhe a cobertura completa dos atos deste sábado no Twitter da FUP: @FUP_Brasil

Publicado em Movimentos Sociais

Desde o dia 15 de julho, o grupo 3R Petroleum Óleo e Gás S.A assumiu o controle dos campos terrestres de produção de petróleo e gás do Polo Rio Ventura, na Bahia, que engloba oito ativos: Água Grande, Bonsucesso, Fazenda Alto das Pedras, Pedrinhas, Pojuca, Rio Pojuca, Tapiranga e Tapiranga Norte.

"Apesar de toda a luta do Sindipetro Bahia e da categoria petroleira – com mobilizações, greves, audiências públicas e ações jurídicas – contra a privatização da Petrobrás na Bahia, presenciamos agora a saída total da Petrobras de um Polo tão importante como o Rio Ventura, que passa a ser operado integralmente por uma empresa privada", informou o Sindipetro Bahia.

Água Grande é um dos campos que, quando pertencia à Petrobrás, chegou a alcançar um dos maiores níveis de produção de petróleo acumulada do Brasil. Descoberto na década de 1950, foi decisivo para o desenvolvimento da Petrobrás não só na Bahia, mas em todo o país, contribuindo com a descoberta da Bacia de Campos e a construção das refinarias da estatal.

"Foram muitas lutas travadas para evitar a privatização e o desmonte que a atual gestão da estatal vem fazendo nas unidades da Companhia no estado. A diretoria do Sindipetro não poupou esforços para impedir a privatização dos campos terrestres e continua lutando para evitar a conclusão da venda de outras unidades da empresa, como a Refinaria Landulpho Alves (RLAM) e seus terminais marítimos", ressaltou o Sindipetro, destacando que a privatização do Polo Rio Ventura é a maior entrega de campos de produção de petróleo e gás da Bahia, desde a chegada da empresa PetroRecôncavo no estado, em 1999.  

Petrobrás abandona o Norte e o Nordeste

A Petrobrás já se desfez de mais de 150 áreas de produção terrestre no Nordeste e Norte do país, acelerando o processo de desmonte da empresa nestas regiões, onde a grande maioria dos ativos da estatal está sendo privatizada.

Todas as refinarias do Norte e Nordeste estão sendo vendidas, a começar pela RLAM, na Bahia, que já foi entregue ao Mubadala, um fundo de investimentos dos Emirados Árabes. Na lista de venda estão ainda a REMAN (Amazonas), a Clara Camarão (Rio Grande do Norte), Abreu e Lima (Pernambuco) e a LUBNOR (Ceará), que, assim como a RLAM, estão sendo privatizadas com toda a infraestrutura logística, incluindo oleodutos e terminais.

A Petrobrás também desativou, vendeu ou alugou usinas térmicas, usinas eólicas, usinas de biocombustíveis e fábricas de fertilizantes, além de ter privatizado a rede de gasodutos do Norte e Nordeste, o que significa na prática a retirada da estatal destas regiões.

3R Petroleum cresce com saída da Petrobrás

Além das áreas de produção terrestre do Polo Rio ventura, a empresa 3R Petroleum já adquiriu os campos dos polos Recôncavo, também no estado da Bahia, Macau, no Rio Grande do Norte, e Fazenda Belém, no Ceará. A empresa atua ainda na área offshore, onde já adquiriu os polos Pescada, na Bacia de Potiguar (RN), e Peroá (BM-ES-21), na Bacia do Espírito Santo. Na última semana, a 3R Petroleum assumiu também o controle do Campo de Papa-Terra, na Bacia de Campos. Todos ativos que pertenciam à Petrobrás.

Para efetuar as operações, a 3R Petroleum tem como subsidiária a OP Energia, habilitada pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) para operar blocos e concessões em terra e mar, inclusive em águas ultra profundas.

No início do ano, a empresa travou ainda uma disputa violenta com a Eneva para ficar com o Polo Urucu, na Bacia dos Solimões, num processo conturbado de licitação, onde a Petrobras chegou a comunicar que a 3R Petroleum havia feito a maior oferta pelo ativo, mas quem levou, no final, foi a Eneva.

