Luis Arce, candidato apoiado por Evo Morales, vence eleição na Bolívia no primeiro turno, indica pesquisa de boca de urna. Vitória foi reconhecida pelo opositor, o neoliberal, Carlos Mesa

[Com informações de Diálogos do Sul | Foto: Ronaldo Schemidt/AFP]

"Recuperamos a democracia e a esperança". Essas foram as primeiras palavras do candidato do Movimento ao Socialismo (MAS), Luís Arce Catacora, após a divulgação da contagem rápida com 95% do padrão eleitoral, realizado pela empresa Unitel.

De acordo com os dados, o candidato, apoiado pelo ex-presidente Evo Morales, venceu as eleições realizadas neste domingo (18) já no primeiro turno. Os dados não são oficiais, mas uma pesquisa de boca de urna.

De acordo com o levantamento, Luís Arce obteve 52,4%; Carlos Mesa, 31,5% e Fernando Camacho, 14,1%.

O ex-presidente neoliberal da Bolívia, Carlos Mesa, reconheceu nesta segunda-feira (19) a derrota para Luis Arce. "A diferença entre o primeiro candidato e nós é ampla", afirmou Mesa, em vídeo divulgado pela jornalista Natália Urban, em sua conta no Twitter.

Desde a Casa do MAS em La Paz, ao lado de apoiadores, Arce saudou os bolivianos e destacou a jornada pacífica realizada no país.

"Vamos governar para todos os bolivianos, vamos construir um governo de unidade nacional", ressaltou antes de destacar seu compromisso com a retomada do desenvolvimento econômico do país.

Jeanine Añez, que se autoproclamou presidenta do país no ano passado, após o golpe de Estado contra Evo Morales também reconheceu o resultado eleitoral e a tendência demonstrada pela pesquisa de boca de urna.

"Ainda não temos a contagem oficial, mas pelos dados com que contamos, o sr. Arce e o sr. Choquehuanca ganharam a eleição. Felicito aos ganhadores e lhes peço governar pensando na Bolívia e na democracia".

A demora na divulgação da pesquisa de boca de urna, que historicamente é difundida a partir do fechamento dos centros de votação, gerou indignação em todos os setores do país.

Mais cedo, em conferência de imprensa, o ex-presidente Evo Morales reafirmou a vitória do MAS e pediu que as entidades do país reconheçam o resultado da votação.

De acordo com a lei eleitoral boliviana, para vencer em um primeiro turno, é preciso ter 50% mais 1 dos votos ou ter 40% mais um e abrir dez pontos percentuais em relação ao segundo colocado.


Confira a íntegra do comunicado de Arce


Quem é o novo presidente da Bolívia?

Luis Alberto Arce Catacora é economista, natural de La Paz graduado pela Universidade Mayor de San Andrés e foi ministro de Economia e Finanças durante 13 anos. Ele é considerado um dos responsáveis pelo chamado “milagre econômico”, quando a Bolívia foi o país que mais cresceu na América Latina durante quatro anos consecutivos.

Em 2018, o país sul-americano registrou um aumento de 4,7% do Produto Interno Bruto (PIB), batendo um recorde de US$ 40,8 bilhões, enquanto a média de crescimento mundial foi de 3,2% e regional 1,7%, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). A pobreza foi reduzida de 60% para 37%, de acordo com dados oficiais.

Entre 2017 e 2019, Arce esteve licenciado por 18 meses do cargo, devido a um tratamento de câncer no rim, que realizou no Brasil. 

O governo de Evo Morales nacionalizou o gás natural em 2006. A Bolívia é o país com a maior reserva de lítio do mundo. Sob o comando de Arce, o país estava fabricando veículos elétricos, com baterias produzidas por bolivianos em parceria com uma empresa alemã. Por isso, ele tem repetido que o golpe no país foi para tomar conta do lítio.

