Nesta quinta-feira (13), dia em que Ato Institucional nº 5 (AI-5) completa 50 anos, será realizado na faculdade de Direito do Largo São Francisco, às 19h, um ato em defesa da democracia, do Estado de Direito, da garantia das liberdades, dos direitos humanos individuais e sociais que vêm sendo desrespeitados no Brasil nos últimos anos.

O autoritarismo, a censura, as torturas, mortes e arbítrios registrados durante a ditadura militar, que foram institucionalizados com o AI-5, podem voltar, afirma a professora de História Contemporânea da USP, Maria Aparecida de Aquino.

Segundo ela, o período de terror que marcou o regime  militar pode voltar se o presidente eleito, o capitão reformado, Jair Bolsonaro (PSL), cumprir o que disse em  discursos e entrevistas, quando deu declarações como ‘matar uns 30 mil’ ou que os caminhos para a oposição em seu governo seriam ‘a cadeia ou o exílio’, entre outros ataques à democracia e aos direitos civis e humanos.

“Os ricos continuarão ricos porque desde o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, apoiado por boa parte da população, Michel Temer fez coisas que nem os militares tiveram coragem de fazer, que foi mexer nas conquistas dos trabalhadores, na CLT”, afirma a professora.

O presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, complementa alertando que, historicamente, as organizações de trabalhadores são as primeiras vítimas dos regimes autoritários e de decretos como o AI-5, que institucionalizou a ditadura militar no Brasil.

"Sabemos disso porque foram muitos os trabalhadores e as trabalhadoras que sofreram com a repressão, inclusive, pagando com a própria vida por terem lutado contra a ditadura".

Por isso, segundo Vagner, uma das lutas fundamentais no próximo período é garantir o direito à livre organização sindical como forma de assegurar o exercício da cidadania e a defesa da democracia plena.

Futuro sombrio

A professora Maria de Aquino afirma que não tem dúvidas de que o futuro próximo será sombrio. De acordo com ela, é o que indicam as ameaças de Bolsonaro aos ativistas e opositores e a atuação do Judiciário, que deu sustentação ao golpe. Os golpistas usurparam o cargo de uma presidenta legitimamente eleita, tiraram os direitos da classe trabalhadora, destruíram o estado de direito, enquanto as garantias das liberdades individuais eram atacadas pelos juízes e procuradores que comandam a Operação Lava Jato e condenaram o ex-presidente Lula  sem crime, sem provas.

“Estamos observando assustados toda a destruição das leis pela Lava Jato, que levou coercitivamente um ex-presidente [Lula] a depor sem provas, que divulgou escutas não autorizadas de uma presidenta ainda no poder, rompendo com o estado de direito”, lembra Aquino.

A historiadora explica, ainda, que uma das coisas terríveis que o AI-5 fez e que pode se repetir com o novo governo foi a proibição da concessão do habeas corpus (HC) por “crimes” de motivação política, “um dos pilares da democracia em todo o mundo”.

“O HC é o direito ao corpo, à liberdade, é o direito que a pessoa tem de ser vista pelos familiares e advogados. Esse impedimento é de uma gravidade imensurável”, diz a professora, que complementa: “infelizmente, podemos repetir esse triste momento da história porque estamos assistindo a um longo processo de golpe, que se iniciou com o impeachment de Dilma, e agora se consolida com a ascensão pelo voto de um governo autoritário”.

“É outro tipo de golpe que se traveste de legalidade e que será difícil de atacar porque foi eleito. Mas nunca será tarde demais para a população perceber porque, repito, os pobres e a classe média são os quem sofrerão as consequências”.

Ato em defesa da democracia

Durante o ato, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, intelectuais, artistas e lideranças políticas, sindicais e populares lançarão um manifesto em defesa da democracia.

No documento, eles afirmam que o decreto ditatorial “marcou o estabelecimento de um regime de terror de Estado” e reforçam “a importância da manutenção dos princípios consagrados na Constituição de 1988”.

Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, que assina o manifesto, o atual momento político e social, em que o discurso autoritário e de intolerância tem ganhado espaço no mundo, inclusive com vitórias eleitorais, como no Brasil, "nada mais oportuno do que a sociedade civil, os movimentos sociais, populares, partidos e personalidades se juntem em uma grande frente para defender a democracia e o irrestrito direito de organização, manifestação e defesa dos direitos coletivos e individuais".