Esta semana, o Sindipetro Espírito Santo publicou um fio em seu perfil no Twitter, onde destrincha as relações da 3R Petroleum com o Banco BTG Pactual. Leia: 

 

[Imprensa da FUP, imprensa do Sindipetro ES e imprensa do Sindipetro BA | Foto: Divulgação]

 

Publicado em Sistema Petrobrás

Na Regap, princípio de incêndio foi evitado por operadores que trabalhavam na parada de manutenção e não fazem parte do quadro efetivo da unidade

[Da assessoria de Comunicação da FUP | Foto: Washington Alves/Agência Petrobras] 

A Unidade de Hidrotratamento de Diesel (U-310) da Refinaria Gabriel Passo (Regap), em Betim (MG), registrou um vazamento de óleo na saída do forno. No momento do incidente, apenas um operador era responsável por toda a unidade. O trabalhador teve de chamar reforços para controlar a situação e paralisar a unidade. O evento ocorreu na madrugada do último sábado (17/7), e coloca em evidência a precarização do trabalho e os riscos de acidentes em unidades da Petrobrás, decorrentes da escassez de efetivo de pessoal de segurança. Não houve feridos ou danos às instalações da Regap, segundo informações do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais (Sindipetro-MG), filiado à Federação Única dos Petroleiros (FUP). 

O Sindipetro-MG vem denunciando os riscos do baixo efetivo e mostrando o descaso com a manutenção na Regap. Nos últimos anos, a manutenção tem sido feita de forma menos criteriosa, com alterações na rotina de inspeção dos equipamentos. Segundo a entidade, a produção e a exigência de trabalho são as mesmas, em alguns casos até aumentaram, mas o número de pessoas reduziu muito nos últimos dois anos, levando profissionais a trabalharem em dias de folga, com jornada diária elevada e sem entrar em acordo com o sindicato”. 

O resultado disso é que em junho último foram registradas diversas ocorrências na Regap, como fogo em um conversor, devido ao vazamento de uma linha de gasolina; trincas no reator do craqueamento 1, onde foi necessário parar a unidade para realizar manutenção; e acidente com queimadura de vapor. 

“A redução de efetivo de pessoal e a intensificação da carga de trabalho estão ocorrendo em toda a Petrobrás, aumentando os riscos de acidentes nas unidades e no meio ambiente. Essa lógica é base do sucateamento que precede a privatização de ativos da empresa”, critica o coordenador do Sindipetro MG, Alexandre Finamori. 


Leia também: 

MPT abre ocorrência sobre baixo número de efetivo na Replan


O Sindipetro-MG enviou ofício (Ofício 043.2021) à gerência da Refinaria Gabriel Passos (Regap), questionando sobre essas questões e ressaltando a preocupação com o baixo número de efetivo da refinaria e suas consequências à segurança. Em resposta burocrática ao ofício, a Regap disse que “a Refinaria Gabriel Passos – REGAP, em conjunto com outras unidades da Companhia, adota metodologia desenvolvida especificamente para o estabelecimento de critérios e parâmetros técnicos para dimensionamento do número de postos de trabalho de operação para as refinarias da Petrobras”. 


Leia também: 

Precarização da segurança industrial pode transformar refinarias da Petrobrás em “bombas relógio”


Em fevereiro deste ano, a FUP já havia denunciado a precarização do trabalho e da segurança das operações do refino, quando a Unidade de Hidrotratamento e Hidrossulforização (UHDS) U-2631 da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (PR), registrou um princípio de incêndio após vazamento de óleo diesel em uma área de alta pressão. No momento do acidente, também apenas um operador era responsável por toda a unidade. O episódio revelou, já naquele período, a falta de efetivo na Repar – que vem ocorrendo também em outras refinarias da Petrobrás, que integram o plano de privatização da atual gestão da empresa. 


Leia também:

Incêndio na Repar escancara a falta de efetivo e o risco de acidente ampliado


Deyvid Bacelar, coordenador geral da FUP, alerta para os riscos da redução de pessoal nas refinarias, que vem aumentando sistematicamente o risco das operações de uma indústria que já é de alto risco, tanto para trabalhadores, quanto para as comunidades do entorno. “Se a Petrobrás, uma empresa controlada pelo governo e com papel social, vem cortando pessoal para aumentar seus ganhos, mesmo que isso signifique aumentar o risco operacional, o que podemos esperar de um ente que adquira suas refinarias e que precisará dar retorno em menor prazo a seus acionistas?”, questiona ele.


Leia também:

Com efetivos já reduzidos, Petrobras acelera desmonte de unidades à venda, com programa de transferência e PDVs


 

A Petrobrás anunciou na semana passada a venda da sua participação (62,5%) no campo de Papa-Terra, na Bacia de Campos, por US$ 105,6 milhões, para a 3R Petroleum. A venda se insere no cenário de “desinvestimentos” da companhia e é mais um passo preocupante no sentido de deixar o país mais vulnerável economicamente e sob o ponto de vista energético. Ainda não é possível dimensionar os efeitos nocivos sobre a perda de empregos ou sobre a produção e seus impactos sobre os royalties, mas o movimento sindical identifica como prejudicial a acentuação de uma lógica financista no setor petróleo.

