Ascensão de novo bloco geopolítico do qual Brasil faz parte não será observada de forma passiva pela Opep+

Historicamente, o controle do preço e da produção é o centro da disputa da indústria de petróleo no mundo. Desde que emergiram como players globais, no pós-Segunda Guerra, os grandes produtores do Oriente Médio e do Norte da África, que formam a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), têm travado uma guerra com a Rússia e as sete irmãs, petrolíferas localizadas nos grandes polos consumidores (Estados Unidos e Europa).

De um lado, os países produtores buscaram, ao longo do tempo, ampliar sua apropriação da renda petrolífera e aumentar o controle da produção pela estatização de empresas instaladas em seus países. De outro, as companhias dos países consumidores lutaram para reduzir a parcela da renda detida pelos produtores e diversificar suas reservas petrolíferas, a fim de diminuir a influência dos produtores na indústria global de petróleo.

Essa disputa se acentuou nas últimas décadas, à medida que novos players se tornaram grandes produtores de petróleo, principalmente no Oceano Atlântico. A partir dos anos 1980 – após as descobertas de petróleo no Mar do Norte, no litoral brasileiro e no Alaska –, Noruega, Inglaterra, Brasil e Estados Unidos viram sua produção crescer. Mais recentemente, a atividade onshore na Colômbia, a descoberta do pré-sal no Brasil, a exploração das areias betuminosas no Canadá e do shale gas nos EUA consolidaram a posição desses países como grandes produtores globais.

Em 1977, unicamente por conta da produção americana, esses países (Brasil, Canadá, Colômbia, Estados Unidos, Inglaterra e Noruega), doravante denominado América+2, tinham participação de 21% da produção global de petróleo. Essa participação chegou a quase 30% em 1985 e, depois, declinou para próximo de 20% em 2008. Todavia, desde então, observou-se aumento da parcela da produção da América+2 no mundo, chegando a 29% em 2018, o que equivale a uma produção de 27,6 milhões de barris de petróleo por dia.

Isso significa que, agora, não apenas as Sete Irmãs passaram disputar o controle da produção da Opep e Rússia, como também dos “novos produtores” da América+2, incluindo seus governos e suas empresas. Nesse sentido, a “guerra” pelo controle da produção e do preço tem se acirrado, culminando na formação de novos “polos geopolíticos do petróleo”, como o da Opep+.

Formado pelos países da Opep e mais onze produtores liderados por Rússia, México e Oman, a Opep+ é uma espécie de resposta do grande eixo produtor global à América+2 e às Sete Irmãs.

Entre 2014 e 2016, após uma complexa negociação, a Opep+ passou a estabelecer cotas de produção visando regular o preço e impedir ascensão ainda maior da América+2. A queda abrupta do preço e os cortes de produção abaixo do esperado, em 2020, também foram uma espécie de concertação da Opep+ que, entre outros efeitos, impõe grandes dificuldades para os produtores da América+2 por conta de seus custos de produção mais altos que os da Rússia e Arábia Saudita, principalmente.

Essa “guerra”, no entanto, está longe de terminar. A Agência Internacional de Energia, no relatório “Oil 2020: Analysis and forecast to 2025”, lançado recentemente, estima que a produção dos países da América+2 deve subir para 33,4 milhões de barris de petróleo por dia, em 2025, o que representaria cerca de 34% da produção global. A Opep – mantendo o patamar da sua produção –, russos e mexicanos devem representar, juntos, em 2025, cerca de 44% da produção global de petróleo (algo próximo a 43 milhões de barris por dia).

Essa projeção mostra que a América+2 e as Sete Irmãs, cuja origem está nos países desse grupo, podem ganhar força e aumentar a tensão pela disputa da produção e do preço nos próximos cinco anos. Mas a Opep+ não ficará passivamente observando a ascensão desse novo bloco geopolítico.

As disputas entre as reservas petrolíferas devem aumentar, assim como a volatilidade dos preços. Novas fronteiras produtoras ficarão cada vez mais reféns dessas tensões, caso não tentem impor seus interesses nessa disputa. Caso contrário, as ações da indústria de petróleo desses países serão adotadas ao sabor do bloco geopolítico mais próximo ao invés dos seus objetivos estratégicos.

O limiar entre a benção e maldição do ouro negro continuará mais tênue que nunca.

Rodrigo Leão é mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e pesquisador do NEC da Universidade Federal da Bahia.

Publicado em Petróleo

Por José Luís Fiori, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP)

Artigo publicado originalmente no jornal Le Monde Diplomatique

As grandes epidemias repetem-se através da história, mas não existe nenhuma explicação sobre sua periodicidade. E no caso da epidemia do Covid-19, ainda não se decifraram a origem, as variações do vírus, nem o desenvolvimento provável da própria pandemia, porque não se sabe se poderá haver recidivas nacionais até o desenvolvimento de medicamentos e vacinas eficientes. Por isso mesmo, nestes momentos de grande medo e imprevisibilidade, é comum que as pessoas utilizem comparações e analogias que parecem úteis num primeiro momento, mas que são parciais e às vezes prejudicam mais do que ajudam, como no caso da referência às duas crises econômicas de 1929 e 2008. Ou também a comparação com algumas pestes que teriam provocado grandes “rupturas históricas”, como foi o caso da Peste de Justiniano, no século VI, ou mais ainda, da Peste Negra, no século XIV, que matou metade da população europeia e parece ter contribuído decisivamente para o fim do sistema feudal.

É importante ter presente que as crises de 1929 e 2008 foram crises econômicas próprias do capitalismo, enquanto que a atual está sendo provocada por um fator que não obedece às “leis” da economia capitalista, mesmo quando possa provocar um estrago econômico e social equivalente ao das duas crises econômico-financeiras que são sempre lembradas quando se fala da atual epidemia do coronavírus. Da mesma forma, com relação à Peste Negra, o historiador inglês Mark Harrison chega a sustentar a tese de que teve um papel decisivo no nascimento dos Estados territoriais europeus. E é verdade que a Peste Negra forçou uma centralização do poder, e uma delimitação territorial que foi necessária para controlar o contágio e impor novas práticas higiênicas às populações que ainda viviam sob o sistema feudal.

Além disso, a tese de Harrison ajuda a entender a resposta “egoísta” dos Estados nacionais, através dos tempos, toda vez que se enfrentaram com epidemias infecciosas que se expandiram por cima de suas fronteiras territoriais. Mas mesmo que se possa estar de acordo com este tese a respeito da Peste Negra, é muito difícil dizer o mesmo de outras grandes epidemias mais recentes, como é o caso da febre amarela, do sarampo, da varíola, da malária, da tuberculose, ou mesmo do HIV ,que já atingiu e matou milhões de pessoas ao redor do mundo. Todas foram extremamente letais, mas não provocaram nenhum tipo de grande ruptura ou inflexão histórica.

