Por Isadora Coutinho, mestra em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep)
 
Se antes da pandemia o planejamento estratégico da Petrobras já demonstrava estar defasado, atualmente não resta dúvida disso 

O contexto da pandemia de covid-19 não somente provocou a revisão de planejamentos empresariais e nacionais, como também expôs, em alguns casos, fragilidades e erros de caminhos antes percorridos e previstos por empresas e Estados. 

A Petrobras não ficou fora dessas revisões. Com a redução da demanda global por petróleo e a queda nos preços do barril internacional, a companhia, assim como outras empresas petrolíferas mundo afora, teve que se reorganizar para lidar com o cenário desafiador. Chama à atenção, contudo, o tipo de descompasso entre a orientação estratégica da Petrobras planejada para o período entre 2020 e 2024 e algumas de suas respostas ao quadro de crise sanitária e energética nos últimos meses. Tal descompasso joga luz às escolhas equivocadas da administração da estatal e ao seu consequente posicionamento no setor do petróleo e de energia.

O Plano de Negócios e Gestão (PNG) 2020-2024 da Petrobras, elaborado no final de 2019, aprofundou diretrizes que vinham sendo seguidas desde 2015. Isso significa uma vigorosa política de desinvestimentos aliada a um crescente enfoque na área de exploração e produção (E&P), compondo, assim, o eixo estratégico de atuação da estatal. Além de detalhar os ativos que pretende vender – por exemplo, campos em terra e águas rasas; refinarias; transporte e distribuição de gás; distribuição de GLP; usinas térmicas; gasodutos offshore; ativos internacionais –, o atual plano prevê para o quadriênio a destinação de 85% dos investimentos totais para o segmento de E&P, sendo 66% desse montante concentrados no pré-sal. Enquanto isso, no que diz respeito a outras áreas – refino, transporte, comercialização, petroquímica, renováveis, gás e energia – houve uma redução de 42,5% no volume de investimentos planejados em relação ao plano anterior.

Já no contexto de pandemia, ao mesmo tempo em que o balanço do primeiro trimestre de 2020 da Petrobras registrou o maior prejuízo da história da companhia, demonstrou também que a companhia conseguiu obter resultados operacionais positivos. Nesse sentido, por exemplo, apesar da queda de 6,1% das vendas internas em função da redução de demanda por combustíveis automotivos e querosene de aviação, houve um crescimento da receita total de vendas em 7%, sustentado pela expansão em 70% das exportações de óleo cru e produtos derivados. Portanto, de um lado, a Petrobras tem se apoiado nas exportações de óleo cru principalmente para China, que já está em fase de recuperação da crise. De outro, tem utilizado a infraestrutura disponível de seu parque de refino para produzir derivados e exportar para países como Cingapura e Estados Unidos, por exemplo.

Partindo da constatação de que essas duas medidas contribuíram para evitar que a Petrobras sofresse ainda mais os impactos da Covid-19, cabe analisá-las à luz do seu último planejamento estratégico, da conjuntura atual e das perspectivas para o futuro. Embora a primeira estratégia tenha ajudado a compensar receitas e o óleo cru seja ainda o principal item de exportação (78%), sua fragilidade tem sido imensamente exposta em âmbito mundial pelos efeitos da própria pandemia. Isso porque os preços do barril de petróleo têm se mostrado cada vez mais voláteis e suas cotações atingiram patamares extremamente baixos nos últimos meses. Além disso, a Petrobras fica exposta a uma forte concorrência com outros ofertantes e refém da demanda internacional, principalmente da China. Como exemplo, não se pode afirmar com precisão se as importações chinesas de óleo cru vão se manter no mesmo nível, e nem mesmo se e quando haverá uma recuperação completa da demanda mundial por petróleo. Ainda, deve-se considerar incertezas variadas com relação às possíveis transformações no setor de energia que já estavam em curso.

Por outro lado, chama mais à atenção a segunda estratégia adotada pela Petrobras, a qual segue em um caminho contrário ao previsto no seu último PNG – que visa o desinvestimento na estrutura de refino da empresa, com a venda de oito de suas treze refinarias. Foram justamente algumas dessas refinarias que “protegeram” a Petrobras nesse período de perdas maiores por conta da pandemia da Covid-19.

No primeiro trimestre de 2020 em comparação no mesmo período de 2019, houve um aumento de 50% do volume de óleo combustível (diesel, bunker, fuel oil, etc) exportado pela empresa. Na primeira semana de junho de 2020, a Petrobras já divulgou que superou em 10% o recorde anterior de exportação de óleo combustível atingido em fevereiro de 2020. Tal aumento tem sido em grande medida sustentado por quatro refinarias do Nordeste, das quais três integram o plano de desinvestimento da Petrobras. A partir de levantamento do Ineep, pode-se constatar que as refinarias RLAM (Bahia), RNEST (Pernambuco), RPCC (Rio Grande do Norte) e Lubnor (Ceará) contabilizaram 56% da produção de óleos combustíveis da empresa no primeiro trimestre deste ano.

Esse aumento de exportação é muito relacionado à vantagem competitiva da Petrobras no que se refere à produção de óleo combustível de navegação (bunker oil). Desde janeiro de 2020, entrou em vigor a nova regulamentação do combustível marítimo, elaborada pela Organização Marítima Internacional (IMO), que reduziu de 3,5% para 0,5% o limite dos níveis de enxofre permitidos no combustível utilizado por embarcações. No caso, o óleo brasileiro historicamente conta com baixo teor de enxofre, sendo que grande parte do petróleo no mundo precisa passar por processos adicionais de tratamento. Ou seja, em meio ao cenário adverso imposto pela pandemia, a Petrobras, em posse do seu parque de refino, pôde contar com a possibilidade de explorar esse novo nicho de mercado global, que aparenta garantir maior resiliência na sua demanda no cenário atual.

Por isso é possível afirmar que parte do motivo de a companhia não ter sofrido significativamente os impactos da Covid-19 nos primeiros meses é relacionada justamente à maior utilização de refinarias de que pretende se desfazer, as quais já se encontram em fase vinculante de venda.