Para o pesquisador do Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), João Montenegro, ainda é cedo para saber os impactos específicos da venda de ativos como a P-61 e a P-63, plataformas que integram o campo de Papa-Terra, mas acende-se um alerta em relação a uma crescente presença de atores privados, que buscam lucro imediato para seus acionistas, em detrimento do tratamento do setor como estratégico para o país, que pode gerar empregos e desenvolvimento social.

O pesquisador também destaca que precisará ser avaliado o impacto sobre uma redução da política de conteúdo nacional, uma vez que as empresas privadas do setor não têm qualquer obrigação de priorizar o mercado nacional. Além disso, deverão ser observadas as relações que estas empresas terão com seus trabalhadores e entidades representativas. Há uma apreensão em relação a uma queda no número de empregos e a uma redução na qualidade dos empregos preservados, o que precisará ser confirmado com a atuação da nova empresa gestora das unidades do campo.

Produção

De acordo com o economista Carlos Takashi, técnico da subseção do Dieese no Sindipetro-NF, o campo de Papa-Terra possui diferenças em relação a campos vendidos recentemente, que vinham registrando quedas nas suas produções (Pargo, Enchova e Pampo). A primeira é estar localizado em águas profundas, e não em águas rasas com os demais. A segunda é a de tratar-se de um campo mais novo: foi descoberto em 2003 e o primeiro óleo foi extraído em novembro de 2013, enquanto a produção dos polos Pargo, Enchova e Pampo se iniciou nos anos 1980.

“Apesar da produção do campo Papa-Terra também ter caído entre 2014 e 2018, devido a fatores como a queda dos investimentos da Petrobrás e a adoção de uma política deliberada e acelerada de privatizações desde 2016, nos últimos dois anos (2019 e 2020) o campo de Papa-Terra tem recuperado sua produção. A Petrobrás anunciou a venda e agora assinou um contrato de venda de um campo em que ela própria tem recuperado e há potencial de aumento da produção”, explica o economista.

Royalties

A também pesquisadora Carla Ferreira, do Ineep, levantou a pedido da Imprensa do NF os dados de pagamento de royalties do petróleo oriundos do campo de Papa-Terra. Segundo ela, não é possível estimar se haverá aumento ou redução dos valores em decorrência da venda, o que vai depender do modo como a nova empresa vai investir na produção. Será preciso, no entanto, estar atento a esses possíveis efeitos, especialmente em relação a municípios confrontantes como Búzios e Cabo Frio.

Nos últimos 12 meses, somente o campo de Papa-Terra foi responsável pelo pagamento de aproximadamente R$ 160 milhões em royalties do petróleo (R$ 159.998.640,54) a todos os entes recebedores, da União, Estado do Rio de Janeiro e Municípios confrontantes e limítrofes. Os repasses mensais variaram de R$ 9,9 milhões em julho de 2020 (R$ 9.781.005,54) a R$ 18,2 milhões em maio de 2021 (R$ 18.174.922,70).

Papel estratégico da Petrobrás

O Sindipetro-NF e suas assessorias técnicas vão continuar atentos aos impactos dos “desinvestimentos” na região. A entidade lançou, no ano passado, a campanha Petrobrás Fica, justamente para alertar os diferentes segmentos da sociedade do Norte Fluminense sobre a contínua redução do protagonismo da companhia na Bacia de Campos.

O sindicato avalia que a região e o país perdem com o encolhimento da Petrobrás, uma empresa que deve ser gerida não apenas com a lógica do lucro de curto prazo. A companhia é estratégica para o Estado brasileiro, em termos geopolíticos e sociais, e deve ser utilizada para estimular a indústria nacional, a geração de empregos e o desenvolvimento com justiça social. Este papel, considera a entidade, jamais será foco de uma empresa privada de petróleo.

[Da imprensa do Sindipetro NF | Foto: Ag. Petrobras]

Publicado em Sistema Petrobrás

A economista Juliane Furno entende da pauta dos petroleiros: seu doutorado, defendido na Unicamp, foi sobre a política de conteúdo local de petróleo e gás. Ela também já atuou como pesquisadora no Sindicato dos Petroleiros Unificado de São Paulo e Norte Fluminense, além de já ter sido assessora parlamentar. Atualmente, Juliane é economista-chefe do Instituto para a Reforma das Relações Estado e Empresas (IREE), colunista do Brasil de Fato, militante do Levante Popular da Juventude e da Consulta Popular. Também dá nome pro canal no Youtube – Economia com Ju Furno. 

Ela participou da mesa de abertura do 35º Congresso dos Petroleiros de Minas Gerais, realizado de 14 a 17 de julho, e conversou com a comunicação do Sindipetro MG, cuja entrevista segue abaixo. Confira:

Você estudou no seu doutorado os “Limites e possibilidades do desenvolvimento econômico na periferia capitalista: a Política de Conteúdo Local no setor de Petróleo e Gás”. E desde então o desmonte da Petrobras segue, agora com ameaça de venda da PBio e refinarias. Por que é tão grave para o país abrir mão desse setor estratégico?