Ministros de todos os governos democráticos, de Sarney a Dilma, estão entre os subscritores iniciais do texto, ao lado de líderes religiosos, cientistas, juristas, advogados, poetas, ativistas do movimento negro, escritores, economistas, feministas, cineastas, sindicalistas, músicos, artistas plásticos, atores, arquitetos, jornalistas, sociólogos, ambientalistas, médicos, engenheiros, antropólogos, militantes LGBT, filósofos, encenadores, historiadores, psicanalistas, militantes de direitos humanos, empresários, estudantes, professores, fotógrafos, diplomatas, cidadãos e cidadãs brasileiras.

Entre as personalidades que assinam o manifesto estão o ex-ministro da Justiça Celso Amorim; a historiadora Maria Victoria Benevides; o fotógrafo Sebastião Salgado; os cantores Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e Gilberto Gil; os atores Wagner Moura e Sônia Braga; o ex-jogador e comentarista Walter Casagrande Jr.; o cientista Miguel Nicolelis; entre outros intelectuais, artistas e lideranças.

O manifesto é assinado, até o momento, por mais de 500 pessoas. 

Para assinar o documento em Defesa da Democracia clique aqui.

[Via CUT]

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"Estou muito apreensiva, muito preocupada porque eu e minha mãe estamos recebendo ameaças, perseguições via Facebook e WhatsApp", afirma Janaína Teles, filha de Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, que foi brutalmente torturada durante a ditadura civil-militar (1964-1985). As ameaças começaram após a ativista aparecer em um vídeo denunciando a barbárie daquele período, defendida pelo candidato da extrema-direita no segundo turno das eleições 2018, Jair Bolsonaro (PSL).

Para atacar Amelinha, os apoiadores de Bolsonaro estão utilizando, via redes sociais, uma das principais estratégias de campanha nesta eleição: a mentira. Acusam-na de ter cometido crimes que não existiram, sequer nos próprios registros da época. O candidato e a parte mais radical de seus apoiadores idolatram abertamente torturadores como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como tal pela Justiça. em seu voto no impeachment de Dilma Rousseff, o então deputado Bolsonaro homenageou o torturador.

"Muitas fake news. É muito preocupante para a vida política e social, para a democracia esse tipo de mensagem, sendo que apenas reiteramos as denúncias que fazemos desde 1989", continua a filha de Amelinha. Janaína, aos cinco anos de idade, junto com o irmão, Edson Teles, com quatro, assistiram aos pais serem torturados por oficiais do Exército no Doi-Codi, em São Paulo.

A Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos criou um abaixo-assinado em defesa da memória e da integridade daqueles que já sofreram nos tempos sombrios da ditadura. A FUP é uma das entidades que assina o documento. "Nós, familiares de mortos e desaparecidos políticos, defensores de direitos humanos, organizações e entidades abaixo-assinadas, nos solidarizamos com Amelinha Teles, ex-presa política e histórica defensora de direitos humanos e sua filha Janaína Teles, historiadora e defensora de direitos humanos. Ambas vêm sendo alvo de uma onda de ataques nas redes sociais", afirmam.

O Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim) também se manifestou em repúdio aos ataques. "Queremos, mais uma vez, como já fizemos por ocasião do 24º Seminário Internacional de Ciências Criminais, agradecer à Amelinha Teles por sua incansável luta por memória, verdade e justiça em relação aos crimes contra a humanidade cometidos por agentes do Estado", afirmam em nota.

"O IBCCRIM solidariza-se desde já, junto com familiares de mortos e desaparecidos políticos, defensores de direitos humanos e organizações parceiras, com esta ex-presa política e histórica defensora de direitos humanos e com sua filha Janaína Teles, historiadora e defensora de direitos humanos. Ambas vêm sendo alvo de uma onda de ataques nas redes sociais. As agressões começaram após Amelinha gravar um depoimento ao lado de Janaína, sobre as torturas às quais foram submetidas durante a ditadura militar. Amelinha relata o momento em que seus dois filhos foram levados ao centro de torturas, o DOI-Codi, em São Paulo, quando ambos não a reconheceram por conta das condições que estava após sessões de tortura", diz o texto.

O instituto cita uma das mentiras que circulam nas redes contra a ativista histórica. "Entre tantos conteúdos, circula em mídias sociais uma foto de Amelinha com texto contendo acusações mentirosas sobre violências que ela teria cometido quando militava contra a ditadura. No processo que respondeu por conta de sua atuação política no período, contudo, não há nenhuma referência aos supostos crimes. De outra parte, em 2008, em uma decisão inédita, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi declarado torturador pela primeira vez. A decisão foi referendada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ)", conclui.