Gás e lítio foram combustíveis do golpe de 2019

Em artigo publicado no jornal Brasil de Fato, o ex-presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, atualmente pesquisador do INEEP, ressalta que o golpe na Bolívia, que impediu que Evo Morales assumisse o seu novo mandato em 2019, não ocorreu no auge de uma crise econômica. "Ao contrário, a economia boliviana vinha crescendo e o principal contrato de fornecimento de gás natural do país com o Brasil estava em finais de negociações". Leia abaixo os principais trechos, da análise de Gabrielli, cuja íntegra pode ser acessada aqui.

O Gasbol transporta gás natural da Bolívia para o Brasil e os novos gasodutos construídos para a Argentina colocavam desafios para o setor de hidrocarbonetos do país, que vinha também aumentando a utilização interna do gás, tanto para o consumo doméstico, como para sua industrialização e geração de energia elétrica. O grande entrave era a queda dos investimentos que reduziu o volume de adições de novas reservas, colocando dúvidas sobre a capacidade da Bolívia atender aos diversos usos do energético. 

Várias disputas internas ocorreram no governo Evo Morales sobre as políticas a serem adotadas pela YPFB, estatal boliviana, que viveu uma grande descontinuidade administrativa, com inúmeras mudanças de diretorias. Um dos temas mais recorrentes era o grau de estatização que o país deveria buscar, em relação as empresas internacionais que atuavam no país, incluindo a Petrobras, além da Repsol, Shell, BP e PDVSA. A questão chave era a decisão de investimento tanto exploratório, como de completação e gestão contínua da produção, que permaneciam nas mãos das empresas internacionais, mas que também não seria possível de ser bancada financeiramente pelo orçamento estatal. As negociações ocorriam e os destinos do governo se associavam aos destinos do gás natural. 

Nos últimos anos, uma nova perspectiva se abriu com as possibilidades de grandes reservas do mineral raro lítio na Bolívia, onde se encontram as suas maiores reservas do mundo. O lítio é um mineral chave nas baterias para armazenamento de energia, indispensáveis para a expansão do uso e fabricação de veículos elétricos, assim como para a expansão das energias renováveis, mas intermitentes, como a eólica e solar.  

O governo Morales criou a Yacimentos de Litio Boliviano (YLB) e o governo golpista mudou, em dois meses, três vezes a sua diretoria. Uma semana antes de sair do governo, Evo, pressionado por lideranças locais de Potosi, rompeu uma aliança com uma empresa alemã para industrializar o hidróxido de lítio, usado nas baterias. Os habitantes da região de Uyuni querem mais contrapartidas para os habitantes locais na exploração de suas reservas do mineral. De acordo com a legislação boliviana a exploração do lítio é um monopólio estatal, só se permitindo a presença estrangeira na sua industrialização. Há controvérsias sobre se o hidróxido do lítio configura uma industrialização ou é apenas uma melhoria do produto extrativista, nesse case devendo ser um monopólio do estado. 

Para complicar a situação geopolítica atual da exploração do lítio, várias empresas chinesas já demonstraram interesses em participar dos empreendimentos, assim como a empresa Tesla, maior produtor mundial de veículos elétricos, explicitamente assumiu sua participação no golpe que derrubou o governo, assim como expressa seu interesse em ter presença no setor.

 

Publicado em Política

Um cenário como este já era de se esperar e se faltavam exemplos do que é comprometer a soberania alimentar de uma nação, agora não faltam mais. A Acron, empresa Russa de fertilizantes das mais importantes do mundo, se juntou à estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos, a YPFB, para comercializar ureia (material derivado do gás natural usado para fazer fertilizantes) com a intenção de vender para o mercado brasileiro, mais especificamente para o Estado do Mato Grosso do Sul. Neste fim de semana, 17, a Acron comunicou ao governo do estado que o fornecimento de ureia está interrompido em decorrência da crise na Bolívia.