A Petrobras é um setor muito importante para a economia e para a sociedade brasileira como um todo e abrir mão dessa grande empresa traz pelo menos dois prejuízos de ordem significativa para o Brasil. O primeiro deles é o prejuízo econômico. Porque o setor de petróleo e gás, liderado pela Petrobras, e com o poder de compra que a Petrobras tem, sendo a maior empresa nacional brasileira, tem a possibilidade de liderar um conjunto de investimentos que no médio prazo recoloque a economia brasileira na trajetória do crescimento econômico. Ou seja, a Petrobras e seu poder na cadeia produtiva do petróleo e gás pode mobilizar importantes indústrias – seja para trás na cadeia produtiva, como a indústria naval, metal mecânica, engenharia, autopeças, seja para frente na cadeia produtiva -, ofertando um produto barato em moeda nacional. Então, abrir mão da Petrobras é um empecilho para o crescimento econômico. É abrir mão de usar esse setor para liderar o crescimento, a construção de obras, por exemplo. E ofertar o petróleo – que é o combustível de toda a indústria brasileira – a preços baratos, em moeda nacional.  

Em segundo lugar, abrir mão dessa empresa de caráter estratégico também nos enfraquece do ponto de vista da geopolítica internacional. Porque vamos viver um período provavelmente de preços maiores do barril de petróleo no comércio internacional, porque quanto mais as economias se urbanizam e crescem, mais elas demandam energia e vai haver um aumento da procura e diminuição da oferta de energia, porque os campos já estão em sua fase de maturação, ou seja, declinando de produtividade. A única grande descoberta de petróleo no século XXI foi no Brasil. Ou seja, a gente vai abrir mão de uma empresa de petróleo justamente no período de escassez dessa energia, quando os preços vão ficar maiores no mercado internacional. Vamos deixar de usar esse recurso internamente e provavelmente teremos que pagar para importar, em dólar, em preço ainda maior. 

Você também já foi assessora de sindicato de petroleiros. O que você diria para a categoria hoje, qual a luta central a ser feita e como fazê-la?

Eu diria que a luta hoje é em defesa da Petrobras e do papel que ela cumpre na sociedade brasileira. Seria estranho dizer como fazer, já que os sindicatos de petroleiros têm um protagonismo e são referência pra classe trabalhadora organizada, mas se eu pudesse dar um pitaco, eu diria que seria muito importante  uma ampla e permanente articulação com os movimentos populares, ou seja, tentar que a pauta seja o menos corporativa da categoria possível e mais uma pauta de caráter nacional. Lembrando que a única luta de massas no Brasil por uma pauta de soberania foi a campanha “O petróleo é nosso”. Não me recordo de nenhuma outra. Ela tem esse potencial. 

É importante buscar formas de mediações para mostrar como a alienação da Petrobras impacta no bolso no brasileiro. Como a mudança, por exemplo, no regime de partilha, pode fazer com que o descontrole do Estado na produção de barris de petróleo leve a uma superprodução de barril, que vai ser exportado. E se a gente exportar muito mais barris do que a gente exporta hoje no mercado internacional significa que vai entrar muito dólar na economia brasileira. Se entra muito dólar, a taxa de câmbio se aprecia. E aí as indústrias brasileiras perdem competitividade, a gente perde empregos no setor industrial. Ou seja, é preciso conectar como o desmonte do controle do Estado sobre esse setor – sejam os mecanismos regulatórios ou a própria alienação de subsidiárias da Petrobras – vai impactar na vida do brasileiro.

Com sua experiência como youtuber e também como militante de uma organização de juventude, quais as dicas você dá para disputar a sociedade, para fazer a luta em defesa da Petrobras para além da categoria petroleira?

Investir na disputa, na batalha das ideias, em duas frentes. A primeira é o bom e velho trabalho de base, ou seja, os sindicalistas precisam vivenciar, estar no local de trabalho, ser uma referência. E também a gente precisa entender hoje que grande parte da luta política se dá nas redes sociais. E o youtube é uma rede onde muitas pessoas interessadas estão buscando conhecimento, então eu investiria em agitação e propaganda, vídeos informativos que façam conexão com a vida real, em linguagem popular, conteúdos que ajudem a cativar as pessoas. A forma do sindicalismo mais tradicional tem caído um pouco em descrédito. Isso talvez não seja em relação à forma organizativa, mas de comunicação. Acho que temos a aprender isso com os jovens. E tenho aprendido isso também com meu canal no Youtube e na militância no Levante Popular da Juventude, que é, na minha opinião, uma referência em agitação e propaganda. 