Já os familiares clamam para que a sociedade não apoie a tortura e a barbárie. "Ditadura nunca mais! Tortura nunca mais!", gritam neste momento em que "há um presidenciável que defende a tortura e tem como ídolo um torturador da ditadura declarado, é fundamental reforçar nosso repúdio à ditadura militar (1964-1985), que colocou o país sob um regime autoritário, perseguiu, estuprou, sequestrou, torturou, assassinou e ocultou os corpos de opositores políticos".

Assista ao vídeo da Comissão em solidariedade a Amelinha e sua família: 

[Via Rede Brasil Atual]

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O candidato à presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) ameaçou neste domingo (21) com prisão ou exílio as pessoas que pensam diferente do seu discurso autoritário, racista, machista e homofóbico. Em vídeo transmitido a apoiadores de sua candidatura que se concentravam na Avenida Paulista, em São Paulo, o capitão reformado prometeu uma "faxina" e disse que a "petralhada", termo pejorativo com que identifica todos os que discordam de seus posicionamentos, "não terão mais vez".

Ele também atacou movimentos sociais e ONGs e disse que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mantido como preso político na sede da Polícia Federal, em Curitiba, vai "apodrecer na cadeia". Bolsonaro também ameaçou com prisão o seu adversário no segundo turno das eleições 2018, Fernando Haddad (PT).

"A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão pra fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria", ameaçou Bolsonaro, que mais uma vez combinou um suposto discurso patriótico com exaltação violenta contra adversários políticos. "Essa pátria é nossa. Não é dessa gangue que tem uma bandeira vermelha". 

O candidato, acusado de se beneficiar de um esquema criminoso e milionário de caixa 2 bancado com dinheiro ilegal por uma rede de empresários, também bradou contra a corrupção, ameaçando Lula, Haddad, e também o senador Lindbergh Farias (PT-RJ). "Você vai apodrecer na cadeia. E brevemente você terá Lindbergh Farias (senador do PT) para jogar dominó no xadrez. Aguarde, o Haddad vai chegar aí também. Mas não será para visitá-lo, não, será para ficar alguns anos ao teu lado." 

"Petralhada, vai tudo vocês para a ponta da praia. Vocês não terão mais vez em nossa pátria", afirmou o candidato em mais uma declaração autoritária e anti-democrática. "Não terão mais ONGs para saciar a fome de mortadela de vocês", continuou Bolsonaro, se mostrando, mais uma vez, preconceituoso e despreparado para unir o Brasil. 

Ele também prometeu tratar como atos terroristas ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). "Vocês, petralhada, verão uma Polícia Civil e Militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês", ameaçou.

"Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Vocês não levarão mais o terror ao campo ou às cidades." 

Confira trechos do discurso:

 

[Via CUT, com informações da Rede Brasil Atual]

Publicado em Política

Sob ameaça de armas de fogo, a sede do Sindipetro/NF teve sua grade assaltada, e porta arrombada, antes mesmo que fosse exibido o mandado judicial que determinava busca e apreensão do "Nascente" e do "Brasil de Fato".

A alegação é de que havia "possível prática de propaganda eleitoral"

A VERDADE

O "Nascente" apreendido (edição número 1062) informa à categoria os cenários da indústria do petróleo, conforme os planos de governo dos candidatos a presidente. Seu editorial, sim, se posiciona por Fernando Haddad, dado o interesse dos trabalhadores, do mesmo modo que, por exemplo, diversos editoriais do jornal "O Estado de São Paulo" se posicionaram por Bolsonaro, dado o interesse dos patrões.

Já o "Brasil de Fato" (edição 286) jornal independente existente há mais de uma década, e distribuído pelo Sindipetro/NF há mais de 5 anos, compara os candidatos e seus planos de governo.

O leitor pode acessar o conteúdo de ambas as edições apreendidas e fazer seu próprio juízo de valor:

Seguiremos na LUTA PELA DEMOCRACIA!

       O Sindipetro-NF tomará todas as medidas jurídicas para garantir o direito à liberdade de expressão que foi gravemente atingido em ação arbitrária de agentes do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), na sede da entidade, em Macaé (RJ), no último sábado, 20. Foram apreendidos milhares de exemplares de dois periódicos de antiga circulação — um há mais de 15 anos, o jornal Brasil de Fato, e outro há mais de 20 anos, o boletim sindical Nascente.