Outra analogia muito comum é entre as epidemias e as guerras. É uma comparação muito forte e pode ser útil para mobilizar os atores sociais relevantes, mas existem algumas grandes diferenças entre elas. Ao contrário das guerras, as epidemias não costumam destruir equipamentos físicos e não têm um adversário visível capaz de produzir uma identidade coletiva, emocional, e uma solidariedade nacional que se imponha por cima das próprias classes sociais. Ao contrário, as epidemias contagiosas infectam os indivíduos, classes e países com distintas intensidades, e provocam reações defensivas do tipo “cada um por si”, exatamente ao contrário das guerras. Além disso, as guerras têm vencedores que impõem sua “paz hegemônica” aos derrotados, ao contrário das epidemias, em que não existem vitoriosos nem perdedores absolutos, e não existe nenhuma força material que induza qualquer tipo de acordo ou plano de reconstrução coletiva depois do tufão epidêmico. Hoje, muitos falam de um mundo novo que poderia nascer desta experiência traumática, e até apostam em mudanças humanitárias do capitalismo, mas a possibilidade de que isso ocorra é muito pequena.

De qualquer maneira, a epidemia do COVID-19 terá um impacto econômico imediato, como no caso das guerras. O que distingue o “novo coronavírus” não é sua letalidade, é a velocidade da sua expansão e seu impacto imediato sobre as taxas de desemprego que explodem em poucos dias. O vírus foi identificado na China no final do mês de dezembro de 2019, e em apenas três meses atingiu 200 países e já contagiou mais de um milhão e meio de pessoas. Alguns infectologistas preveem de 6 a 7 meses de duração da epidemia, e alguns economistas falam num impacto recessivo cuja duração pode chegar de 2 a 3 anos. Tudo dependerá da extensão e duração da epidemia nos Estados Unidos e na Europa, e da existência ou não de recidivas nos países que já controlaram o primeiro surto epidêmico. É provável que a queda do PIB norte-americano seja maior do que a da crise de 2008/09, mas ninguém deve enganar-se com relação ao próprio futuro americano. O epicentro da crise de 2008 foi nos EUA, e no entanto, durante a segunda década do século XXI, os EUA aumentaram sua participação no PIB mundial, de 23% para 25%, enquanto seu mercado de capitais crescia 250%, ficando com 56% da capitalização financeira global, com cerca de 90% das transações financeiras globais sendo feitas em dólares. Ou seja, não há nada que impeça que os EUA superem esta nova crise e recuperem rapidamente seu poder econômico, na frente de todos os demais países desenvolvidos, com exceção talvez da China.

De qualquer maneira, deve-se incluir neste ponto a outra grande dimensão desta crise mundial, a crise da indústria do petróleo, provocada pela queda da demanda mundial em consequência da própria epidemia, começando pela desaceleração da economia chinesa, e depois alastrando-se para toda a economia mundial, com um baque imediato do preço do barril de petróleo, que caiu de U$ 70 para U$ 23 b/p/d, flutuando depois em torno de U$ 30 b/p/d. Não se sabe ainda quanto tempo durará a epidemia, nem tampouco a recessão da economia mundial, nem se consegue prever o tempo da recuperação econômica depois da pandemia. Mas mesmo que as novas negociações entre a OPEP+ e o G20 cheguem a um acordo sobre novos níveis e produção e o rateio do corte entre os países produtores, é muito pouco provável que o novo preço seja superior a U$ 35 b/p/d.

Esse novo valor deverá ter um impacto gigantesco sobre a geoeconomia da produção mundial de petróleo. Neste nível de preços, é muito provável que a indústria americana do shale oil tenha que ser protegida pelo governo para não quebrar, e assim mesmo, o mais provável é que os EUA percam sua posição atual como maiores produtores mundiais de petróleo. Poderá haver uma grande perda de mercado por parte dos países produtores de mais altos custos, com a perspectiva imediata de uma nova crise da dívida externa soberana de países como Equador, México, Iraque, Nigéria, etc. Esses preços afetariam também a capacidade fiscal da Rússia e da Arábia Saudita, e atingiriam em cheio países que já estão sofrendo sanções dos Estados Unidos, como é o caso da Venezuela e do Irã, para não falar da própria Rússia. Seja como for, as perspectivas pela frente são muito ruins para o mercado mundial do petróleo e, como consequência, para o mercado financeiro globalizado.

Num primeiro momento, como em todas as grandes catástrofes e guerras, o Estado está sendo obrigado a centralizar as decisões e o planejamento sanitário e econômico do país, e está sendo obrigado a realizar intervenções econômicas “heterodoxas”, através do aumento de seus gastos em saúde, e ainda através da multiplicação pura e simples do dinheiro disponível para pessoas e empresas. Mas nada disto garante que depois da crise os governos desses países mantenham essa mesma política econômica, e esse mesmo “voluntarismo estatal” que se encontra na contramão do neoliberalismo dominante nas últimas décadas, no capitalismo ocidental. É muito provável que, depois da tempestade, as grandes potências revejam sua participação nas produtivas globais, sobretudo no caso de bens estratégicos. E é também muito provável que a China e a Rússia, e mais alguns países europeus, procurem aumentar seu grau de liberdade com relação ao sistema financeiro norte-americano, e aumentem o grau de proteção mercantilista de suas economias. Entretanto, no caso dos países periféricos, o mais provável é que, apesar de tudo, decidam enfrentar suas “dívidas da epidemia” negociando com o FMI e retornando a suas políticas anteriores de austeridade fiscal, com a venda acelerada de seus patrimônios públicos na “bacia das almas”, para poder “pagar as contas” deixadas pelo coronavírus.

Apesar da devastação econômica imediata provocada pela epidemia, o mais provável é que ocorram grandes rupturas geopolíticas dentro do sistema mundial. O que ela fará é acelerar a velocidade das transformações que já estavam em curso e que seguirão se aprofundando. Alguém já disse que é na hora das grandes pestes que se conhece a verdadeira natureza das sociedades, e o mesmo se pode dizer desta pandemia que está apenas desvelando o que já estava na nossa frente e que muitos não conseguiam ver, inclusive a retirada do último véu de hipocrisia da “ordem liberal” e da “hegemonia americana” do século XX.