Além do desmonte da Petrobras, assistimos a uma série de retirada de direitos, com um governo que não só não defende a vida como quer lucrar com a saúde da população. Tem crescido a insatisfação com Bolsonaro, mas o que precisamos fazer para encerrar logo esse ciclo e não deixar que ele se repita?

A gente precisa ser parte desse movimento de desgaste do bolsonarismo, entendendo que a pauta política que mobiliza as ruas não é necessariamente a que a gente escolhe. Karl Marx já dizia que os seres humanos fazem história, mas não nas condições que eles escolhem. Então, se eventualmente se colocar a pauta da corrupção como aquela que mobiliza – apesar de sabermos historicamente como essa pauta é usada no Brasil – temos que ter condições de politizar e ser parte desse movimento mais geral de insatisfação, participando, convocando e contribuindo para dirigir esses processos de luta. 

É importante também ser parte das organizações que convergem várias outras, como a Frente Brasil Popular, a Frente Povo sem Medo, onde os sindicatos ultrapassam momentaneamente sua pauta corporativa e cumprem o que é a forma clássica do novo sindicalismo, que é comprometido com pautas mais gerais, com um projeto popular de Brasil.

Publicado em Movimentos Sociais

Representantes da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e do Sindipetro Bahia, se reuniram com o gerente de Segurança, Meio Ambiente e Saúde (SMS) e a Coordenadora de Saúde Ocupacional da Refinaria Landulpho Alves (RLAM), na manhã da sexta-feira (16), para tratar sobre questões relacionadas à segurança industrial, saúde mental e problemas que dizem respeito à empresa Impaktus, admitida pela Petrobras para atuar na contratação de bombeiros civis nas refinarias da estatal.

As entidades sindicais falaram sobre as investigações do Ministério Público Federal em relação à Impaktus, que, inclusive, foi tema de matéria do Sindipetro Bahia, mostrando a condenação da empresa em processo no Tribunal Regional Federal da 4ª Região. A gerência não quis se aprofundar sobre o assunto, mas debateu e apresentou respostas para as outras questões expostas pelos dirigentes sindicais. Veja a seguir:

Redução do efetivo mínimo da segurança industrial

As entidades sindicais alertaram, mais uma vez, para o perigo da redução do efetivo mínimo operacional, o que vem gerando uma série de problemas. com relação à resposta a emergência. Há uma previsão da RLAM de redução de seis para três técnicos de segurança, por turma de turno, na expectativa da empresa Impaktus, através do contrato de bombeiro civil, assumir essas emergências, o que não é possível pois eles não sabem operar as viaturas de combate a incêndio e não têm condições técnicas para atuar em emergências.

O gerente de SMS ouviu as argumentações dos representantes dos petroleiros e se comprometeu a não mexer no efetivo das turmas de turno da segurança industrial “porque sabe da importância do controle de emergência, que é a última camada de proteção que a refinaria tem”.

PDV e baixo efetivo operacional

Foi abordada também a questão do Programa de Demissão voluntária (PDV), que está levando à saída de muitos técnicos de segurança experientes. As entidades sindicais apresentaram a proposta de adiar o desligamento daqueles que ainda querem permanecer na empresa, o que pode amenizar o problema do efetivo mínimo, ajudando no controle dos acidentes.

Outra proposta foi a de atrair para a RLAM alguns técnicos de segurança de unidades do Norte e Nordeste da Petrobrás que tenham interesse em se mudar para a Bahia.

O gerente se mostrou simpático às propostas e disse que vai tentar buscar informações junto ao RH para ver se é possível resolver esta situação.

Brigada de emergência

A brigada de emergência da RLAM está há quase dois anos sem treinamento. Os técnicos com mais experiência estão saindo da empresa, restando aos mais jovens o ônus de assumir o controle de emergências sem o treinamento adequado. A situação foi colocada pelas entidades sindicais, que pediram uma explicação para a demora da capacitação para que os trabalhadores possam atuar nas emergências, de forma segura.

A gerência alegou que o atraso no treinamento se deu devido à pandemia da Covid-19 e que a situação deve ser regularizada neste segundo semestre. Diante, disto, o Sindipetro e a FUP orientam aos trabalhadores a se recusarem a fazer parte da brigada (hoje são 18 brigadistas sem treinamento adequado), pois não há como combater emergências sem treinamento.

Saúde mental

As entidades sindicais ratificaram a importância da contratação de assistentes sociais e psicólogos para que façam parte do quadro da saúde ocupacional da refinaria, principalmente levando-se em conta as pressões que os trabalhadores vêm sofrendo desde a desmobilização que a direção da Petrobras vem fazendo nas unidades da estatal na Bahia. As pressões e inseguranças provocadas pelas mudanças e medo da perda do emprego, têm levado ao adoecimento mental na RLAM, como ficou comprovado nas investigações feitas pela Auditoria Fiscal do Trabalho e pelo Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador (Cesat) sobre as causas que levaram ao suicídio de um trabalhador da refinaria, no ambiente de trabalho.