                Em respeito aos seus filiados, à comunidade do Norte Fluminense e a todos e todas que acompanham, de modo estarrecido, mais um ato que reflete a escalada autoritária pela qual passa o País, o Sindipetro-NF esclarece o que segue:

                1 - O jornal Brasil de Fato, distribuído pelo Sindipetro-NF e por centenas de outros sindicatos e movimentos sociais em diversos estados brasileiros, foi fundado em 2003, durante o Forum Social Mundial, em Porto Alegre. Com circulação nacional semanal, se caracteriza por ser um jornal político, com uma visão popular e de esquerda dos acontecimentos, como é garantido em qualquer democracia minimamente estruturada no mundo.

                2 - O boletim sindical Nascente, publicado pelo Sindipetro-NF desde a sua fundação, em 1996, é uma publicação semanal, que expressa a opinião da entidade sobre os acontecimentos que atingem os trabalhadores e as trabalhadoras, informa sobre as atividades do sindicato e dos movimentos sociais, e ao longo destes mais de 20 anos sempre registrou, de modo contundente, todas as ameaças sobre direitos trabalhistas, riscos à democracia e à soberania nacional.

                3 - O Sindipetro-NF não recebe nenhum recurso público. A Contribuição Sindical (o chamado Imposto sindical) foi abolida pela Reforma Trabalhista. Mesmo antes , estes valores tinham a devolução franqueada aos filiados da entidade, que sempre foi contrária à obrigatoriedade e é mantida pela contribuição mensal aprovada em assembleia da categoria petroleira.

                4 - As publicações apreendidas trazem informações, comparações entre programas de governo e opiniões, no mais básico exercício da liberdade de expressão, o que em nada se confunde com as chamadas "fake news" ou com material publicitário.

                5 - Tanto o jornal Brasil de Fato quanto o boletim Nascente são publicações autônomas, sem qualquer vínculo estrutural ou financeiro com a campanha do candidato à Presidência da República, Fernando Haddad, em razão do que o Sindipetro-NF repila ilações publicadas por blogs de que teria incorrido em prática de "Caixa 2" na campanha do presidenciável.

                6 - A apreensão das publicações equivale às mais sombrias práticas de empastelamento (impedimento de circulação de jornais), recorrentes nos períodos autoritários, contra às quais devem se insurgir todos os defensores da democracia e do livre debate de ideias e visões de mundo.

                7 - O Sindipetro-NF ingressa na tarde de hoje com medida judicial para cobrar a devolução dos exemplares indevidamente apreendidos.

                8 - A entidade reafirma que a ação dos agentes do TRE foi truculenta e teve início sem apresentação de mandado judicial, com um dos agentes pulando a grade da sede do sindicato, em horário e dia sem expediente. O acesso foi amplamente franqueado a qualquer dependência do prédio após a chegada de um diretor sindical, acionado pelo vigia de plantão.

                9 - O Sindipetro-NF solicita aos blogs, sites e demais veículos que publicaram a primeira versão dos acontecimentos, tendo por base apenas o lado dos agentes do TRE, que também publiquem estes esclarecimentos da entidade.

                10 - O sindicato continuará a atuar em defesa dos interesses dos trabalhadores e das trabalhadoras, não vai ceder diante deste quadro autoritário que tomou conta do País, se manterá firme na defesa da democracia e jamais admitirá a censura.

Macaé, 22 de Outubro de 2018.

Diretoria Colegiada do Sindipetro-NF

 Atualizado às 12:13 

Publicado em Movimentos Sociais

Mais de 45 guerrilheiras que resistiram à ditadura militar brasileira pela Ação Libertadora Nacional (ALN) testemunham que as mulheres não foram linha auxiliar na luta armada contra a repressão. Essas memórias fazem parte do livro "Mulheres na luta armada: protagonismo feminino na ALN", da historiadora Maria Cláudia Badan Ribeiro.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a pesquisadora apresenta reflexões sobre o legado emancipatório dessas rebeldes e desmonta equívocos e preconceitos difundidos pelos agentes da ditadura militar. As militantes romperam com sociedade e família para integrarem a frente de batalha.