O epicentro da epidemia já se deslocou para a Europa, e agora para os Estados Unidos, e não se sabe quanto durará, mas de fato a grande incógnita e o grande medo é com o que possa acontecer quando ela se expanda para os países mais pobres da África, do Oriente Médio e da América Latina. Até porque, como sempre acontece nas grandes crises, serão as grandes potências que se recuperarão na frente, começando pela China e pelos Estados Unidos. Por isso, o mais provável é que esta epidemia aumente a desigualdade e a polarização do mundo, que já vinham crescendo de forma acelerada desde a crise financeira de 2008. E deve acentuar a nova virada nacionalista do sistema interestatal que já vinha se manifestando desde o início do século XXI, e assumiu alta velocidade depois da eleição de Donald Trump. A Rússia deverá sofrer um novo baque econômico com a epidemia e com a crise da indústria do petróleo, mas isto não deverá afetar a nova posição que ela readquiriu como grande potência militar dentro do sistema mundial.

No caso da União Europeia, entretanto, a pandemia deve acelerar o seu processo de desintegração que entrou em alta velocidade depois do Brexit. A China, por sua vez. não deve alterar o curso do seu projeto expansivo programado para a metade do século XXI; pelo contrário, deve acelerá-lo aproveitando as oportunidades e brechas abertas pela decomposição europeia, e pelo distanciamento norte-americano de seus antigos aliados europeus. Por fim, depois da pandemia, a competição e os conflitos entre a China e os Estados Unidos devem aumentar em escala exponencial, sobretudo se Donald Trump for reeleito no mês de novembro de 2020, e se seguir em frente com sua decisão de estrangular a economia e a sociedade venezuelanas, através de sanções comerciais e financeiras, e agora através de um bloqueio naval que pode se transformar, em breve, no pé de apoio de uma invasão militar, ou de um bombardeio aéreo feito a partir de seus próprios navios que já estão mobilizados no Caribe. Seria a primeira guerra na América do Sul envolvendo as grandes potências militares do mundo. E seria talvez a primeira grande tragédia da história da América do Sul no século XXI.

[Via INEEP]

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Estratégia geopolítica une árabes, russos e chineses para tentar parar o crescente poder do continente americano no mundo do petróleo

Artigo de Rodrigo Leão, coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep)

[Publicado originalmente  em El País]

A tão aguardada reunião da Opep+, grupo que reúne os membros da Opep e outros onze países produtores liderados por Rússia, México e Oman, que aconteceu na última quinta-feira (09) e teve seus termos ratificados no domingo (12), deve ter grandes impactos para os maiores produtores do continente americano, incluindo o Brasil. A expectativa de que ocorreria um corte substancial da produção de petróleo em consonância com a brusca queda da demanda foi frustrada.

Por trás dessa estratégia, está uma disputa em torno de quem ditará as regras do mercado mundial de petróleo nas próximas décadas.

Segundo estimativas da Rystad Energy, o consumo de petróleo no mundo deve cair cerca de 27,5 milhões de barris por dia neste mês de abril, (uma queda de cerca de 28% da demanda global) e cerca de 19,1 milhões de barris por dia no mês de maio. Por isso, as expectativas eram de que a Opep+ estabelecesse um acordo de corte inicial de produção de, pelo menos, 15 milhões de barris por dia. Mas, o acordo fechado na reunião foi de apenas 10 milhões de barris por dia. O que isso significa?

Significa que, nos próximos dois meses, a produção mundial de petróleo deve ficar num patamar (90 milhões de barris por dia) ainda muito superior ao consumo petróleo (76,5 milhões de barris por dia). Ou seja, a menos que outros grandes produtores façam um esforço semelhante ao da Opep+, o mundo será inundado de petróleo barato.

O corte aquém do esperado foi explicado, em primeiro lugar, pelo fato de alguns países, principalmente o Irã e o México, criarem dificuldades até mesmo para aceitar essa redução mais modesta, de 10 milhões de barris por dia. Segundo matéria do Wall Street Journal, os representantes mexicanos deixaram a reunião antes de o acordo ser concretizado. E, em segundo lugar, pelo desejo da Opep+ de forçar que EUA, Canadá, Brasil, Colômbia e Noruega também participem do corte de produção a fim de equilibrar a oferta e a demanda global de petróleo.

Pode-se entender o resultado da reunião como uma espécie de “resposta geopolítica” da Opep+ à escalada dos produtores do continente americano, principalmente dos EUA e seus aliados.

Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) mostram que, em 2013, a Opep representava 40,2% da produção global de petróleo, enquanto EUA, Canadá, Brasil, Colômbia e Noruega (América+1) participavam com 23,7%. Em 2019, a fatia detida pela Opep caiu para 35,1% e a do grupo América+1 subiu para 28,1% e mais grave: a projeção em 2025 era que a participação da América+1 ficasse num patamar muito próximo ou quase igual ao da Opep (cerca de 32-33%).

Esse foi apenas mais um sinal de que a Opep+ não assistirá passivamente à ascensão dos países desse grupo como protagonistas do mundo do petróleo. A abrupta queda do preço do barril no começo do mês de março; a declaração do Ministro de Petróleo do Irã, Bijan Zabganeh, no começo de abril, de que a reunião da Opec+ somente deveria ocorrer depois que EUA e Canadá sinalizassem o corte de produção que pretendiam fazer; e o adiamento da realização da própria reunião foram outros sinais de que o bloco liderado por sauditas, russos e iranianos não estão dispostos a perder sua condição de coordenar os rumos da produção e do preço global do petróleo.

Nesse cenário, não pode ser esquecido o papel relevante da China que, logo antes da reunião, comprou um volume gigantesco de petróleo para estoque, principalmente da Arábia Saudita. Com isso, o país asiático, além de transferir uma cifra considerável para os sauditas, contribuiu para que a retomada da demanda global seja ainda mais lenta do que o esperado anteriormente.

Ao tudo que indica, a despeito das diferenças do posicionamento geopolítico de Rússia, Irã e Arábia Saudita, momentaneamente forma-se uma aliança entre a Opep+ e a China para que os Estados Unidos e seus vizinhos aliados percam ou – pelo menos não aumentem – sua influência nas decisões-chave do mundo do petróleo. O próprio acordo já impõe novas obrigatoriedades aos produtores americanos.

O Brasil, que já havia anunciado um redução de 200 mil barris por dia da sua produção, pode realizar cortes ainda maiores. Os Estados Unidos garantem que compensarão os cortes de produção que deveriam ser feitos pelo México. E o Canadá assevera que continuará reduzindo sua produção. Aliás, o próprio Ministro de Recursos Naturais do Canadá, Seamus O’Regan, presente na conferência realizada entre os países do G20 na sexta-feira (10), reconheceu que, independente do resultado do acordo, o Canadá seria obrigado a continuar reduzindo sua produção em Newfoundland, Alberta e Saskatchewan.

