Com saída em massa de médicos cubanos, 28 milhões de brasileiros serão afetados

Sexta, 16 Novembro 2018 16:02

A Confederação Nacional dos Municípios (CNM) alertou, em nota, que a saída dos 8,5 mil profissionais cubanos do Programa Mais Médicos poderá deixar mais de 28 milhões de brasileiros sem assistência de saúde. "A saída desses médicos sem a garantia de outros profissionais pode gerar a desassistência básica de saúde a mais de 28 milhões de pessoas", diz trecho da nota assinada pelo presidente da CNM, Glademir Aroldi.

"O Programa Mais Médicos demonstrou ser uma das principais conquistas do movimento municipalista frente à dificuldade de realizar a atenção básica, com a interiorização e a fixação de profissionais médicos em regiões onde há escassez ou ausência desses profissionais", disse outro trecho da nota CNM.

Os médicos cubanos estão presentes atualmente em mais de três mil municípios brasileiros em áreas com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), zonas rurais, municípios pequenos, comunidades indígenas e locais de difícil acesso, além de áreas conflagradas nos grandes centros urbanos.

O governo cubano determinou o retorno dos profissionais para o país em função das declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) que colocou em dúvida a formação dos médicos cubanos que atuam no programa, além de ter feito uma série de exigências para que eles continuassem atuando.

Levantamento feito pelo Ministério da Saúde do Brasil, divulgado em 2016, aponta que o Mais Médicos, em municípios com até 10 mil habitantes, é responsável por 48% das equipes de Atenção Básica. E, no caso de 1.100 municípios, representa 100% da cobertura de Atenção Básica.

A avaliação da população sobre o programa também é positiva. Pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) identificou 95% dos usuários satisfeitos ou muito satisfeitos com a atuação dos profissionais do Mais Médicos. Desses, 85% afirmaram que a qualidade do atendimento melhorou; 87% que o médico é mais atencioso, e 82% que a consulta agora resolve melhor seus problemas de saúde.

“O Brasil com certeza sofre com essa saída. Vamos ter de fato uma catástrofe sanitária”, disse o médico Thiago Henrique Silva sobre o fim da participação de Cuba no Programa Mais Médicos, criado em 2013. Integrante da Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares e mestre em Saúde Pública, Thiago lembrou, em entrevista à TVT, que o Brasil tem com Cuba uma parceria de cooperação até o final de 2019. "Os países que buscam essa parceria com a Empresa Estatal Cubana de Serviços Médicos buscam porque estão precisando de um força de trabalho extra porque a interna não dá conta de atender as pessoas", explica o especialista. Segundo ele, Cuba tem acordos de cooperação com mais de 60 países. "O único em que há esse debate da revalidação dos diplomas é o Brasil”, lamentou.

Ele explicou que desde os anos 1960 Cuba prepara brigadas de solidariedade para atender catástrofes naturais e biológicas, como o ebola na África, os terremotos no Haiti, no Paquistão. “Quando outros países mandavam armas, Cuba mandava médicos para os países que estavam passando dificuldade. Cuba é referencia em saúde reconhecida inclusive pelos norte-americanos. Com o relaxamento das relações entre Cuba e EUA, muitos estão procurando Cuba para fazer tratamento médico”.

Bravatas do presidente eleito

Em visita hoje (16) ao Comando do Primeiro Distrito Naval, no Rio de Janeiro, Bolsonaro voltou a defender o fim do contrato com Cuba. Afirmou que nunca viu uma autoridade ser atendida por um médico cubano e que esse atendimento não deveria ser relegado aos mais pobres. 

Para Thiago, as manifestações de Bolsonaro que culminaram com o fim do contrato com Cuba tratam-se de mais uma bravata do presidente eleito que sabe que não vai recuperar a economia com a agenda do seu economista que quer combater a China, o maior parceiro comercial do Brasil.

“Ele acabou de nomear um chanceler que diz que a China é maoísta e tem de ser combatida. Você está falando da segunda maior economia do mundo, que nem Trump (Donald Trump, presidente dos EUA) tem coragem de falar uma coisa dessas. E o chanceler do Bolsonaro fala isso", diz Thiago, sobre a indicação do diplomata Ernesto Henrique Araújo para comandar o Itamaraty. Araújo é alinhado com Donald Trump e já chegou a dizer que a preocupação com mudanças climáticas e aquecimento global é coisa de comunista.

Levantar uma cortina de fumaça ideológica é o que Bolsonaro quer fazer, na opinião de Thiago. “E é essa cortina que vai fazer com que 8 mil médicos saiam daqui e 30 milhões de brasileiros fiquem sem atendimento médico.” 

Veja abaixo a íntegra da entrevista: 

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