[Da imprensa do Sindipetro Bahia]

O serviço de segurança industrial das refinarias da Petrobrás, em especial aquelas colocadas à venda pela estatal, está passando por um processo de terceirização precária, que junto a outros fatores, pode levar a graves acidentes, com sérios danos às pessoas, ao meio ambiente e ao patrimônio, colocando em risco, inclusive, as comunidades localizadas no entorno destas refinarias.

A terceirização destes serviços vem sendo feita através da contratação de uma empresa – a Impaktus – investigada pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro e condenada em um processo no Tribunal Regional Federal do Rio Grande do Sul, juntamente com a Petrobrás, por problemas na licitação do contrato número 2218996188.

A Impaktus havia sido contratada pela Petrobrás para prestação de serviços especializados em saúde, sendo que este tipo de serviço não é objeto principal ou secundário da empresa, que atua na área de engenharia. A justiça condenou a estatal e a empresa, que, apesar de vencer a licitação, não era qualificada para executar os serviços que constavam no edital.

Esta mesma empresa foi admitida pela Petrobras para atuar na contratação de bombeiro civil em suas refinarias. Na Refinaria Landulpho Alves (RLAM), localizada em São Francisco do Conde, na Bahia, o processo de contratação da empresa resultou no afastamento de funcionários que haviam identificado irregularidades e orientado ajustes no contrato.

Trabalho precário

“É uma junção de condições negativas e perigosas que estão transformando as refinarias em bombas relógio”, denuncia o Coordenador Geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, que também é funcionário da RLAM, refinaria que está em processo de venda e é uma das mais afetadas pela política de desmonte da atual gestão da Petrobrás.

Bacelar explica o que está ocorrendo. “Estão sendo contratados técnicos de segurança terceirizados com baixos salários e benefícios reduzidos e sem treinamento adequado para atuar na segurança industrial. Simultaneamente, os técnicos de segurança próprios, e com larga experiência, estão sendo desmobilizados e muitos incentivados a aderir ao Plano de Demissão Voluntária (PDV), oferecido pela estatal”.

Junta-se a isto, continua o coordenador, a redução do efetivo mínimo operacional, o que gera uma série de problemas, inclusive com relação à resposta a emergência.

Outros problemas apontados por ele são a desmobilização dos centros de defesas ambientais da Petrobras, em todo o Brasil, principalmente no Nordeste, devido às privatizações e ainda a não realização – há anos – de simulados de emergência junto às comunidades que habitam o entorno das refinarias o que deixa estas pessoas vulneráveis, pois em caso de acidente não vão saber como se comportar ou aonde se refugiar”, completa o sindicalista.

A preocupação, de acordo com Bacelar, é acontecer um incêndio ou outro tipo de incidente, que possa fugir do controle, ganhando grandes proporções. “Como trabalhadores, sem o treinamento adequado, podem enfrentar emergências como estas”?

Assembleia

Diante do grave problema, o Sindipetro Bahia, a FUP, o Sitticcan e outros sindicatos que representam os técnicos de segurança das empresas terceirizadas, vão realizar uma assembleia, na terça-feira (20), às 7h, em frente à RLAM, com estes trabalhadores.

O objetivo é discutir as condições de trabalho deste segmento da categoria, que mesmo com grande responsabilidade continuam recebendo salários baixos e benefícios reduzidos.

Denúncia

Na Bahia, o Sindipetro Bahia e a Federação Única dos Petroleiros (FUP) estão encaminhando denúncias ao Ministério Público do Trabalho (MPT), à Auditoria Fiscal do Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) e ao Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador (Cesat), “para que tomem as providências cabíveis, evitando assim uma tragédia anunciada, que pode tirar vidas e atingir o meio ambiente, com vazamentos na Baia de Todos os Santos e o Rio Mataripe”, argumenta o Coordenador do Sindipetro, Jairo Batista, ressaltando que a seguradora da RLAM, que estabeleceu uma apólice de US$ 3 bilhões para a refinaria, também vai ser informada, pois, “com certeza, não tem ciência sobre as reais condições operacionais da Landulpho Alves”.

A RLAM é a primeira de uma lista de oito refinarias a serem privatizadas pela Petrobrás. A operação de venda da refinaria baiana ao Fundo Árabe Mubadala, em meio a denúncias de subfaturamento de preço, ainda não foi concluída e várias ações contra o negócio correm na Justiça e em outras instâncias.