O acordo para os cortes de produção gera outros tipos de preocupações para os produtores dos Estados Unidos e de seus vizinhos.

Em razão das características da produção de Brasil, Colômbia e Noruega, cortes abruptos podem ter consequências graves no médio prazo, principalmente quando esses países decidirem colocar o “pé no acelerador” novamente. Embora EUA e Canadá tenham maior flexibilidades para ajustar a produção, suas empresas de pequeno e médio porte terão grandes dificuldades para resistir a uma crise de médio prazo na produção.

Por isso, as avaliações sobre o tempo de retomada do consumo interno e a capacidade de atuar de forma verticalizada, a fim de atender seus próprios mercados são chave para que esses países e suas empresas consigam sobreviver a essa tempestade. Tempestade que não deve ser curta. Ainda mais quando seus adversários estão dispostos a prolongá-la o tempo que for necessário.

[Via Ineep]

 

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Na última sexta-feira (3), foi protocolado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) 1482/2020, apelidado de “PL do gás de cozinha”. A proposta de autoria do deputado federal Rogério Correia (PT-MG) visa garantir a oferta de um botijão de 13 quilos de gás liquefeito de petróleo (GLP) por mês para famílias beneficiárias do Bolsa Família e inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), enquanto durar o período de calamidade pública decorrente da pandemia da covid-19. 

Além disso, o PL pretende tabelar o preço do botijão a R$ 40 para famílias com renda mensal de até quatro salários. Este valor foi estabelecido a partir da campanha “Gás a preço justo”, organizada por sindicatos filiados à Federação Única dos Petroleiros (FUP). A iniciativa, que ocorre desde o início do ano, consiste na venda subsidiada do gás de cozinha em territórios mais vulneráveis pelo valor de R$ 40, estipulado a partir de pesquisas do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) que levaram em consideração os custos de toda a cadeia de produção e a média histórica de 2001 a 2015, quando a Petrobras exercia um controle sobre os preços. 

Os partidos de oposição na Câmara Federal estão organizando um projeto único em relação às medidas que devem ser tomadas para diminuir os impactos da pandemia na vida da população brasileira. De acordo com o deputado Rogério Correia, o projeto foi escolhido pela bancada como um dos temas centrais nessa proposição. 

“A Petrobras na gestão Bolsonaro é antinacional, prioriza apenas os interesses dos seus acionistas. Isso fica evidente pela política de definição de preços dos combustíveis que segue atrelada às variações do mercado internacional”, opina Correia. 

De acordo com Iury Paulino, integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), um dos responsáveis pela elaboração do PL, a ideia é que o governo subsidie os custos dessa medida, mas que também se aplique uma política de controle dos lucros. 

“Esses itens que são essenciais à vida não podem ser apenas mercadorias e instrumentos de especulação do capital para ganhar em cima dos trabalhadores. Nós acreditamos que, a longo prazo, não deva ser apenas o Estado responsável por pagar o custo de isenção desses serviços, mas de alguma forma também taxar o grande capital e organizar essa cadeia produtiva”, afirma Paulino. 

Interesses privados

Para o dirigente do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro Unificado-SP), Gustavo Marsaioli, este projeto é fundamental para garantir a segurança econômica das populações mais vulneráveis. 

“O atual preço prejudica o orçamento do povo brasileiro, principalmente os mais pobres, que é justamente o maior acionista da Petrobras. O problema é que, hoje, a geração de lucro aos acionistas privados é o princípio norteador da direção da empresa, antes do abastecimento nacional”, denuncia Marsaioli. 

Opinião semelhante revela o economista do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), Rodrigo Leão. “A Petrobras só olha para a parte minoritária da empresa, que são seus acionistas privados. Não tem uma preocupação com o acionista majoritário, que é o Estado e, em última instância, a população brasileira”, avalia Leão. 

Para o economista, mesmo sob a ótica de favorecimento dos acionistas privados, a intenção da atual gestão de privatizar oito das quinze refinarias da Petrobrás não se justifica nesse momento. “A privatização poderia ser boa no dia que fosse vendida, mas logo depois a gente teria problemas. Imagina se hoje a Petrobrás tivesse um milhão a menos de refino para processar petróleo?”, questiona. 

Revenda freia queda nos preços

No acumulado do ano, o GLP caiu 21% nas refinarias da Petrobras, acompanhando parte do movimento internacional de queda internacional do valor do petróleo – o barril tipo Brent sofreu um reajuste negativo de aproximadamente 50% desde janeiro. Entretanto, essa diminuição não foi sentida pelos consumidores. Desde o início do ano, de acordo com dados fornecidos pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), o preço do botijão de 13 quilos aumentou 0,5% e está sendo vendido entre R$ 50 e R$ 115. 

Para Marsaioli, a venda da Liquigás, até então subsidiária da Petrobrás, pode ser um dos fatores que explica esse movimento. “O prejuízo das privatizações já começa a aparecer, ou seja, a venda da BR Distribuidora e da Liquigás. Entendemos que são necessárias ferramentas para controlar melhor o setor de revenda”, esclarece. 

A Liquigás, vendida em novembro do ano passado, era responsável por 21,4% do mercado, e contava com 23 centros operativos, 19 depósitos e uma rede de aproximadamente 4.800 revendedores autorizados. 

“Isso é um movimento histórico, não é novidade. A história dos preços dos derivados é um pouco isso. Quando o preço sobe na refinaria você tem uma tendência de repasse quase imediato e integral do preço, quando cai, principalmente o setor que é mais capitalizado, que é a revenda, tende a segurar a queda”, complementa Leão.

[Via Brasil de Fato/Texto: Guilherme Weimann]

Publicado em Petróleo

[Reportagem do jornal Brasil de Fato]

Diante das medidas anunciadas pela Petrobras na tentativa de minimizar os efeitos econômicos causados pelo coronavírus, os trabalhadores da estatal recorreram ao Ministério Público para tentar reverter a perda de direitos. Ao anunciar um corte de 200 mil barris na produção diária, a empresa reduziu em 25% a jornada de 20 mil funcionários administrativos, com corte proporcional nos salários. Os turnos de trabalho também foram alterados para mais de 3,2 mil petroleiros e haverá perda de gratificações adicionais de 60% nas refinarias e de 95% nas plataformas.

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) destaca que, enquanto pede resiliência a mais de cinquenta mil trabalhadores, a empresa blinda dos impactos a gerentes, assistentes, consultores, coordenadores, assessores, supervisores e outros cargos de chefia. Para esses cargos, as gratificações serão apenas postergadas e não cortadas. Na denúncia, a FUP e os sindicatos que representam os petroleiros afirmam que a direção da Petrobras está usando o momento de pandemia para intensificar o desmonte da empresa.