"Historicamente, no Brasil, a figura do desobediente político é sempre do homem, a mulher fica reservada ao lar ou tem uma pequena esfera de ação dentro das tarefas do cotidiano. Quando a mulher tinha alguma punição, diziam que ela tinha feito aquilo levada por alguém, nunca como uma decisão pessoal e independente, como se essa mulher não tivesse política na cabeça. Era uma questão que a repressão e a imprensa da época tentavam difundir, de que a mulher não tinha autonomia de militância, não era um ser político e tinha que ficar em casa".  

Leia a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato – Como se deu o protagonismo feminino na ALN na resistência aos anos de chumbo?

Maria Cláudia – Eu quis explorar o chamado setor de apoio na organização, porque sempre se associa setor de apoio e mulheres vinculando ao papel maternal de cuidar e eu quis mostrar que isso não era realidade.

Isso também aconteceu em outras organizações, mas na ALN existia maior liberdade de ação em que a mulher era protagonista da história e da luta. Eu quis mostrar que a figura da guerrilheira de armas na mão é importante, mas ela também pode ser muito abstrata se desconsidera o funcionamento real de uma organização.

Era definido, por exemplo, setor de apoio e logística da ALN, um processo que o então professor Joel Rufino participava com sete mulheres em volta. Então falavam que ele era amante dessas mulheres, mas, na verdade, elas estavam militando pela ALN, mas sempre aparecia como ele encabeçando o processo.

Na realidade, era uma rede de apoio que mantinha a organização: elas ajudavam a tirar gente pela fronteira, davam dinheiro, emprestavam o carro para fazer ação e empregavam gente que tinha sido despedida dos empregos, já que não se podia ter atestado ideológico. Enfim, são vários os gestos que mostram o compromisso político dessas mulheres.

Então houve uma continuidade, não uma ruptura. O próprio Carlos Marighella era um dirigente cercado de mulheres e estimulava muito a militância delas. O Marighella tinha uma visão diferente: ele tentava convencer os companheiros de deixarem suas mulheres participarem das reuniões, trazerem os problemas sociais da dona de casa.

Inclusive, por exemplo, os acordos entre o Marighella e Cuba para treinamento guerrilheiro, os cubanos não queriam aceitar as mulheres. O Marighella mandou a Zilda Xavier Pereira para Cuba para dizer aos cubanos que se as mulheres não participassem do treinamento rural, onde principalmente elas eram proibidas com a justificativa que causavam problemas na tropa, ele não ia aceitar o acordo e ninguém mais ia treinar. O Marighella defendeu até o fim a participação das mulheres na luta da ALN.

Uma série de mulheres foi para Cuba fazer treinamento, outras fizeram aqui; minimamente, todas tiveram algum contato com arma de fogo para se defender. O homem nem sempre fez parte de ação armada ou era bom atirador.

Elas se identificavam com a horizontalidade, porque a organização não era como um partido com hierarquia muito rígida, a ALN dava espaço para apoios e em qualquer lugar que você pudesse militar, no setor estudantil, junto aos operários.

No livro, eu considero o papel das associações de bairro e movimentos de mulheres que foram anteriores à luta armada. A ALN saiu do Partido Comunista e levou muitas pessoas de lá. Uma das pioneiras da ALN, na realidade, era a chamada Liga Feminina da Guanabara, que era um grupo de mulheres que militava no partido, algumas que ajudaram pessoalmente o Marighella, mas não aderiram a ALN.

Então não foi um rompimento total, eu tentei mostrar essa luta como um processo e quis trabalhar com a militância feminina porque eu percebi que ela era muito rede. A luta armada não foi só violência e eu quis mostrar isso.

A luta armada foi uma experiência de bastante importância para a história do Brasil e há uma certa dificuldade em lidar com isso até hoje, principalmente quando as mulheres fazem parte.

Como você analisa a invisibilidade dada às mulheres guerrilheiras, mesmo quando integravam a frente de batalha?

Historicamente, no Brasil, a figura do desobediente político é sempre do homem, a mulher fica reservada ao lar ou tem uma pequena esfera de ação dentro das tarefas do cotidiano.

Existe uma pesquisa muito interessante que fala como as mulheres chilenas começaram a militar politicamente de maneira mais incisiva a partir de grupos de mulheres donas de casa. Eu acho que no Brasil também aconteceu um pouco disso.