Nesse sentido, tais ações tomadas pela empresa colocaram em evidência a necessidade de readaptação de sua atuação. Se antes da pandemia o planejamento estratégico da Petrobras já demonstrava estar defasado há alguns anos em relação às tendências no setor de petróleo e de energia, atualmente não resta dúvida disso. Com um montante de desinvestimentos previstos contabilizando entre US$ 20-30 bilhões para o período 2020-2024 e com uma vultosa redução de investimentos nos setores de refino, transporte, comercialização, petroquímica, gás e energia e renováveis, a Petrobras tem buscado reduzir sua margem de ação ao concentrar sua atuação na exploração e produção do petróleo do pré-sal. De tal modo, no mínimo, torna-se sem flexibilidade para redirecionar suas atividades para segmentos que podem apresentar maior resiliência a crises, como pôde ser assim feito em certa medida nos últimos meses.

No cenário de grande incerteza, a empresa ainda pôde recorrer à sua capacidade de refino para responder aos desafios impostos pela conjuntura. Todavia, em um cenário hipotético de vendas das suas refinarias, essa capacidade de resiliência não existiria. Por isso, fica em questão se eventualmente a companhia irá se adequar à realidade e às perspectivas futuras. E esse futuro exige mais do que nunca flexibilidade por parte das empresas e não a especialização em apenas um tipo de atividade da indústria, como parece ser a atual estratégia da Petrobras.

[Artigo do INEEP originalmente publicado na Revista Carta Capital | Foto: FLÁVIO EMANUEL / AGÊNCIA PETROBRAS]

Publicado em Sistema Petrobrás

Dois terços da superfície “terrestre” estão cobertos pela água dos mares; a maior parte dessas águas internacionais são “livres” e não obedecem a nenhum tipo de soberania que não seja a do “poder naval” das grandes potências marítimas de cada época e de cada região do mundo. Dois mil anos antes da “Era Comum”, foi o poder naval da Ilha de Creta que conquistou e submeteu o Mar Egeu à civilização cretense, da mesma forma que a marinha fenícia submeteu o Mar Mediterrâneo ao seu império comercial. E o mesmo aconteceu durante a Antiguidade Clássica, com o poder naval de Atenas e do Império Romano, e mais tarde, com o poder marítimo de Veneza, Gênova sobre as rotas comerciais do mesmo Mar Mediterrâneo, que se transformou no cenário da guerra secular entre o Império Otomano e o Império Habsburgo, que culminou com a Batalha de Lepanto, em 1571.

No entanto, todos esses casos e também na expansão marítima chinesa do século XV, não havia uma “autonomia logística” ou separação clara entre as frotas comerciais e os navios de guerra desses povos, impérios e civilizações. Tampouco havia no caso dos navios árabes que dominaram as rotas comerciais do Mar da Índia e do Sul da China, nos séculos XIV e XV. Tudo indica que foram os primeiros Estados nacionais europeus que acabaram desenvolvendo e aperfeiçoando navios preparados para a guerra naval, as famosas “canhoneiras” que abriram o caminho da dominação eurocêntrica dos mares do mundo, que começou com Portugal em 1415, e alcançou seu ápice com a dominação global da marinha dos EUA, depois de 1991, sobre todas as “água livres” dos cinco oceanos e de todos os mares estratégicos do mundo.

Por isso talvez tenham sido os europeus, e em particular os anglo-saxões, que formularam melhor a tese de que o poder naval era uma condição indispensável para a conquista do “poder internacional” por parte de qualquer Estado que se propusesse a se transformar em grande potência. Sir Walter Raleigh, (1533-1603), que também foi marinheiro, financista e pirata inglês, condensou esta ideia em poucas palavras, olhando para o Oceano Atlântico e afirmando que, “quem tem o mar… tem o próprio mundo”. Muito tempo depois, do outro lado do Atlântico, o almirante norte-americano Alfred Mahan – conselheiro do presidente Theodoro Roosevelt – ecoaria esta mesma tese ao propor que os Estados Unidos fortalecessem seu poder naval olhando para o Oceano Pacífico, como primeiro passo do projeto de construção de um poder global norte-americano. Na mesma linha, os grandes geopolíticos anglo-americanos, Halford Mackinder e Nicholas Spykman, contribuíram para este mesmo projeto, sublinhando a importância também do controle do Mar Báltico e do Mar Negro, e dos Golfos Pérsico e Arábico.

Depois das potências ibéricas, a supremacia do poder naval britânico se impôs em todo o mundo durante os séculos XVIII e XIX, e só foi superada pelo poder naval norte-americano na segunda metade do século XX. Assim mesmo, foi só depois do fim da Guerra Fria que a marinha dos EUA logrou estender seu controle monopólico sobre todas as “águas livres” do mundo. Foi o momento em que a Marinha Americana redefiniu seus próprios objetivos no novo contexto internacional, em dois documentos datados de 1992 e 1994, onde consta que “nossa estratégia mudou seu foco de uma ameaça global para um foco nos desafios e oportunidades regionais. No momento em que desapareceu a perspectiva de uma guerra global, entramos num período de enormes incertezas em regiões críticas para nossos interesses nacionais”.

Hoje existem cerca de 60 mil navios mercantes em todo o mundo, e 80% do comércio global se dá através do transporte marítimo; essas cifras são ainda mais expressivas quando se trata das relações comerciais entre os países mais ricos mundo. Mas nestes 30 anos depois do fim da Guerra Fria, o panorama do mundial mudou completamente com o deslocamento do centro dinâmico capitalismo para Ásia, e com o aparecimento de dois novos polos de poder naval – a China e a Rússia – que já disputam com os Estados Unidos o controle dos oceanos e mares asiáticos, mas também da região do Ártico, e o próprio Oceano Pacífico.

Maiores marinhas

Em estudo recente, a National Interest publicou um ranking elencando as maiores marinhas do sistema mundial, e a marinha norte-americana aparece em primeiro lugar, seguida por China e Rússia. A Marinha dos EUA, a US Navy, possui hoje 10 porta-aviões, 9 navios de desembarque, 17 fragatas, 22 cruzadores, 62 destróieres e 72 submarinos. Já que a Marinha da China, a People Libertation Army Navy (PLA Navy), possui 1 porta-aviões, 3 embarcações anfíbias, 25 destróieres, 42 fragatas, 8 submarinos nucleares e cerca de 50 submarinos convencionais. Em terceiro lugar aparece a Marinha Russa, a Russian Navy, que herdou a maior parte das embarcações soviéticas que estão sendo modernizadas e, além disso, possui 1 porta-aviões, 5 cruzadores, 13 destróieres e 52 submarinos.

