‘Recuperamos a democracia e a esperança’, afirma Luis Arce ao vencer eleições na Bolívia

Segunda, 19 Outubro 2020 16:02

Luis Arce, candidato apoiado por Evo Morales, vence eleição na Bolívia no primeiro turno, indica pesquisa de boca de urna. Vitória foi reconhecida pelo opositor, o neoliberal, Carlos Mesa

[Com informações de Diálogos do Sul | Foto: Ronaldo Schemidt/AFP]

"Recuperamos a democracia e a esperança". Essas foram as primeiras palavras do candidato do Movimento ao Socialismo (MAS), Luís Arce Catacora, após a divulgação da contagem rápida com 95% do padrão eleitoral, realizado pela empresa Unitel.

De acordo com os dados, o candidato, apoiado pelo ex-presidente Evo Morales, venceu as eleições realizadas neste domingo (18) já no primeiro turno. Os dados não são oficiais, mas uma pesquisa de boca de urna.

De acordo com o levantamento, Luís Arce obteve 52,4%; Carlos Mesa, 31,5% e Fernando Camacho, 14,1%.

O ex-presidente neoliberal da Bolívia, Carlos Mesa, reconheceu nesta segunda-feira (19) a derrota para Luis Arce. "A diferença entre o primeiro candidato e nós é ampla", afirmou Mesa, em vídeo divulgado pela jornalista Natália Urban, em sua conta no Twitter.

Desde a Casa do MAS em La Paz, ao lado de apoiadores, Arce saudou os bolivianos e destacou a jornada pacífica realizada no país.

"Vamos governar para todos os bolivianos, vamos construir um governo de unidade nacional", ressaltou antes de destacar seu compromisso com a retomada do desenvolvimento econômico do país.

Jeanine Añez, que se autoproclamou presidenta do país no ano passado, após o golpe de Estado contra Evo Morales também reconheceu o resultado eleitoral e a tendência demonstrada pela pesquisa de boca de urna.

"Ainda não temos a contagem oficial, mas pelos dados com que contamos, o sr. Arce e o sr. Choquehuanca ganharam a eleição. Felicito aos ganhadores e lhes peço governar pensando na Bolívia e na democracia".

A demora na divulgação da pesquisa de boca de urna, que historicamente é difundida a partir do fechamento dos centros de votação, gerou indignação em todos os setores do país.

Mais cedo, em conferência de imprensa, o ex-presidente Evo Morales reafirmou a vitória do MAS e pediu que as entidades do país reconheçam o resultado da votação.

De acordo com a lei eleitoral boliviana, para vencer em um primeiro turno, é preciso ter 50% mais 1 dos votos ou ter 40% mais um e abrir dez pontos percentuais em relação ao segundo colocado.


Confira a íntegra do comunicado de Arce


Quem é o novo presidente da Bolívia?

Luis Alberto Arce Catacora é economista, natural de La Paz graduado pela Universidade Mayor de San Andrés e foi ministro de Economia e Finanças durante 13 anos. Ele é considerado um dos responsáveis pelo chamado “milagre econômico”, quando a Bolívia foi o país que mais cresceu na América Latina durante quatro anos consecutivos.

Em 2018, o país sul-americano registrou um aumento de 4,7% do Produto Interno Bruto (PIB), batendo um recorde de US$ 40,8 bilhões, enquanto a média de crescimento mundial foi de 3,2% e regional 1,7%, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). A pobreza foi reduzida de 60% para 37%, de acordo com dados oficiais.

Entre 2017 e 2019, Arce esteve licenciado por 18 meses do cargo, devido a um tratamento de câncer no rim, que realizou no Brasil. 

O governo de Evo Morales nacionalizou o gás natural em 2006. A Bolívia é o país com a maior reserva de lítio do mundo. Sob o comando de Arce, o país estava fabricando veículos elétricos, com baterias produzidas por bolivianos em parceria com uma empresa alemã. Por isso, ele tem repetido que o golpe no país foi para tomar conta do lítio.

Gás e lítio foram combustíveis do golpe de 2019

Em artigo publicado no jornal Brasil de Fato, o ex-presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, atualmente pesquisador do INEEP, ressalta que o golpe na Bolívia, que impediu que Evo Morales assumisse o seu novo mandato em 2019, não ocorreu no auge de uma crise econômica. "Ao contrário, a economia boliviana vinha crescendo e o principal contrato de fornecimento de gás natural do país com o Brasil estava em finais de negociações". Leia abaixo os principais trechos, da análise de Gabrielli, cuja íntegra pode ser acessada aqui.

O Gasbol transporta gás natural da Bolívia para o Brasil e os novos gasodutos construídos para a Argentina colocavam desafios para o setor de hidrocarbonetos do país, que vinha também aumentando a utilização interna do gás, tanto para o consumo doméstico, como para sua industrialização e geração de energia elétrica. O grande entrave era a queda dos investimentos que reduziu o volume de adições de novas reservas, colocando dúvidas sobre a capacidade da Bolívia atender aos diversos usos do energético. 

Várias disputas internas ocorreram no governo Evo Morales sobre as políticas a serem adotadas pela YPFB, estatal boliviana, que viveu uma grande descontinuidade administrativa, com inúmeras mudanças de diretorias. Um dos temas mais recorrentes era o grau de estatização que o país deveria buscar, em relação as empresas internacionais que atuavam no país, incluindo a Petrobras, além da Repsol, Shell, BP e PDVSA. A questão chave era a decisão de investimento tanto exploratório, como de completação e gestão contínua da produção, que permaneciam nas mãos das empresas internacionais, mas que também não seria possível de ser bancada financeiramente pelo orçamento estatal. As negociações ocorriam e os destinos do governo se associavam aos destinos do gás natural. 

Nos últimos anos, uma nova perspectiva se abriu com as possibilidades de grandes reservas do mineral raro lítio na Bolívia, onde se encontram as suas maiores reservas do mundo. O lítio é um mineral chave nas baterias para armazenamento de energia, indispensáveis para a expansão do uso e fabricação de veículos elétricos, assim como para a expansão das energias renováveis, mas intermitentes, como a eólica e solar.  

O governo Morales criou a Yacimentos de Litio Boliviano (YLB) e o governo golpista mudou, em dois meses, três vezes a sua diretoria. Uma semana antes de sair do governo, Evo, pressionado por lideranças locais de Potosi, rompeu uma aliança com uma empresa alemã para industrializar o hidróxido de lítio, usado nas baterias. Os habitantes da região de Uyuni querem mais contrapartidas para os habitantes locais na exploração de suas reservas do mineral. De acordo com a legislação boliviana a exploração do lítio é um monopólio estatal, só se permitindo a presença estrangeira na sua industrialização. Há controvérsias sobre se o hidróxido do lítio configura uma industrialização ou é apenas uma melhoria do produto extrativista, nesse case devendo ser um monopólio do estado. 

Para complicar a situação geopolítica atual da exploração do lítio, várias empresas chinesas já demonstraram interesses em participar dos empreendimentos, assim como a empresa Tesla, maior produtor mundial de veículos elétricos, explicitamente assumiu sua participação no golpe que derrubou o governo, assim como expressa seu interesse em ter presença no setor.

 

Última modificação em Segunda, 19 Outubro 2020 17:05
Publicado em Política

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