[Da imprensa do Sindipetro Bahia | Foto: Agência Petrobras/divulgação]

A privatização da BR Distribuidora e seus efeitos para a comercialização de combustíveis no Brasil é o tema do Webnário que o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) realiza amanhã (13/07), às 19 horas, em seu Canal do Youtube, com transmissão pelo Facebook. O pesquisador do Ineep e professor do Instituto de Economia (IE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Costa Pinto, é o convidado desta conversa.

O início da venda de ações da Petrobras na BR, sua distribuidora de combustíveis, se deu no fim de 2017, com a transferência de 30% de sua participação ao mercado. Em 2019, ocorreu uma nova oferta, quando a Petrobras vendeu mais 30% de ações sob o seu controle na BR. Ao final de junho último, a petroleira negociou a fatia remanescente de 37,5%, saindo de vez do capital da BR Distribuidora.

As consequências desta privatização para o mercado consumidor, o que poderá representar para os negócios da Petrobras e para o papel que esta subsidiária exercia na integração de suas atividades, que se distribuíam do poço ao posto, serão algumas das questões do Webnário desta terça-feira. A BR vende combustíveis aos postos com a sua bandeira (cerca de oito mil, este ano) e tem clientes nos mercados de aviação, de combustíveis para as térmicas e de óleo diesel para o agronegócio. 

[Do site do Ineep]

Publicado em Sistema Petrobrás

Na mesma semana em que aumentou os preços dos combustíveis pela oitava vez neste ano, a gestão da Petrobrás paralisa a produção da maior refinaria do país. Em cinco dias, Refinaria de Paulínia (Replan) já deixou de produzir aproximadamente 11.000 de metros cúbicos de GLP e 75 milhões de litros de gasolina

[Da imprensa do Sindipetro Unificado SP|Foto: André Ribeiro/Agência Petrobrás]

Desde segunda-feira (4), de acordo com informações obtidas com exclusividade pelo Sindipetro-SP junto a trabalhadores da Petrobrás, a Refinaria de Paulínia (Replan) paralisou a produção de uma unidade de Craqueamento Catalítico, a U-220, por falta de escoamento do gás liquefeito de petróleo (GLP) – o gás de cozinha.

O principal motivo apontado por um operador da Replan, que preferiu não ser identificado, foi uma decisão do governo de zerar o Imposto de Importação sobre a resina de polipropileno no início de abril. Elaborada pelo Comitê Executivo de Gestão (Gecex), ligado ao Ministério da Economia, a medida estipulou uma cota de 77 mil toneladas do produto, que é a matéria-prima utilizada na produção de máscaras de proteção contra o Sars-Cov-2, vírus causador da covid-19.

Entretanto, a medida afetou diretamente a Braskem, empresa controlada pela Odebrecht e pela Petrobrás, que produz o polipropileno. Como reação em cadeia, a Petrobrás também foi afetada, por ser a fornecedora do propeno, insumo utilizado na fabricação do polipropileno. Por isso, o propeno foi incorporado ao GLP, que não encontrou logística de escoamento.

“Houve uma total falta de coordenação da Replan com a sede da Petrobrás, evidenciado na intensa movimentação para tentar comercializar o excesso de GLP após a paralisação da unidade de craqueamento. Alguns técnicos e engenheiros avisaram há alguns dias sobre o aumento constante dos estoques e somente após o colapso do sistema de armazenamento é que os gestores resolveram agir”, apontou um operador da Replan, que preferiu não ser identificado.

Segundo estimativas de fontes ouvidas pela reportagem, a paralisação da unidade de craqueamento já deixou de produzir cerca de 11.000 de metros cúbicos de GLP e 75 milhões de litros de gasolina. Ambos os produtos estão associados, ou seja, a produção da gasolina depende do GLP e vice e versa.

Riscos à segurança e política de preços

Outro operador ouvido pela reportagem chama atenção para o aumento da probabilidade de acidentes: “As unidades são projetadas para operarem ininterruptamente e, por isso, as paradas multiplicam os riscos de vazamentos, incêndios e falhas nas estruturas. A grande maioria dos eventos de grandes vazamentos e tragédias, ocorre em momentos nos quais as plantas de operação estão sob intervenção ou fora do regime normal de operação”.

Além disso, o petroleiro relata o ineditismo da situação. “Uma paralisação como essa, segundo os funcionários mais antigos, jamais ocorreu antes. Vale ressaltar que a Replan possui um vasto parque de esferas de armazenagem”, relatou.

Para o diretor do Sindipetro-SP e mecânico de manutenção da Replan, Gustavo Marsaioli, a interrupção iniciada nesta semana demonstra a contradição da atual política de preços da estatal. “É um absurdo que em um momento no qual o gás de cozinha está sendo vendido a 100 reais em alguns locais e a gasolina a 6 reais, a maioria refinaria da Petrobrás suspenda parte do seu funcionamento. O que demonstra que a estratégia colocada como pano de fundo é incentivar a entrada de combustíveis importados, e, nesse cenário, quem paga a conta é o povo brasileiro”, opina.