É no contexto dessa nova correlação de forças navais no mundo, dentro da permanente luta das grandes potências pelos recursos estratégicos do planeta, e, em última instância, pelo “poder global”, que se deve entender a recente “escalada militar” das grandes potências, em plena pandemia do novo coronavírus.

Mas esta movimentação recente não caiu do céu, e se inscreve numa disputa que vem se acirrando a cada dia que passa, sobretudo entre EUA e China, e entre a Rússia e EUA.

Já faz algum tempo que os EUA vêm intensificando seus exercícios navais no Atlântico e no Mar do Caribe. Destacam-se suas manobras recentes de cooperação entre navios de guerra e navios cargueiros, com a simulação de transporte de material bélico, um tipo de exercício que não se realizava desde o fim da Guerra Fria. Por outro lado, novos submarinos têm sido somados à IV Frota Naval, e no Mar do Caribe tem havido intensa movimentação, com o monitorando de embarcações venezuelanas e iranianas, feito com o objetivo de aumentar a pressão contra o governo de Nicolás Maduro. A frota naval americana também tem realizado ensaios em outros cenários, como foi o caso recente do Oceano Glacial Ártico e do Mar de Barents, mas também do Mar Báltico, onde inclusive foram utilizados bombardeiros supersônicos com armas nucleares. E o mesmo tem acontecido no Mar do Japão e no Mar do Sul da China, devendo-se sublinhar a importância do anúncio americano da instalação de bombas nucleares de “baixa intensidade” nos mísseis Trident utilizados pelos 14 submarinos USS Tennessee de sua frota submarina.

Essa investida militar dos EUA, sobre o Pacífico e sobre o Ártico, entretanto, não tem ficado sem resposta naval da parte da China e da Rússia. A China estabeleceu como meta estratégica completar a modernização de seu Exército Popular de Libertação Nacional até 2035, mas já faz tempo que o poder naval passou a ocupar lugar central nas preocupações estratégicas chinesas. Nos últimos anos, a PLA Navy construiu mais navios de guerra, submarinos, anfíbios e barcos de apoio do que o total da frota britânica, e hoje o poder naval da China já representa uma ameaça real às tropas norte-americanas do Sul do Pacífico, em particular no estreito de Taiwan. Em 2013, a China começou a construção de ilhas artificiais, como é o caso das ilhas Spratly e Paracelso, numa região que, além de ser uma via crucial do comércio marítimo internacional, também possui grandes reservas de recursos naturais estratégicos, numa região que é disputada também por Malásia, Vietnã, Taiwan, Filipinas e Brunei, países que contam com o apoio norte-americano.

A Rússia, por sua vez, tem investimento pesadamente na corrida armamentista pelos recursos estratégicos do Círculo Polar Ártico. Com esse objetivos, a Marinha Russa tem modernizado seus navios quebra-gelo pesados, médios e leves, e avança aceleradamente no projeto de construção do quebra-gelo mais potente e pesado do mundo – o 10510 Líder – junto com a construção de um novo navio nuclear – o Arkitika – que deverá operar no perímetro polar. Além disso, A Rússia se propõe comissionar ainda em 2020, seus novos submarinos diesel-elétricos do projeto 6363 Varshavyanka, junto com a construção de seis grandes submarinos diesel com mísseis de cruzeiro Kalibr-PL. Além disto, a Marinha Russa colocou em operação esse ano, um novo submarino nuclear na região do Ártico, onde vários países adjacentes também estão reforçando e modernizando suas infraestruturas militares.

No Atlântico como no Pacífico, no Ártico como no Caribe, ou no Golfo Pérsico, esta escalada militar envolve uma disputa por recursos naturais estratégicos, com destaque especial para o petróleo, que seguirá sendo ainda a fonte de energia fundamental do sistema econômico e da infraestrutura militar dessas grandes potências, pelo menos durante boa parte do século XXI. Por isso, os estreitos marítimos que são rotas de circulação destes recursos estratégicos, e do petróleo, em particular, têm-se tornado objeto de crescente tensão. Incluem-se neste caso o Estreito de Ormuz (chave para os EUA) por onde passam 19 milhões de barris de petróleo, provenientes de Irã, Kuwait, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Mas também o Estreito de Bab el Mandeb (chave para a África), que está situado entre a África e o Oriente Médio, ligando o Mar Vermelho ao Golfo de Aden à Ásia, e que é uma espécie de “antessala” do petróleo que depois atravessa o Canal de Suez, ou que é escoado pelo oleoduto SUMED. Pelo Canal de Suez passam 5,5 milhões de barris por dia, a maior parte na direção do Oriente Médio ou da Europa. E o oleoduto SUMED (Egito) é a única rota alternativa ao Canal de Suez, para transportar petróleo bruto do Mar Vermelho para o Mar Mediterrâneo.

No entanto, é no Estreito de Malaca e no Mar do Sul da China onde se concentra hoje a maior disputa naval do mundo. Por aí circulam hoje 64% do comércio marítimo global, e fluem 16 milhões de barris de petróleo por dia, a maior parte na direção à China. Esta região está sob o controle naval da Frota do Pacífico dos Estados Unidos, a principal frota naval da marinha norte-americana, cujo quartel-general está em Pearl Harbor, e que conta com cerca de 200 navios, 2.000 aviões e 250.000 homens. É uma região também disputada por muitos outros países, em particular pela China, que vem concentrando um poder de fogo que cresce de forma geométrica exatamente onde os Estados Unidos têm sua maior frota naval. Por isto, se pode dizer com toda certeza que o Estreito de Malaca é hoje a região naval onde se situa o principal termômetro que mede a variação da intensidade da competição naval entre as grandes potências que disputam a soberania marítima das “águas livres” do mundo.

Resumindo: depois de 1991, os EUA monopolizaram os mares do mundo. Mas hoje, trinta anos depois, esse monopólio está sendo ameaçado pela China e pela Rússia. Por fim, é bom lembrar que muitos analistas e historiadores consideram que o desafio alemão ao poder naval britânico foi o estopim da “guerra hegemônica” que sacudiu o mundo entre 1914 e 1945.