As entidades ressaltam que as decisões têm forte impacto nas relações trabalhistas e foram tomadas sem nenhum tipo de negociação. No documento encaminhado à Procuradoria Regional do Trabalho do Rio de Janeiro, a FUP sugere alternativas que podem preservar os trabalhadores. A principal delas é a suspensão de pagamentos de dividendos aos acionistas e reajustes, bônus e programas de remunerações variáveis para os gestores. Segundo os cálculos da Federação, a empresa pouparia até R$ 4,4 bilhões, quase o dobro do que anunciou que reduzirá de despesas com pessoal (clique aqui para ler a proposta na íntegra).

Sai soberania, entra o lucro dos acionistas

As práticas recentes da Petrobras, no entanto, indicam que a proteção aos trabalhadores não é prioridade. Economistas ouvidos pelo Brasil de Fato avaliam que no governo atual o foco da Petrobras deixou de ser a soberania brasileira na produção de derivados do petróleo e energia e passou a ser o lucro dos acionistas. 

As medidas de enfrentamento poderiam ter caráter mais sustentável, de acordo com os especialistas, se a estatal não estivesse passando por um processo de desmonte desde 2016. De lá para cá, o foco na extração e exportação de petróleo cru aumentou. Com isso, a empresa fica dependente dos preços praticados no mercado internacional, que estão cada vez mais baixos.

O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), Eduardo Costa, avalia que, frente ao que pode vir a ser a pior crise econômica desde 1929, a Petrobras está completamente enfraquecida.

Ao se tornar exportadora de óleo cru e não investir em distribuição e refino, a estatal brasileira certamente será umas das que mais terá dificuldades em se reerguer. As concorrentes estrangeiras, segundo Costa, chegarão ao momento de recuperação com larga vantagem. O Brasil perde em criação de tecnologia, valorização da mão de obra qualificada e preservação do mercado interno.

“Há algumas estimativas no mercado internacional de que a demanda por petróleo no mundo vai cair em torno de 8% este ano, o que significa uma enorme desaceleração econômica. No mercado internacional o preço está no chão e a demanda vai cair. Quando o preço estava alto, a empresa estava lucrando muito em cima do consumidor.  Agora, se ela seguir e não levar em conta os custos de produção e montar um preço com base nessa queda, terá um prejuízo enorme”, argumenta.

Na opinião do pesquisador, a importância do investimento em refino está cada vez mais óbvia frente à crise. “Os gestores vão perceber que, se não fosse o refino, a Petrobras ia estar na lona. Se ela dependesse de vender petróleo para refinarias privadas ela ia ter vender ao  preço internacional. A fonte de caixa, se tivesse vendido 50% do refino,  ia cair ainda mais. Isso talvez gere alguma mudança. Acho que nesse ano dificilmente eles vão tentar vender refinaria. Não vou dizer que é impossível, porque o grau de insanidade de alguns dos nossos gestores e setores dominantes é enorme.”

Cloviomar Cararine, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e  assessor da FUP, afirma que mesmo sem o coronavírus, a redução do preço do barril no mercado internacional já coloca em cheque a estratégia atual da Petrobras.

Segundo ele, desvalorizar o refino e se concentrar em exportar para poucos países fragiliza a estatal. No ano passado 70% da produção foram para a China e 10% para os Estados Unidos, países com economias profundamente atingidas pela pandemia. Somado a essa fragilidade está o processo demissão de trabalhadores, que por meio de um plano de demissão voluntária, atinge principalmente os funcionários mais experientes. 

“No caso do preço que caiu, é uma característica do setor essa instabilidade de preços e nós temos uma pandemia que vai passar. Tomar decisões de longo prazo e estruturais num momento como esse é muito ruim. O ideal agora é tomar medidas paliativas, como reduzir risco de contaminação de pessoal, mas sabendo que vai passar e já estar preparada para possibilidade de queda no preço do barril, que é algo comum.”

Compromisso com trabalhadores e com o país

Cararine ressalta que as medidas tomadas até agora não reduzem o risco de contaminação para trabalhadores que estão em refinarias e prejudicam trabalhadores terceirizados. O Dieese divulgou uma nota técnica comparando a ação das empresas petroleiras pelo mundo e as decisões da Petrobras frente a pandemia. A conclusão é de que as práticas adotadas pela estatal estão muito atrás (leia aqui).

O economista lembra que uma empresa estatal tem um papel a ser cumprido em momentos de crise. Segundo ele, os estoques da Petrobras estão cheios há alguns meses e o Brasil já vem consumindo menos combustível desde o início do ano. Frente a essa realidade, os esforços poderiam ser direcionados à demanda por gás de cozinha, por exemplo, que aumentou em tempos de isolamento social. Os preços estão subindo em diversas regiões. A Petrobras poderia garantir a produção e ao controle dos valores, mas ao contrário disso, o Brasil tem importado o produto. Cloviomar traz outras possibilidades que poderiam ficar a cargo da estatal em meio a crise.

“Por um lado ela poderia criar mecanismo para ajudar a população: por exemplo reduzir preços dos derivados. Poderia também ajudar equipamentos de saúde e segurança, como ambulâncias e viaturas e oferecer o combustível até de graça. É uma forma de ajudar o país. A Petrobras tem um centro de pesquisa que é um dos melhores do mundo. Esses pesquisadores poderiam ajudar na produção de tecnologia para enfrentar a pandemia."

As medidas que prejudicam os trabalhadores carecem de base jurídica, segundo análise da FUP. A realocação do pessoal de turno sem indenização fere o Artigo 9º, da Lei 5.811, de 1972. Além disso, a redução de jornada e remuneração do pessoal administrativo fere o Artigo 468, da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT). Os sindicatos filiados à Federação se movimentam para tomar medidas cabíveis e barrar as ações.

[Via Brasil de Fato]

 

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Os pesquisadores do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo (Ineep) Rodrigo Leão e William Nozaki foram ouvidos pelo jornal Valor Econômico sobre a decisão da Petrobras de reduzir sua produção em 200 mil barris/dia. Os 200 mil barris/dia cortados representam mais do que tudo aquilo que a companhia produz em águas rasas e em terra. Isso dá a dimensão de que a queda abrupta do preço começa a afetar não só os campos menos rentáveis, mas também aqueles em águas profundas e ultrapofundas, o “core business” da empresa, onde estão tanto as áreas maduras do pós-sal quanto os ativos do pré-sal. A decisão levou em conta  a sobreoferta no mercado em momento de forte contração da demanda global da commodity.