O preço de paridade de importação (PPI), adotado desde 2016 pela Petrobrás, define os preços dos combustíveis vendidos nas refinarias a partir das variações do valor do barril de petróleo e do dólar, além de uma estimativa dos custos para importar os combustíveis da Europa e Estados Unidos. 

Publicado em Sistema Petrobrás

A engenheira geóloga Rosângela Buzanelli, eleita pelos trabalhadores para o Conselho de Administração da Petrobrás, comenta estudo recentemente repercutido pela mídia sobre o encolhimento nos quadros técnicos de empresas estatais de ponta, como a Petrobrás, e os impcatos na redução dos salários

[Do blog de Rosangela Buzanelli]  

Na semana passada, algumas reportagens divulgadas pela imprensa falavam sobre o encolhimento do efetivo e a queda de salário dos trabalhadores da Petrobrás. Uma das matérias, baseada em dados do Panorama das Estatais, do Ministério da Economia, registra que cinco grandes estatais federais do país — Banco do Brasil, Correios, Caixa, Petrobrás e Eletrobrás — perderam mais de 111 mil empregados entre o início de 2015 e março deste ano.

A matéria informa ainda que as maiores baixas estão concentradas na Eletrobrás (-45,8%) – em vias de ser concedida à iniciativa privada – e na Petrobrás (-42%). A empresa petrolífera fechou 2020 com 41.485 empregados na holding e 49.050 no Sistema Petrobrás, com a previsão de saída de mais 6 mil trabalhadores ao longo deste ano.

Com relação à massa salarial, levantamento realizado pelo Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese) constata que o salário médio anual dos trabalhadores da Petrobrás é um dos mais baixos entre as empresas concorrentes no mercado mundial de petróleo. A pesquisa comparou a renda dos empregados da Petrobrás com os da norueguesa Equinor, da britânica BP, da italiana Eni, da espanhola Repsol, da francesa Total e das chinesas Cnooc e Petrochina e a conclusão é que a cada ano aprofunda-se mais o abismo entre os salários da Petrobrás e de suas concorrentes. “Na última década, em todas as empresas consideradas no estudo, houve crescimento nominal da remuneração média dos trabalhadores. A única exceção foi a Total. Mas, enquanto na empresa francesa a retração dos salários foi de 9,94%, na Petrobrás a redução chegou a 37%. Ou seja, uma diferença quase quatro vezes maior”, destaca a pesquisa.

Ficou evidente no estudo a tendência de crescimento da remuneração nas empresas internacionais e a queda contínua da média salarial do trabalhador da Petrobrás, na última década.

Essa é a política governamental inaugurada em 2016 e acentuada em 2019, de redução do Estado. Política que se traduz nas instituições e empresas estatais federais, através do corte dos investimentos e privatizações, além da diminuição e desvalorização do corpo de funcionários que, ironicamente, são acompanhadas de discursos públicos de valorização dos trabalhadores e do aumento exponencial da remuneração variável da alta gestão.
Como argumentou o professor da Unicamp, o economista Márcio Pochmann, essa é a lógica da privatização, entregar ao capital internacional as empresas com menor custo e maior receita.

O corpo técnico das estatais é sabidamente bem preparado e uma mão de obra cobiçada pela iniciativa privada. No caso da Petrobrás, vários cursos de formação são necessários para complementar a formação acadêmica de seus técnicos, sejam de nível médio ou superior, administrativos ou operacionais.

Os cortes de centenas de funções especialistas (consultores técnicos), de salários e benefícios, levaram muitos a aderir aos Programas de Demissão Voluntária (PDV) que, em muitos casos, sequer respeitaram as datas de desligamento acordadas, acelerando unilateralmente a saída em até dois anos, descontinuando projetos em andamento e a transferência do conhecimento.

Essa lógica traz graves consequências para a Petrobrás, que perde mão de obra especializada e experiente, deixando uma lacuna na transferência do conhecimento e ameaçando o excepcional desempenho da empresa, que a alçou ao podium das maiores e melhores do mundo no setor, com vários prêmios internacionais. Esse capital intelectual não se adquire pronto, ao contrário, são décadas de investimento na formação e atualização desses profissionais que não devem ser descartados com base em critérios “contábeis”. Uma mão de obra muito especializada e cara que se transformou em mercadoria, muitas vezes vendida juntamente com um ativo, outras vezes tratada como balanço contábil: custo de indenização para demissão voluntária versus “economia” em salários e benefícios.

Uma visão míope que custará muito à Petrobrás e ao Brasil.

Página 1 de 20

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.