 

José Luis Fiori é Professor titular do Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ), e do Programa de Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada (PPGBIOS/UFRJ), Coordenador do GP do CNPQ, “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”, do NUBEIA/ UFRJ; pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). William Nozaki é Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).

1 Cit in FIORI, J. L. História, estratégia e desenvolvimento. São Paulo: Boitempo, 2014, p.142.

 

por José Luis Fiori e William Nozaki

Publicado originalmente por Le Monde Diplomatique Brasil

Publicado em Economia

Nada será como antes após a Covid-19. No setor de petróleo e gás natural, a pandemia derrubou consumo, preços, estrangulou a capacidade de estoque e mudou a geopolítica da área.

Para discutir o presente e o futuro do setor, o Intituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), em parceria com a EPBR, agência de notícias especializada em petróleo, promove a série de webinares “Impactos da Covid no Setor de Óleo e Gás”.

O primeiro webinar – Impactos e medidas emergenciais tomadas pelas empresas – será nesta próxima segunda-feira, às 17h, no canal da EPBR no YouTube.

William Nozaki, do INEEP, Alberto Machado, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e Marcelo Gauto, especialista em petróleo e gás, irão debater as medidas econômicas e sociais adotadas pelas companhias de óleo e gás como resposta à pandemia.

A moderação será feita pelo editor executivo da EPBR, Felipe Maciel.

Participe da webinar, que começa às 17h:  

[FUP, com informações do INEEP]

Publicado em Petróleo

Em live nesta sexta-feira, 15, realizada pela Revista Fórum, o coordenador da FUP, José Maria Rangel, e o economista Eduardo Pinto, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustiveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), explicaram o que está por trás do prejuízo de R$ 48,5 bilhões, reportado pela Petrobrás no primeiro trimestre deste ano.

Este é o pior resultado já registrado na história da companhia em um trimestre, na contramão do lucro de R$ 4 bilhões que marcou o mesmo período do ano passado.


Leia aqui a análise do INEEP publicada pela revista Carta Capital

Ouça aqui o podcast do INEEP


Para a FUP e o INEEP, o prejuízo não reflete impactos da pandemia da covid-19, já que nos dois primeiros meses do ano, os preços do barril de petróleo e a demanda pelo produto ainda não haviam sido afetados significativamente pela crise do novo coronavírus.

Além disso, a Petrobrás alcançou neste primeiro trimestre R$ 35 bilhões de geração operacional de caixa, 97% a mais do que foi registrado no mesmo período de 2019, segundo levantamento da Subseção do Dieese da FUP.

O principal motivo do prejuízo histórico registrado pela companhia foi a decisão da atual gestão de realizar uma depreciação gigantesca de ativos, os chamados impairments, baixas contábeis de R$ 65,3 bilhões. Depreciações feitas em uma escala muito acima do que outras petrolíferas realizaram no período.

A Total, por exemplo, fez impairments de US$ 3,6 bilhões, quatro vezes menor do que os US$ 13,5 bilhões depreciados pela Petrobrás. No mesmo período, a Exxon Mobil registrou impairments de US$ 2,8 bilhões; a Sinopec, de US$ 1,5 bilhões; a BP, de US$ 1,1 bilhões e a Shell de apenas US$ 750 milhões.

“Como a Petrobrás pode fazer um impairment desta natureza, estimando o preço do petróleo em 50 dólares em 2025? Não temos certeza do que vai acontecer no setor até o final do ano”, questionou o coordenador da FUP, lembrando que o próprio presidente da estatal e sua diretoria fizeram questão de afirmar recentemente para os trabalhadores que o setor petróleo está completamente incerto diante das mudanças geradas pela pandemia.

Ele lembrou que os impairments têm sido uma manobra das últimas gestões da Petrobrás para depreciar o valor dos ativos e, assim, facilitar as privatizações. “Ao desvalorizar os ativos, nesta proporção absurda que fez a gestão da empresa, os valores das privatizações futuras, por mais baixos que sejam, entrarão como lucro nos balanços seguintes”, explicou José Maria, chamando a atenção para as refinarias que foram colocadas à venda. “Como estão cegos para vender refinarias, desvalorizam o preço, entregam na bacia das almas e ainda lançam no balanço como lucro e, assim, fazem parecer que foi um grande negócio”, alertou.

O pesquisador do INEEP, Eduardo Pinto, fez uma análise técnica do balanço da Petrobrás, comparando receitas e despesas da empresa, e reforçou que o prejuízo contábil foi uma decisão muito mais política do que técnica. “Por que a Petrobrás fez um impairment muito maior do que o de outras empresas? Por que subestimou o preço do petróleo para este ano e projetou para o futuro valores tão incertos neste momento?”, questionou.

Para o coordenador da FUP, a resposta é política. “Está muito claro neste balanço, que a gestão Castello Branco continua a pavimentar o caminho para a privatização da empresa, para entrega do patrimônio público a preço de banana”, afirmou.

Veja a íntegra do debate: 

[FUP]

Publicado em Sistema Petrobrás

Nada será como antes após a Covid-19. No setor de petróleo e gás natural, a pandemia derrubou consumo, preços, estrangulou a capacidade de estoque e mudou a geopolítica da área.

Para discutir o presente e o futuro do setor, o Intituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), em parceria com a EPBR, agência de notícias especializada em petróleo, promove a série de webinars “Impactos da Covid no Setor de Óleo e Gás”.

O primeiro webinar – Impactos e medidas emergenciais tomadas pelas empresas – será na próxima segunda-feira (18 de maio), às 17h, no canal da EPBR no YouTube. William Nozaki, do INEEP, e Fernanda Delgado, da FGV Energia, irão debater as medidas econômicas e sociais adotadas pelas companhias de óleo e gás como resposta à pandemia. A moderação será feita pelo editor executivo da EPBR, Felipe Maciel.

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[Via INEEP]

Publicado em Petróleo

A Petrobras divulga nesta quinta-feira (14) seu balanço dos resultados do primeiro trimestre deste ano. Apesar da crise da Covid-19, os números devem ser bastante positivos. Isso porque a pandemia – que provocou forte redução tanto do consumo interno de derivados como dos preços de petróleo em todo planeta – chegou de maneira mais intensa ao Brasil na segunda quinzena do mês de março, ou seja, ao final do período de análise.