O economista Rodrigo Leão pontuou que as empresas com atuação em refino e petroquímica devem se sair melhor. Por não ficarem totalmente dependentes do preço do óleo cru, terão um colchão para esses momentos de crise. A Petrobras vem fazendo exatamente o caminho oposto.

Para Rodrigo Leão, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo (Ineep), vinculado à FUP, é preciso que a Petrobras comece a se preparar para o “novo mundo do petróleo”. “As petroleiras que estiverem em petroquímica e refino provavelmente se sairão melhor dessa crise, porque esses negócios servem como colchão em momentos de volatilidade do petróleo. O projeto da Petrobras não pode continuar sendo vender ativos, como as refinarias, se ninguém sabe neste momento para onde o mercado caminhado. A Petrobras se vende para o mercado, hoje, como exportadora de petróleo. É natural que as ações da companhia sofram mais do que a das demais petroleiras”, disse.

Já o cientista político William Nozaki, a estatal falha por não se preparar para o longo e médio prazos.

William Nozaki, também do Ineep, disse que as medidas da maior estatal brasileira podem ter efeitos sobre a macroeconomia. Para ele, o pacote de resiliência da Petrobras peca por se concentrar em medidas de curto prazo. “Ela tem usado as oportunidades de crise para fazer ajustes microeconômicos que vão deixar impactos macroeconômicos indesejáveis.”.

Leia a íntegra da reportagem

[Via Ineep]

Publicado em Petróleo

 

Adriano Pires, conhecido analista que defende os interesses das empresas internacionais de petróleo no Brasil, termina seu artigo no blog Poder 360 com uma frase de Lulu Santos: 

“Tudo passa, tudo sempre passará”.

Ele parece esquecer as duas frases anteriores desta na bela canção “Como uma onda”: 

Nada do que foi será De novo do jeito que já foi um dia”

Adriano Pires, da mesma forma que vem fazendo desde a década de noventa do século passado, quer continuar defendendo na política petroleira e para o gás tudo do jeito que já foi um dia.

Propõe o aprofundamento da atual politica de desmonte do aparato produtiva do Estado no setor de petróleo e gás, com a manutenção do calendário das rodadas de entrega das áreas, extinção do modelo de partilha, redução da política de conteúdo local, redução de royalties dos campos maduros, aceleração das licenças ambientais, manutenção da venda das refinarias, aumentar impostos sobre os preços dos derivados para arrecadação fiscal, com a redução dos preços nas refinarias.

Mas “nada do que foi feito será de novo do” velho jeito. Manter o calendário das rodadas neste momento vai exigir uma profunda redução de bônus de entrada e aceitação de baixas participações no lucro-óleo, entregando as riquezas futuras para as empresas internacionais a preços extremamente baixos. O mercado internacional está contraindo seus investimentos exploratórios e só “oportunidades excelentes” – para as empresas internacionais – atrairão investimentos neste momento. 

Ao contrário, deveríamos retardar as rodadas, para esperar momentos melhores momentos e eventualmente obter maiores recursos de curto prazo, para compensar a entrega de riquezas de longo prazo.

A proposta de extinção do modelo de partilha só se justifica se a intenção for realmente reduzir a parcela do governo na renda petroleira e aumentar a parcela dos ganhos para as empresas internacionais. Elas estão acostumadas a trabalhar, tanto com contratos de partilha de produção, como com concessões – e até com contratos de serviço -, movendo-se pelas oportunidades de acesso a potenciais reservatórios, em função da economicidade esperada em cada momento.

A partilha de produção não transfere a propriedade do petróleo para o produtor, enquanto na concessão esta transferência é efetivada. A questão essencial é o grau de controle estatal sobre a produção nos dois tipos de contrato: a partilha permite maior controle estatal. Adriano Pires quer menos.

No que se refere à política de conteúdo local, não há dúvidas sobre as dificuldades da engenharia pesada nacional e sua capacidade de fornecer os equipamentos e serviços necessários para o gigantesco desafio de expansão da produção do pré sal brasileiro.

A situação econômica das empresas, preços declinantes e crises de financiamento, além dos efeitos da operação Lava Jato sobre a viabilidade física da existência destas empresas, requerem uma certa adaptação desta política, mas não seu desaparecimento, ainda que gradativo, como sugerido pelo autor.

As vendas dos campos maduros, em terra e no mar, serão ainda mais estimuladas com a redução dos royalties cobrados. Acredito que esta proposta de redução, “inclusive de forma retroativa”, tem mais como objetivo mais facilitar as vendas dos campos maduros da Bacia de Campos, do que do nordeste brasileiro.

Em termos de fluxo de caixa, aqueles com resultados positivos não deveriam sequer estar sendo colocados à venda neste momento. Por outro lado, no Nordeste, os ganhos financeiros deste desinvestimento serão muito pequenos em relação ao enorme impacto negativo sobre as economias regionais.

A aceleração das licenças ambientais, apesar de reivindicado pelas empresas, tem provocado o aumento dos riscos ambientais com consequências imprevisíveis. A melhoria dos seus procedimentos deveria ser a meta e não sua pura e simples aceleração.

Na contramão do mundo, o autor parece estar de pires na mão, querendo manter o programa de venda das refinarias, em uma conjuntura de profunda incerteza sobre a dinâmica futura do mercado, com as empresas com problemas de caixa e com o mercado brasileiro se contraindo.

As vendas serão na bacia das almas e o capital investido será destruído, com sua transferência da propriedade destas refinarias para os compradores a preços muito baixos.

Quanto aos preços dos derivados, a ideia de um colchão regulador dos preços já foi tentada no Brasil, com a CIDE, e talvez a melhor política fosse a manutenção da integração vertical da empresa estatal Petrobras, uma política amortecida de ajuste dos preços internos aos preços internacionais e o acompanhamento cotidiano do comportamento dos preços nas bombas para ajustar a política de preços da companhia.

Por fim, a dissonância de Adriano Pires se apresenta também na sua análise macroeconômica. Para ele, as disputas geopolíticas da Arábia Saudita-Rússia e EUA são meras “desavenças” e a crise mundial vem somente da crise do coronavírus na China.

Esquece os sinais, anteriores à atual pandemia, da tendência de contração da atividade econômica, expansão de uma bolha especulativa devido ao acúmulo dos ganhos financeiros, concentrador dos enormes fluxos econômicos do mundo. Quanto ao Brasil, vale a pena continuar com a canção de Lulu Santos:

Não adianta fugir Nem mentir Pra si mesmo agora Há tanta vida lá fora

A crise brasileira não vem principalmente da crise externa. Ela se agrava pela falta de política econômica adequada do atual governo, numa fé cega na ideologia do mercado, que abandonou as possibilidades de intervenção produtiva das politicas públicas, que desmontou os instrumentos de política social e que, no momento da pandemia, atrasa a implantação dos instrumentos emergenciais aprovados pelo Congresso, com o apoio dos governadores, e a resistência do governo de Bolsonaro. 