De acordo com o secretário de Estado de Produção e Meio Ambiente Jaime Verruck, a situação é preocupante, a estimativa para este ano era que somente Mato Grosso do Sul importasse 400 mil toneladas de ureia e no entanto ficou sem ureia exatamente na época de plantio da safra. O impacto econômico é negativo para as empresas que já firmaram contratos, mas afeta também o Brasil que deixa de receber a ureia necessária ao agronegócio.

O mais sério ainda é que não é uma questão comercial apenas, trata-se de escolha feita por quem não tem compromisso com a nação, pois coloca em risco as necessidades alimentícias do povo. É dever do Estado garantir segurança alimentar com qualidade e em quantidade suficiente para toda a população de modo permanente. O que acontece agora no Mato Grosso do Sul é um exemplo do que denuncia o presente e compromete o futuro.

Uma pergunta: um governo que vende suas Fafens, está preocupado com a soberania alimentar do povo que governa?

 

Publicado em Sistema Petrobrás

A Assembleia Legislativa da Bolívia recebeu nesta segunda-feira (11) a carta de renúncia do presidente Evo Morales, após sofrer um golpe de Estado.

“Minha responsabilidade como presidente indígena e de todos os bolivianos é evitar que os golpistas sigam perseguindo... Para evitar todos esses acontecimentos violentos e que volte a paz social, apresento minha renúncia”, afirmou Morales no documento.

O governo de Evo Morales reduziu a pobreza extrema na Bolívia a menos da metade, praticamente zerou o analfabetismo e reduziu o desemprego a 4%. "As elites latino-americanas não sabem conviver com a democracia e com a inclusão social e política dos mais pobres", afirmou a CUT em nota condenando o golpe na Bolívia. 

"Precisamos todos e todas rechaçar o que está acontecendo na Bolívia. Não podemos permitir que o fascismo chegue com força aqui na América Latina. A direita que não aceitou os resultados das urnas na Bolívia no dia 20 de outubro, desde então incita a população contra o governo Evo Morales e cria uma convulsão social, a ponto de termos mortes, casas incendiadas dos membros do governo e da própria irmã de Evo, lixamentos, ameaças de morte entre outras atrocidades, como só o fascismo pode entregar. Não podemos aceitar que isso tenha ocorrido e ocorra com o apoio do governo Bolsonaro", afirmou o diretor da FUP, Deyvid Bacelar, em video postado em sua conta no facebook.

A prefeita Patricia Arce, do município de Vinto, ligada ao Movimento Ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales, foi sequestrada e torturada por milícias que apoiam o golpista Luis Fernando Camacho, na região de Cochabamba. Ela foi espancada, teve os cabelos cortados, o corpo pintado por tinta vermelha e foi obrigada a caminhar por três quilômetros de pés descalços,

Deyvid explica que Evo Morales renunciou para que mais sangue não seja derramado e para que as forças democráticas dos países irmãos possam dar o apoio necessário para que novas eleições sejam realizadas e, mais uma vez, progressistas vençam essas eleições, mantendo a Bolívia no rumo certo, reduzindo os índices de pobreza e analfabetismo e fazendo com que esse país continue crescendo.

Ele lembra que golpes de Estado são feitos para retirar direitos do povo e entregar as riquezas nacionais aos ricos, como fizeram no Brasil, após o impeachmente da ex-presidenta Dilma Roussef.

A conta está sendo paga com as privatizações de empresas estratégicas como a Petrobrás e a Eletrobrás e com a entrega do Pré-Sal  e da Amazônia.

"Os militares e a direita derrubam Evo no momento em que a América Latina resiste ao neoliberalismo. A sanha golpista deve ser impedida. Sigamos juntos contra todas essas formas de retrocessos. Juntos somos mais fortes", ressalta o diretor da FUP.

#EvoNoEstasSolo

Publicado em Política
Segunda, 11 Novembro 2019 12:52

CUT condena golpe de Estado na Bolívia

A CUT Brasil denuncia e expressa seu repúdio ao golpe de Estado contra o mandato do legítimo presidente da Bolívia, Evo Morales, neste 10 de novembro de 2019.