Segundo estimativas do Instituto Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), a expectativa é que a empresa registre um lucro líquido em torno dos R$ 4,6 bilhões, o que significaria uma expansão próxima de 8,7% em relação o primeiro trimestre do ano passado. Isso caso não sejam incluídas no balanço elevadas receitas ou despesas extraordinárias, como impairments. Uma eventual desvalorização dos ativos por conta da queda dos preços, por exemplo, pode ter impactos significativos no resultado.

O EBITDA ajustado, que é o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, deve girar próximo dos R$ 29,3 bilhões, segundo o Ineep. Esse montante é 6,7% superior ao registrado no primeiro trimestre no ano anterior. 


Tabela:  Estimativas do INEEP do Balanço da Petrobras 

 

 

Esse provável resultado positivo é fruto (i) do aumento expressivo na produção de petróleo, que proporcionou a elevação das exportações; e (ii) da ampliação do fator de utilização das refinarias, expandindo a produção de derivados que foram destinados às exportações. 

A produção de petróleo aumentou de 1,97 milhões de barris por dia (bpd) para 2,32 milhões bpd entre os primeiros trimestres de 2019 e 2020, respectivamente. Crescimento de 17,7%, comparado ao mesmo período em 2019, que representou uma expansão de 31,4 milhões de barris. Esse resultado deveu-se aos ramp-up (crescimento da curva de produção) dos sete sistemas que entraram em produção nos campos de Búzios (P-74, P-75, P-76 e P-77), Lula (P-67 e P-69) e Berbigão/Sururu (P-68). 

Essa expansão da produção foi, primordialmente, destinada à exportação de petróleo cru, que cresceu 28,1 milhões de barris entre 1T19 e 1T20. Isso deverá gerar um aumento expressivo das receitas de exportação da ordem de 54%. Cabe destacar que o principal destino das exportações de petróleo foi a China. 

Outra parte desse aumento da produção de petróleo (cerca de 4,8 milhões de barris) foi direcionada para a ampliação da carga fresca processada nas refinarias da Petrobras. O fator de utilização das refinarias de 75% no 1T19 para 79% no 1T20. Com isso, a produção de derivados cresceu 5,5% (de 1,7 milhões bpd no 1T19 para 1,83 milhões bpd no 1T20). 

Dada a queda nas vendas de derivados no mercado nacional (cerca de - 5,5%), a Petrobras direcionou o aumento da sua produção de derivados para o mercado externos. Segundo estimativas do Ineep, a receita de exportação de derivados deve crescer cerca de 100%, entre 1T19 e 1T20, em decorrência da expansão da quantidade exportadas (de 14,9 milhões de barris para 20,3 bilhões de barris) e dos preços estimados de exportação (de 264 reais por barril para 392 reais por barril). 

Esse expressivo desempenho na receita estimada das exportações de derivados está associado, principalmente, ao crescimento nas exportações de óleo bunker (combustível marítimo) e óleo combustível com baixo teor de enxofre com destino ao mercado asiático, principalmente em Cingapura, Hong Kong e China. De acordo com a companhia, esse aumento nas exportações está relacionado com a nova especificação mundial para combustíveis marítimos (IMO 2020), que reduziu o limite de teor de enxofre, criando uma vantagem competitiva para a Petrobras no mercado internacional. 

Segundo dados da Secex sistematizados pelo Ineep, as exportações de óleos combustíveis (diesel, bunker, fuel-oil etc.) cresceram mais de 140% entre 1T19 e o 1T20, saltando de 10,6 milhões de barris para 25,5 milhões de barris. Em valores, as exportações desses produtores aumentaram 168%, o que indica que o preço do barril do óleo combustível também cresceu. 

O bom desempenho no mercado externo (exportações de petróleo e derivados), portanto, poderá ajudar a compensar os efeitos negativos da crise no cenário brasileiro. É importante ressaltar que a produção do pré-sal, assim como de um amplo parque de refino com capacidade de produzir diferentes tipos de derivados permitem à empresa uma estratégia de vendas no exterior mais “flexível” atendendo diferentes tipos de mercados e diferentes tipos de demanda. 

O volume de vendas do diesel e da gasolina caiu em comparação ao primeiro trimestre 2019, respectivamente, 13% e 14%, mas o GLP teve um aumento de 3%, em função do maior consumo doméstico. 

Além do GLP, ocorreu também elevação no volume de vendas de nafta, que registrou uma expansão de 50% em relação ao 1T2019 motivado, por um lado, pelo crescimento da demanda pela Braskem nos dois primeiros meses do ano e, por outro, pelo maior uso do nafta ao invés do gás natural em alguns polos petroquímicos, como o polo Triunfo no Rio Grande do Sul. Segundo o Jornal do Comércio, “no ano passado, a nafta chegou a custar, em média, US$ 500 por tonelada – hoje, o preço está na faixa de US$ 120, com tendência de queda. (...) a rentabilidade das plantas à base nafta deverá se manter enquanto o preço do petróleo permanecer baixo, o que deve durar, pelo menos, até 2021”. 

No entanto, a expansão das vendas desses dois derivados não compensou a enorme queda das vendas da gasolina e diesel, que juntos representaram, no 4T19, cerca de 41% das receitas totais de vendas da Petrobras. 

Apesar dos resultados positivos operacionais e financeiros do balanço no primeiro trimestre de 2020, sobretudo na comparação com mesmo período do ano passado, cabe observar que há uma base de comparação deprimida (1T2019) no que diz respeito à produção de petróleo, em virtude de uma maior concentração de manutenções em plataformas no início de 2019. Quando se observam as comparações da produção e das vendas de petróleo e derivados entre 1T20 e 4T19, há sinais dos primeiros impactos da pandemia na estatal. Esses efeitos devem se aprofundar no segundo trimestre de 2020. 