Querer fazer mais do mesmo, quando o mundo está em frangalhos, só fará agravar a crise. Isto vale para o mundo, para o Brasil e especialmente para o setor de petróleo e gás.

Jose Sergio Gabrielli de Azevedo é ex-presidente da Petrobras e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep).

Foto: Agência Petrobras

Artigo originalmente publicado em https://revistaforum.com.br/noticias/irresponsavel-politica-para-a-covid-19-e-para-o-petroleo-por-sergio-gabrielli/

Publicado em Petróleo

Por André Ramalho, do Valor

Concentrando-se na produção de petróleo para exportação, a Petrobras terá cada vez menos margem de manobra para lidar com cenários de preços baixos no mercado internacional, como o atual. A avaliação é do economista Rodrigo Leão, coordenador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), vinculado à Federação Única dos Petroleiros (FUP).

Leão destaca que o tombo dos preços, vivenciado neste momento, afetaria a empresa de qualquer jeito, mas que o plano estratégico da estatal está aumentando a sua exposição às flutuações do mercado internacional.
“Quanto mais a Petrobras se direciona para uma atividade [exploração e produção] e um mercado [a China], o resultado da companhia fica mais refém do mercado internacional”, afirma o especialista.

Ele argumenta que, apesar de atingir todas as petroleiras, a queda dos preços é sentida de forma diferente entre cada uma delas, a depender de suas respectivas estratégias de atuação. Companhias mais integradas, com presença forte em refino e petroquímica, costumam sentir um pouco menos os efeitos dos choques de preços, porque as cotações dos derivados costumam, historicamente, cair em ritmos menores que o do petróleo bruto.

Com a queda dos preços do petróleo e a queda do consumo global, Leão acredita que uma das saídas da Petrobras, no curto prazo, pode ser aumentar o fator de utilização de suas refinarias, de olho no mercado interno. A Petrobras vem operando seu parque de refino com capacidade ociosa. Em janeiro, o fator de utilização era de 80%.

A estatal alega que que elevar a carga processada significa “queimar dinheiro”, porque significa aumentar a produção de derivados de baixo valor agregado, alguns deles vendidos com preços inferiores ao do petróleo cru.

“Mas nesse momento muitos desses derivados de baixo valor agregado podem ser mais rentáveis do que o óleo cru. No curto prazo, a estratégia da empresa deve girar em torno do aumento da produção interna. Ou a companhia será obrigada a "segurar" a redução dos preços dos derivados internamente para contrabalançar a forte queda do Brent. De uma forma ou de outra, a estratégia para lidar com a crise passará pelo mercado interno. O presidente Roberto Castello Branco fala em buscar mercados alternativos para o óleo cru, além da China, mas isso é muito difícil hoje. Os Estados Unidos atualmente importam muito menos do que no passado. A Europa também começa a vivenciar o surto do coronavírus, bem como os demais países asiáticos”, afirma.

Publicado em Petróleo

Via INEEP

A Petrobras divulga nesta quarta (19/02) o resultado anual de 2019. Segundo estimativas do Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), a expectativa é de que a empresa registre um expressivo aumento nos lucros, que devem alcançar cerca de R$ 38 bilhões. Esse montante é cerca de 42% superior em relação ao ano de 2018. 

Todavia, esse resultado somente será alcançado se os gastos realizados (bônus de assinatura e despesas com a aquisição da cessão onerosa) pela Petrobras na aquisição de novos blocos exploratórios de cerca de R$ 35 bilhões não impactarem as despesas da companhia (tabela 1). 

Na avaliação do Ineep, por conta de as despesas com bônus de assinatura serem lançadas como ativos e depreciadas ao longo do tempo, a partir da comprovação da viabilidade técnica e comercial da produção de óleo e gás nas áreas leiloadas, estas não afetarão os gastos da companhia. 

Cabe observar que esse expressivo resultado nos lucros e na geração de caixa (EBITDA estimando em R$ 122 bilhões – Tabela 1) da Petrobras em 2019 foi, em boa medida, influenciado por receitas não recorrentes de venda de ativos que totalizaram R$ 44,5 bilhões. Entre os ativos vendidos, destacaram-se a TAG, a BR Distribuidora e os campos maduros na Bacia de Campos. 

Tabela 1 – Estimativas do Balanço da Petrobras

 

Além das receitas não recorrentes, o provável resultado positivo da Petrobras se deve ao aumento de 6,4% na produção de petróleo e gás em 2019, na comparação com 2018, registrando uma média 2,77 milhões de barris equivalentes de petróleo. A produção no pré-sal, que se expandiu em 28%, foi a área que mais impulsionou esse resultado, já representando cerca de 59% da produção de petróleo no Brasil. 

Esse aumento da produção ocorreu em virtude de novas unidades de produção e, principalmente, devido ao ramp-up dos 8 novos sistemas que entraram em produção em 2018 e 2019. Cabe observar que as decisões de investimentos para que essas unidades produtivas entrassem em operação ocorreram há pelo menos cinco ou seis anos atrás. 

A plataforma P-68, por exemplo, que iniciou sua produção em novembro de 2019, foi contratada pelo consórcio Petrobras e Galp, em 2012, junto à subsidiária da Sembcorp Marine, Jurong do Brasil Prestação de Serviços Ltda (JDB). Na época, o estaleiro fechou um contrato de US$ 674 milhões “para a construção de um total de oito módulos e integração do módulo funciona para dois Navios Plataformas de Produção, Armazenamento e Transferência (FPSO)”, entre estes a P-68. Ou seja, a entrada da P-68 para produzir os campos de Berbigão e Sururu, em 2019, somente foi possível em razão de uma decisão de investimento tomada em 2012. 

Os resultados positivos da produção de petróleo e gás são, portanto, o resultado de decisões de investimento iniciados em períodos anteriores que requerem um elevado montante de recursos que, após a produção, irá gerar retornos e geração de caixa por longos períodos. 

Com o avanço da produção de petróleo e a estagnação no nível de utilização das refinarias, as estimativas do Ineep mostram que a Petrobras tem aumentado de forma expressiva suas receitas oriundas da exportação de petróleo cru. Entre 2018 e 2019, as exportações cresceram cerca de 25,2% (de 428 para 536 mil barris/dia), sendo que a receita com a exportação de petróleo já representa mais de 15% da receita total da Petrobras. 

