O Monstro e o Mangue: Artigo de Normando Rodrigues chama atenção para o enraizamento do fascismo no Brasil

Quarta, 24 Novembro 2021 12:19

Artigo do advogado Normando Rodrigues alerta sobre a relação entre o fortalecimento do bolsonarismo e atrocidades, como a chacina realizada pela polícia no último fim de semana na região metropolitana do Rio de Janeiro. "Os oito corpos atirados pelo Bope no mangue da Palmeira, em São Gonçalo, demonstram o quão entranhadas são as raízes do fascismo, em nossa sociedade". Leia íntegra:

Por Normando Rodrigues, assessor jurídico da FUP e do Sindipetro Norte Fluminense (*)

A dez meses da eleição, Bolsonaro se mostra competitivo a despeito do genocídio de 612 mil brasileiros. Longe de ser um mistério, essa resiliência se explica na identificação entre Mito e gado, e se fortalece a cada atrocidade.

Da lama ao caos, do caos à lama
 
O relatório final da CPI da Covid atribui ao Mito os crimes de prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado de morte, infração a medidas sanitárias preventivas, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documentos particulares, crime de responsabilidade e crimes contra a humanidade.
 
Somados os muitos outros crimes por meio dos quais Bolsonaro governa, o quadro geral de demolição antirrepublicana configura uma barafunda de raízes que se alimentam da matéria orgânica institucional em decomposição. Um “mangue”.
 
Essa confusão é intencional, e foi também vista nos governos fascistas idolatrados por Bolsonaro. Quanto mais caos o monstro fizer, a partir da lama social, maiores serão suas chances de concentrar poder.
 
O sol queimou, queimou a lama do rio
 
Os oito corpos atirados pelo Bope no mangue da Palmeira, em São Gonçalo, demonstram o quão entranhadas são as raízes do fascismo, em nossa sociedade. Foram jogados num alagadiço que já não é o natural e rico berçário de vida. É lixo.
 
O processo é antigo. A mesma Corte que tratava pretos e pobres como lixo no século XIX, inaugurou em 1860 o canal do mangue São Diogo, planejado 25 anos antes, porém só realizado após a epidemia do cólera no Rio de Janeiro.
 
Na época, a cloaca máxima era embelezada por longos jardins e fileiras de palmeiras, que talvez tenham assistido a alguns despejos de corpos pretos, como no último domingo a Palmeira de São Gonçalo assistiu.
 
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça
 
Lançar corpos de pretos e pobres no lixo, depois de os alimentar com lixo, é da essência do sistema, mas isso fica mais gritante sob o fascismo.


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O fascismo não tem pudor algum em garantir com brutalidade os diversos programas de transferência de renda dos pobres para os ricos. Ele dispensa aparências democráticas, ou de etiqueta à mesa.
 
E seu vírus se espalha por rádio, TV e Internet. Qualquer um que questione oito corpos lançados no mangue, vira “defensor de bandidos”.
 
E com o bucho mais cheio comecei a pensar
 
Manter pobres e pretos focados em catar alimento no lixo é também uma excelente maneira de evitar que “comecem a pensar”. Contudo, a violência estatal é também indispensável.
 
São Gonçalo integra uma região metropolitana com 13 milhões de habitantes, dos quais 6,7 milhões são negros, e mais de 5 milhões são pobres. Para controlar essa massa há a Polícia Militar, 50 anos mais velha do que o Canal do Mangue.
 
E a PM é tanto arcaica quanto fascista. Muito acima da média brasileira, 51% dos meganhas se declara pentecostal, 48% se assumem bolsonaristas, e 74% hipocritamente dizem defender o conservadorismo e o patriotismo.
 
Saiu do mangue e virou gabiru
 
Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e qualitativamente revelam que o conservadorismo dos PMs se expressa contra a diversidade e educação sexuais, contra o aborto, e a favor do armamentismo e de uma ideia obsoleta de família.
 
Já o “patriotismo” se limita às fantasias imbecis de captura da Amazônia pela França, a xingar venezuelanos, e a incensar o “ouviram dum” e a bandeira.
 
Se no “patriotismo” desses urubus não há nada sobre soberania, petróleo e desindustrialização, sua versão de “conservadorismo” inclui ridicularizar e negar ajuda a uma mulher estuprada, como fizeram PMs em Bangu, no sábado.
 
Que eu me organizando posso desorganizar
 
A PM jogou os corpos no mangue, e seus sócios bombeiros militares se recusaram ao resgate. Foi a própria população que o fez, por uma mínima civilidade. E do mesmo modo a população pode “desorganizar” o sistema de perpetuação do lixo.
 
Só os pretos e pobres podem purificar o mangue, a Baía da Guanabara e, sobretudo, as próprias vidas. Essa gente um dia vai “sair da lama e enfrentar os urubus” como o gênio de Chico Science escreveu.
 
E isso já começou a ocorrer. As pesquisas de intenção de votos, tanto espontâneas quanto estimuladas, apontam Lula à frente de Bolsonaro.
 
Posso sair daqui pra desorganizar
 
Talvez, na raiz virtuosa desse prenúncio de virada, esteja a atuar uma outra identificação. A do povo preto e pobre, tantas vezes roubado e injustiçado, com o presidente roubado e injustiçado.
 
“Um homem roubado nunca se engana”.

(*) Publicado originalmente pela Revista Forum

Última modificação em Quarta, 24 Novembro 2021 13:01
Publicado em Política

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