Cabe ressaltar que parte desse bom resultado no trimestre, associado a expansão das exportações de derivados, está diretamente relacionada à produção das refinarias do Nordeste (RLAM e RNEST, principalmente) que só no primeiro trimestre produziram mais da metade dos óleos combustíveis da Petrobras. Isso evidencia o papel estratégico desses ativos. Atualmente, as refinarias da Bahia e de Pernambuco integram o plano de desinvestimentos da companhia e, se vendidas, podem vir a representar uma significativa perda receitas de vendas da Petrobras frente as novas demandas do mercado internacional, sobretudo no que diz respeito nova regulação IMO 2020. 

Se, por um lado, as exportações de derivados parecem ser uma alternativa oportuna para a Petrobras, no contexto da redução da demanda no mercado interno, a expansão da exportação de petróleo cru é marcada por incertezas estruturais, dado o atual cenário de crise e seus efeitos baixistas sobre o preço internacional do petróleo. Entre janeiro e março de 2020, por exemplo, enquanto preço do barril caiu significativamente, alguns derivados, como o próprio bunker, tiveram uma valorização nesse período. 

Os resultados do balanço da Petrobras devem sinalizar os primeiros efeitos dos impactos da pandemia, que tende a se aprofundar no segundo trimestre de 2020, principalmente se ocorrer uma queda global pelos produtos exportados pela Petrobras. Além disso, deve evidenciar a importância da Petrobras ter uma flexibilidade na gestão dos seus ativos, permitindo obter receitas relevantes atreladas as exportações de petróleo cru, bem como de derivados.

[Via INEEP]

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Segundo levantamento do INEEP, interrupção das atividades pode extinguir mais de 5 mil empregos, além de provocar perdas de quase R$ 400 milhões a cofres públicos do estado da Bahia e de 16 municípios baianos

Com apoio da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e do Sindipetro-Bahia, o deputado federal Joseildo Ramos (PT) ingressou, na noite de domingo (10/4), com pedido de liminar na Justiça Federal da Bahia (3ª Vara Cível da Seção Judiciária da Bahia) para suspender a hibernação dos campos terrestres de petróleo e gás natural no estado, iniciada pela Petrobrás em abril, com a demissão de 350 trabalhadores do campo terrestre de Dom João, em São Francisco do Conde. Segundo levantamento feito pelo Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP), a interrupção das atividades no estado pode extinguir mais de 5 mil empregos.

Além do desemprego, a interrupção das atividades da Petrobrás na Bahia deve gerar grandes perdas aos cofres públicos, sobretudo para municípios baianos que têm a atividade petrolífera como uma de suas principais fontes tributárias. Somente com royalties e participações especiais, as perdas podem chegar a R$ 170 milhões anuais para o governo do estado e a R$ 220 milhões para 16 cidades baianas, aponta o INEEP. Perdas financeiras que certamente vão impactar as ações de saúde pública para o combate à pandemia do novo coronavírus.

“A decisão da Petrobrás de paralisar atividades em plena pandemia de covid-19 mostra a irresponsabilidade da atual gestão da empresa não apenas com seus trabalhadores, mas também com a população brasileira. A empresa que anunciou lucro recorde em 2019 demite pessoas, abandona trabalhadores terceirizados, interrompe atividades lucrativas alegando corte de gastos, mantém a venda de ativos como gasodutos e refinarias, o que vai diminuir sua capacidade de sustentação econômica, e ignora sua função social de apoio às comunidades locais onde está instalada. O foco da atual diretoria da empresa é beneficiar somente os acionistas, sem se importar com os cidadãos e as cidadãs”, afirma Deyvid Bacelar, diretor da FUP.

A ação de tutela antecipada com pedido de liminar impetrada por Ramos solicita cobrança de multa diária de R$ 100 mil à Petrobrás, caso a empresa não cumpra a interrupção da hibernação. O texto menciona que “apenas no caso da Bahia o faturamento da Petrobrás é da ordem de R$ 2.000.000.000,00 (Dois Bilhões de Reais), além do pagamento de impostos (ICMS para o estado e ISS para os municípios produtores), além de Royalties. Caso a intempestiva e despropositada determinação se cumpra, teríamos, em pleno estado de calamidade de saúde, o agravamento do quadro de desemprego no Nordeste; ampliação das consequências nefastas na economia nordestina, além da aceleração do processo de desindustrialização da região, uma verdadeira catástrofe anunciada”.

Embora se refira à Bahia, o pedido de liminar menciona os efeitos da hibernação adotada pela gestão da Petrobrás em outros estados da Região Nordeste e no Espírito Santo. “As medidas previstas não atingem só a Bahia. Atingem também os estados de Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará e o norte do Espírito Santo. Na cadeia produtiva nos diversos estados a paralisação progressiva das atividades operacionais da Petrobrás terá como principal consequência a destruição de cerca de 10.000 postos de trabalho direta e indiretamente”, diz o texto da ação.

“No momento em que o país assiste nas últimas 24 horas a ocorrência de mais de 700 mortes e em números totais, cerca de 10 mil óbitos em razão da pandemia da COVID-19, a Petrobrás, sendo uma empresa pública, com a responsabilidade social que lhe é inerente, em um dos piores momentos vividos pela humanidade deveria contribuir para, talvez, tentar amenizar o sofrimento do povo brasileiro, considerando o elevado lucro auferido em 2019.

A demissão dos profissionais que trabalham nos campos em questão impactará, certamente, na sustentabilidade econômica de estados e municípios, aprofundando a crise macroeconômica e sanitária que enfrentamos. Além, é claro, de impactar diretamente no sustento dos profissionais demitidos e das suas famílias.

Trata-se de uma medida absurda, sem justificativa plausível e tomada no pior momento possível”, completa o pedido de liminar.

[FUP]

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Enquanto chineses aumentam suas importações durante a queda brutal dos preços de petróleo, os EUA veem a sua produção fortemente afetada. As futuras decisões da indústria petróleo ocorrerão, como sempre, na arena das disputas políticas entre as nações

A notícia surpreendeu o mundo. Semanas atrás, os preços do barril de petróleo West Texas Intermediate (WTI), ―óleo do tipo leve, que é negociado na Bolsa de Nova York e é referência para os preços nos EUA― ficaram negativos. Ou seja, o vendedor estava pagando para o comprador levar seu produto. Por trás disso estão tecnicalidades das operações do mercado futuro de petróleo, os brutais efeitos da crise de demanda provocada pela covid-19 e também os acordos nem sempre exitosas de reduzir a produção envolvendo os países da OPEP+ (grupo formado pela OPEP e outros onze países produtores liderados pela Rússia) e contrações do chamado grupo America+2 (EUA, Canadá, Brasil, Colômbia, Noruega e Reino Unido).