Desde as eleições presidenciais realizadas no último mês de outubro, as forças de oposição bolivianas desencadearam atos de violência, invasão, pilhagem e queima de casas, além da humilhação de autoridades democraticamente eleitas, sequestros e ameaças físicas aos seus familiares – incluindo o incêndio da casa da irmã do presidente e a invasão da própria casa de Morales – para forçar sua renúncia, o do seu vice-presidente Álvaro García-Linera e de inúmeras lideranças do partido do presidente, o MAS, Movimento para o Socialismo.

As recomendações da Organização dos Estados Americanos (OEA) para uma nova eleição e também pela renovação completa dos órgãos eleitorais e a possibilidade de novas candidaturas foram integralmente aceitas pelo presidente Morales. No entanto, a oposição optou pela intransigência e a ruptura democrática.

Particularmente graves foram os comportamentos ​​das forças policiais – que promoveram um verdadeiro motim – e, finalmente, a “sugestão de renúncia”, feita em rede nacional pelo chefe das Forças Armadas. O golpe tem um caráter notadamente reacionário, ultraneoliberal e de submissão aos interesses estadunidenses, além de nítidos traços de fundamentalismo religioso e de racismo contra os povos indígenas da Bolívia.   

Não podemos deixar de denunciar a atitude cúmplice da OEA, que, apesar do respeito diplomático dispensado pelo governo boliviano, nunca deixou de agir em favor do discurso da oposição, favorecendo o caos político e a deslegitimação dos poderes constitucionais. Dessa forma, a OEA e seu secretário-geral, Luis Almagro, reforça ainda mais seu papel da mais absoluta submissão ao governo estadunidense de Donald Trump. 

Além da atuação da OEA, a pressa com que governos da região, como os do Brasil de Jair Bolsonaro e o da Argentina de Maurício Macri, comemoram de maneira cínica o golpe – inclusive, tentando negar que a remoção de Evo Morales tenha sido realizada de maneira flagrantemente inconstitucional e sob a ameaça das baionetas do exército – são cristalinas em demostrar que os compromissos das elites e da direita latino-americana com a democracia são meramente instrumentais. Na realidade, as elites latino-americanas não sabem conviver com a democracia e com a inclusão social e política dos mais pobres.

Vale ressaltar que esta ruptura da ordem democrática da Bolívia ocorre num contexto de diversos levantes populares contra governos conservadores em toda a América Latina – além da vitória eleitoral de Alberto Fernández na Argentina. Ao contrário dos recentes golpes em Honduras, Paraguai e Brasil, que pelo tentavam simular um ambiente de respeito à ordem constitucional, o golpe de Estado na Bolívia, repete o modelo dos sangrentos golpes de Estado das décadas de 1960 e 1970.

Alertamos que se o golpe de Estado na Bolívia não sofrer o mais absoluto repúdio da comunidade internacional, os golpes militares serão aceitos e internalizados pelos demais governos reacionários da nossa região.

O colapso institucional na Bolívia é inaceitável. Manifestamos nossa solidariedade ao povo boliviano e ao presidente Evo Morales. Apoiamos às mobilizações de resistência do povo boliviano e exigimos o pleno respeito aos direitos humanos, à vida e à integridade do presidente, sua equipe de governo, seus familiares, bem como a de todo o povo boliviano.

Conclamamos os governos democráticos do mundo, os sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos a não abandonar o povo boliviano e repudiar de maneira enérgica e efetiva o golpe no Estado Plurinacional da Bolívia.

Acompanhe a cobertura da Rede de TV Telesur: 

São Paulo, 11 de novembro de 2019

Sérgio Nobre                                  

Presidente da CUT Brasil                  

Carmen Foro

Secretária-Geral da CUT Brasil

Antonio Lisboa

Secretário de Relações Internacionais da CUT Brasil

[Foto: Daniel Walker/AFP]

Publicado em Política

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.