Por outro lado, a utilização da capacidade das refinarias da Petrobras em 2019 ficou em 77%, praticamente igual ao nível do ano anterior, mesmo com o aumento da demanda de derivados no mercado consumidor brasileiro. Segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o consumo de combustíveis cresceu 2,9%, entre 2018 e 2019, saltando de 2,35 milhões de barris/dia para 2,41 milhões de barris/dia. Todavia, a queda de 2,7% do volume total de vendas dos derivados fez com que a Petrobras perdesse ainda mais participação no abastecimento para o mercado interno. Tal participação caiu de 76,2% em 2018 para 72,0% em 2019, uma expressiva queda de quatro pontos percentuais em apenas um ano. 

Considerando a segunda metade dos anos 2010, a perda de participação foi ainda maior (cerca de dez pontos percentuais), saindo de 82,9% em 2015 para os mesmos 72,0% de 2019. Nesse período, a produção de derivados se reduziu de 2,03 milhões de barris/dia para 1,74 milhões de barris/dia (uma queda de 14,2%). 

Isso evidencia que a redução do market share da Petrobras no mercado de derivados, fruto de sua política de preços alinhada com o preço paridade internacional (PPI) e da estratégia de subutilização das refinarias, possibilita a entrada de novos competidores (importadores) sem que essa concorrência tenha significado uma diminuição dos preços dos derivados. Isso é explicado pelo fato de todo o mercado estar “alinhado” ao preço de importação. 

Pelo lado do endividamento, os resultados do balanço devem reforçar a política em curso de acelerada desalavancagem (trajetória de redução da relação dívida líquida/LTM EBITDA). Com as receitas oriundas das vendas de ativos, a Petrobras deve adiantar o pagamento de dívidas junto aos seus credores, reduzindo o seu nível de endividamento, mas num montante menor do que nos trimestres passados em virtude dos gastos com bônus de assinatura de novas áreas de exploração. 

Os resultados operacionais e financeiros do balanço anual 2019 da Petrobras devem evidenciar a estratégia de desinvestimentos, que gera caixa no curto prazo, mas pode afetar as condições produtivas da empresa no médio e longo prazo. Todavia, cabe ressaltar que, para além da venda de ativos, os resultados positivos estão ancorados na descoberta do pré-sal e nos investimentos passados que visaram acelerar o desenvolvimento da produção dessa fronteira. 

Por isso, não há dúvidas de que as perspectivas na produção de petróleo devem garantir um futuro promissor à empresa, principalmente por conta do pré-sal, desde que permaneçam os investimentos na exploração e produção (E&P). Todavia, a concentração das atividades da estatal somente neste segmento traz riscos de longo prazo, principalmente numa eventual turbulência no mercado internacional que reduza bruscamente o preço do barril do petróleo. A atual desverticalização da empresa – que tende a se aprofundar em 2020 – pode comprometer a capacidade futura de geração de receitas tendo em vista a eliminação de várias atividades que poderiam “atenuar” eventuais dificuldades no setor de E&P.

Publicado em Sistema Petrobrás

O Brasil poderá retroceder séculos no âmbito econômico caso a política adotada pela direção da Petrobrás e pelo governo federal se consolide. Essa é a opinião do economista do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), Rodrigo Leão. A principal mudança, que se iniciou em 2015 ainda sob o governo Temer, foi priorizar a exportação de óleo cru ao invés de investir na produção de derivados e na cadeia produtiva nacional de petróleo.

“O problema mais grave dessa política é que você está atrelando seu ciclo de rentabilidade ao ciclo de preço internacional do barril de petróleo. Quando o petróleo bater US$ 100 o barril, você se beneficiará desse processo, mas quando ele cair a US$ 30 você está lascado. A gente vai voltar novamente ao que a gente viveu nos ciclos primários exportadores do Brasil, com a cana e o café”, opina Leão.

Em 2019, a produção brasileira de petróleo bateu recorde, ultrapassando pela primeira vez a marca de 1 bilhão de barris. De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), a produção aumentou 7,78% em relação ao ano anterior, com uma média de 2,79 milhões de barris ao dia. No mês de dezembro, o país também bateu o recorde de exportação da commodity, alcançando o valor de 8,72 toneladas.

Ainda de acordo com o economista, esse direcionamento da empresa é de alto risco, devido a incerteza de novas descobertas de reservas nos próximos anos. “Assim como aconteceu com o café, outros países vão começar a produzir petróleo, e ninguém garante que em 15 anos não possa ter uma outra descoberta que passe a competir com o pré-sal. É uma aposta de alto risco. Você tá jogando todas suas fichas num único segmento”, explica.

Em consequência dessa política que prioriza a exportação do produto primário, as refinarias da Petrobrás estão operando com cerca de 70% da capacidade. Isso porque está mais rentável para a empresa e seus acionistas exportarem petróleo cru. Com isso, entretanto, o Brasil é obrigado a importar os produtos derivados do petróleo (gasolina, diesel, gás natural, gás de cozinha) para suprir a demanda interna. E quem paga a conta é a população brasileira.

Em 2019, de acordo com a ANP, o preço da gasolina subiu 4,85% e foi vendida, em média, pelo valor de R$ 4,55 por litro nas bombas de combustíveis. Já o óleo diesel sofreu reajuste anual de 8,69% e chegou ao preço médio de R $3,75 nos postos. Já o gás de cozinha sofreu reajuste aproximado de 10%, atingindo uma média de R$ 73 por cada botijão. E esses preços podem aumentar ainda mais, caso se concretize o plano do governo Bolsonaro de privatizar 9 das 15 refinarias da Petrobrás nos próximos anos.

Greve dos petroleiros

Para tentar barrar estes retrocessos, os petroleiros deflagraram uma greve nacional no dia 1º de fevereiro. A principal reivindicação é contra o fechamento da Fábrica de Fertilizantes do Paraná (Fafen-PR), que causará a demissão de aproximadamente mil trabalhadores. De acordo com a Federação Única dos Petroleiros (FUP), a medida fere o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), que prevê a consulta aos sindicatos responsáveis antes de demissões em massa.

De 2013 a 2018, de acordo com a FUP, a redução de trabalhadores da Petrobrás foi a maior entre todas as petroleiras do mundo, com aproximadamente 270 mil demissões. No quadro de trabalhadores próprios, foram 23 mil demissões, por meio de Planos de Demissão Voluntária, sem reposição de vagas. Em relação aos terceirizados, foram 248 mil trabalhadores demitidos, o que representa uma redução de 68% o número de postos de trabalho.

[Sindipetro Unificado SP/Guilherme Weimann]

Publicado em Petróleo
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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

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