Além disso, a crise expôs também problemas do funcionamento do mercado de petróleo, principalmente na relação entre o mundo físico e o mundo financeiro. Na última semana, os detentores do contratos do mercado futuro ―no qual os compradores assumem hoje o compromisso de comprar petróleo no futuro, a um preço pré-estabelecido― com vencimento em maio, optaram por não receber o petróleo que tinham direito em função da escassez de estoque para armazena-lo.

Isso ocorreu porque esses contratos venceram, no dia 21 de abril, em condições muito desfavoráveis para os compradores. Dada a redução da capacidade de estoques, a oferta mundial ―mesmo com os cortes de produção anunciados pela Opep+― continua num patamar muito acima tanto da demanda por petróleo, como da necessidade de processamento nas refinarias. A alternativa que restou para os operadores financeiros foi aceitar os preços negativos, minimizando assim suas perdas com as obrigações contratuais do mês de maio. Portanto, o que ficou negativo na verdade foi o preço de trocar o contrato vendido por comprado, e não os próprios barris físicos do petróleo. Uma das contradições entre o mundo financeiro e o mundo físico é essa: os contratos open interest, em que as transações ainda não foram completadas (antes da data do vencimento) envolvem volumes muitas vezes maiores que o volume físico transacionado diariamente, o que mostra como os preços do petróleo são determinados principalmente por fatores financeiros.

O contango [cenário em que os preços futuros são maiores que o preço atual de um produto] se acentuou. Nessa situação, vale a pena segurar os estoques físicos para vendê-los no futuro, a preços maiores. Esse desastre do mercado futuro abalou os mercados de ações. Empresas de petróleo foram especialmente penalizadas e algumas tiveram perdas enormes em seu valor de mercado. Algumas empresas médias do setor passam a ser alvos de aquisições hostis, o que pode indicar uma nova onda de fusões e aquisições envolvendo, inclusive, grandes empresas estatais, fundos soberanos e fundos abutres.

Esse derretimento dos WTI provocou reações dos grandes produtores globais de petróleo. A Rússia, mesmo que tenha aderido ao acordo OPEP+, procura garantir mercado para o seu petróleo. Fornecedora de dois terços do gás natural utilizado na Europa, seu interesse é principalmente evitar a competição dos carregamentos de gás natural liquefeito (GNL) de outros países, uma vez que a construção de novos gasodutos e terminais podem deslocar o produto russo do mercado europeu, abrindo novas fontes de suprimento para o continente. A leste, os russos buscam o mercado asiático, por meio do oleoduto ESPO de 4,2 mil quilômetros, que liga a Sibéria Oriental aos mercados do Japão, China e Coreia, pelo do porto de Kosmino.

Essa ofensiva russa rumo aos mercados asiáticos preocupa especialmente os sauditas que, por conta disso, continuam apostando na guerra de preços. O Official Selling Prices (OSP) ―a tabela de preços para venda do petróleo da Arábia Saudita com entrega em maio― diminuiu pela metade os preços em relação aos níveis de abril.

Quem se aproveitou desse cenário foram os chineses que aumentaram suas importações de petróleo recompondo suas reservas estratégicas. Apesar das refinarias chinesas, principalmente as estatais, trabalharem com contratos de longo prazo e, por isso, não poderem substituir facilmente os fornecedores, o país se prepara para uma retomada do mercado de derivados no médio prazo e, ao mesmo tempo, auxilia a manutenção dos preços em patamares mais baixos no curtíssimo prazo.

Nos EUA, a depressão prolongada dos preços já provoca uma reação do sistema financeiro que começa a tomar o controle de petrolíferas que ficaram em extrema fragilidade financeira. Desde a queda dos preço de 2015, pequenos e médios produtores americanos do shale gas e tight oil aproveitaram as baixas taxas de juros e aumentaram seu endividamento, acreditando que a queda dos preços daquele ano seria temporária. As financeiras agora procuram manter a garantia dos fluxos de caixa dessas empresa, embora desprezem os investimentos necessários para a manutenção da produção física. A médio prazo, isso pode significar a destruição permanente das chances de retomada de produção, já que essas operações de exploração precisam manter uma pressão mínima em seus reservatórios para que eles continuem produzindo.

É certo que a queda conjuntural da demanda tende a afetar fortemente a produção dos EUA. O Governo federal americano tem poucos instrumentos para intervenção doméstica. O principal deles é a imposição de tarifas alfandegárias às importações. Mas mesmo essa medida levaria ao acirramento da competição internacional pelos outros mercados, o que poderia alimentar ainda mais a queda nos preços. Já no âmbito dos Governos estaduais, especialmente do Texas e de Oklahoma, há a possibilidade de as agências estaduais reguladoras colocarem limites à produção. No entanto, são políticas que violam princípios fundamentais das políticas neoliberais de redução da intervenção estatal e por mais de quarenta anos estes instrumentos não são utilizadas.

Essas movimentações de mercados e de países não deixam dúvida que surgirá um novo mundo do petróleo pós-covid-19. Além de inevitáveis transformações do mercado físico e financeiro do petróleo, alguns estados nacionais serão fundamentais na reconstrução desse novo mundo do petróleo. De um lado, a disputa dos Governos dos EUA, Rússia e Arábia Saudita, que aumentará durante e após a crise, ditará os rumos da oferta de petróleo em vez das forças de mercado e até da tecnoburocracia da Opep. De outro, a dinâmica e recuperação dos mercados vai depender ainda mais do que acontecerá com a China do que dos mercados da Organização para Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE). As futuras decisões da indústria petróleo ocorrerão, como sempre, na arena das disputas políticas entre as nações.


Artigo de José Sérgio Gabrielli, publicado no jornal El Pais

Gabrielli é professor aposentado da UFBA, foi presidente da Petrobrás e atualmente é pesquisador do INEEP


 

Publicado em Petróleo

Em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, os pesquisadores do INEEP, Rodrigo Leão e William Nozaki, alertam: A inexistência de uma articulação mais sólida entre os países produtores de petróleo que integram o chamado América+2 ((Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Brasil, Noruega e Reino Unido) fará com que cada país realize ajustes nos níveis de produção segundo objetivos locais, tanto de suas empresas, como de seus governos.

Leia a íntegra: 

O ano de 2020 promete entrar para a história do mundo do petróleo. A crise do coronavírus e o desequilíbrio entre demanda e oferta colocaram o setor diante de uma situação preocupante.

Do lado da demanda, segundo estimativas da consultoria Rystad Energy, o consumo de petróleo no mundo deve cair cerca de 27,5 milhões de barris por dia neste mês de abril. Do lado da oferta, o acordo feito no âmbito da Opep+ – grupo que reúne a Opep e mais onze grandes produtores liderados pela Rússia e México – levou a uma redução insuficiente da produção de curto prazo, em cerca de 9,7 milhões de barris. Ou seja, se nenhum outro esforço de ajuste da produção for realizado, o mundo será inundado de petróleo.

O tímido corte da Opep+ pressiona os grandes produtores da chamada America+2 (Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Brasil, Noruega e Reino Unido), que extraíram 29,5 milhões de barris de petróleo e gás por dia em 2019, a realizar ajustes na oferta para equilibrar o mercado global.

No entanto, a inexistência de uma articulação e de uma institucionalidade mais sólida entre os países desse grupo, somada às dificuldades internas da política dos Estados Unidos, retardou a formação de uma resolução de corte da produção entre os países da América+2. Isso significa que, até o momento, cada país parece agir segundo os objetivos tanto de suas empresas, como de seus governos.

A abrupta redução dos preços do WTI no dia 20 de abril, por exemplo, ocorreu devido à resistência dos Estados Unidos de reduzir sua produção de petróleo (cerca de 12 milhões de barris) de maneira expressiva no curto prazo, a despeito da queda vertiginosa da sua demanda. De 13 de março a 10 de abril, o consumo de petróleo e derivados no país caiu de 21,5 milhões de barris por dia (bpd) para 13,8 milhões de bpd. Caso a oferta e a demanda continuem a se comportar dessa forma, em breve, a produção norte-americana será maior do que sua própria demanda e continuará pressionando a capacidade de armazenamento de petróleo do país.

Esse cenário indica que o gigantesco desequilíbrio no mercado global de petróleo continuará por um tempo. No caso do Brasil e da Petrobrás, haverá dificuldade para que seja mantido o ritmo de crescimento das exportações de petróleo cru tanto pelo aumento da competição, como pela queda da demanda. Além disso, a diminuição dos preços deve afetar significativamente as margens do setor de exploração e produção.

Por isso, o mercado de derivados, tanto pela capacidade de exportação de alguns produtos específicos como bunker (diesel marítimo), como pela menor pressão nas margens do setor de refino, será fundamental para que a petrolífera brasileira possa atenuar os impactos gigantescos aos quais será submetida nessa crise.

Rodrigo Leão é coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e pesquisador-visitante do NEC da Universidade Federal da Bahia.

William Nozaki é coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

[Via Estadão]

Publicado em Petróleo

Em conferência online com profissionais da imprensa, Roberto Castello Branco, presidente da Petrobrás, deu declarações sobre as atitudes a serem adotadas pela estatal durante a crise sanitária mundial causada pelo novo coronavírus e quais os principais impactos que a empresa pode sofrer. 

A coletiva foi realizada na segunda quinzena de abril e um dos principais destaques foi a afirmação de Castello Branco garantindo a não demissão em massa dos trabalhadores durante a pandemia, contrariando diversas denúncias recebidas por alguns sindicatos. 

Dirigente da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Antônio Moraes contradiz o presidente da estatal. “Apesar de Castello Branco negar, estão sim ocorrendo muitas demissões e reduções nos salários e nos direitos dos trabalhadores durante essa crise”. O petroleiro afirmou também que as medidas anunciadas pela Petrobrás para enfrentamento da pandemia agravam a situação do nosso país. 

Ainda durante a reunião, o presidente da companhia fez questão de reforçar que as medidas de privatização da Petrobrás continuam inalteradas. “Nenhum potencial comprador fez contato com a empresa para dizer que perdeu interesse no processo”, completa Castello Branco.

Para William Nozaki, cientista político que é professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), as medidas de privatização comentadas por Castello Branco vão totalmente na contramão da economia internacional. “O presidente segue verbalizando terraplanismos petrolíferos. Em um cenário de queda na demanda e nos preços, em um ambiente de pandemia e necessidade de proteção nacional, o comandante da estatal continua insistindo na defesa de leilões, privatizações, empresa enxuta, PPI e livre-concorrência”, alerta.

O pesquisador completa que a insistência do chefe da companhia em continuar com a privatização da empresa durante a pandemia só pode significar três projeções. “Uma injustificada expectativa de que a crise será menor do que indicam as projeções; pretensão em se aproveitar da oportunidade para deixar de fazer ajustes macro no plano da empresa a fim de repassar os custos microeconomicamente aos trabalhadores, ou as duas opções juntas”, aponta Nozaki. 

Como exemplo falho, a venda da BR Distribuidora 

No segmento das privatizações, no segundo semestre de 2019 a gestão de Castello Branco optou pela venda da subsidiária da Petrobrás, a BR Distribuidora, o que para Moraes faz muita falta no momento como o que estamos vivendo. “Vemos o mundo inteiro, até mesmo os países mais capitalistas, adotando medidas estatais para frear o impacto dessa crise mundial, enquanto o conjunto Petrobrás vem fazendo justamente o contrário com a venda de ativos contínua”, explica.

O dirigente reforçou ainda que a não atuação de maneira integrada de uma estatal deste porte torna cada vez mais real a possibilidade de que a empresa passe por grandes dificuldades, deixando de lucrar de diversas maneiras. “A não privatização da BR seria fundamental para fornecer combustíveis como gasolina e gás para hospitais e população mais carente, de maneira subsidiada ou até mesmo gratuita, durante a pandemia como a qual estamos vivendo”, conclui Moraes.   

[Via Sindipetro Unificado SP | PorAndreza de Oliveira]

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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

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