Foi um caminho de crescimento pelo contexto em que se vivia: a mulher saiu para o mercado de trabalho, foi para a universidade, ocorreu o êxodo rural, então ela viu os campos de vida mais abertos, inclusive a militância. Elas começaram a se colocar publicamente, com certas dificuldades, claro, porque o mundo político sempre foi muito masculino.

Agora, essa invisibilidade, de qualquer maneira, eu mostro no livro que também ajudou, porque o fato de a mulher nunca ser suspeita de entrar em um assalto, por exemplo, também a protegia. Essa invisibilidade foi causada pela ditadura, porque as mulheres que participaram da luta armada, geralmente, eram inocentadas na Justiça Militar, porque diziam que elas tinham sido levadas a fazer ações por conta de seus namorados, maridos, irmãos… o que não era verdade.

De alguma maneira, os advogados dos presos políticos também usaram esse artifício para liberar as mulheres, para dizer que elas não eram culpadas pelas ações, que não tinham panfletado ou feito pichação.

A ditadura criou a ideia da "loura dos assaltos", que também foi uma maneira de desvalorizar a luta e de transformar a mulher em uma figura desviante do papel que era aceito na sociedade.

Em todas as ditaduras, como na Espanha e na maior parte dos países latino-americanos, o arcabouço prático e jurídico era desmerecer a mulher e sua capacidade política, resumindo como a mãe de família, cuidadora dos filhos e da casa, nunca envolvida em nada que fosse público. É um pensamento conservador que existe até hoje.

O modo de agir fechado de todo o regime militar era baseado em desmobilizar politicamente o homem e, principalmente, a mulher, porque ela tem um espírito "pacífico" na visão da repressão. Então a ditadura limitou o espaço da mulher ao ar.

Nos documentos da Justiça Militar e na própria imprensa, aparecia muito "mulher de fulano foi envolvida sentimentalmente e fez processos para a organização porque estava apaixonada". Isso foi uma maneira da repressão não chamar a atenção para a militância feminina como independente e autônoma.

Isso não foi uma postura da mulher, nenhuma delas queria ser colocada como coadjuvante ou dependente do marido, muito pelo contrário. Muitas delas entraram na luta armada tendo pais da repressão ou um parentesco com ministros da ditadura, então elas foram muito valentes ao romper com a família e a sociedade para estar na militância.

No livro, eu também abordo como foi a volta dessas mulheres à sociedade depois do exílio ou da prisão. Muitas eram adolescentes. Tem histórias de mulheres que foram presas com os filhos ou que tiveram o parto na prisão.

A ALN não teve um fim formalizado, ela acabou por perseguição e repressão. Essas mulheres se dedicaram muito, deram tudo o que tinham e a luta custou a vida de muitas. Era a luta pela sobrevivência, pela justiça. Então o protagonismo também é delas, porque foram vanguarda em tudo o que pensaram e fizeram.

Eram feministas?

As mulheres estavam em um processo de liberação, o feminismo como a gente conhece hoje ainda não tinha chegado no Brasil. Existiam muitas mulheres que estavam na universidade e tinham contato com leituras como Simone de Beauvoir e outras referências europeias ou estadunidenses que chegavam aqui.

Mas, naquele contexto, as mulheres estavam mais preocupadas em derrubar a ditadura do que falar mais de si. Eu não posso dizer que o movimento de mulheres contra a ditadura, ainda que na luta armada, fosse feminista. O movimento feminista enquanto teoria e prática é posterior e quem se engajou naquela luta se propunha a destruir a ditadura sem saber se no dia seguinte estaria viva.

Mas já se questionava todas as amarras para a vida pessoal, sexual e sentimental da mulher. E isso não só no Brasil, essa liberação se deu no mundo todo, principalmente a partir dos anos 1970.

A Comissão Nacional da Verdade estimulou essas mulheres a falarem mais sobre o assunto?

Eu acredito que com as comissões da verdade, o Brasil passou a olhar um pouco mais para essa questão, mas eu não sei até que ponto isso envolveu a sociedade. Não foi feito um debate amplo, ela mobilizou alguns núcleos, movimentou a sociedade, mas tem muita gente que nem sabe o que é. Existem pessoas que pedem a volta da ditadura sem nem saber o que foi. Ela trouxe muita documentação, muitos testemunhos e permitiu a mulher de falar o que viveu sem ser sob tortura. Isso é muito positivo. O primeiro fundo de documento espontâneo de histórias foi a Comissão da Anistia.

Isso deu voz a mulheres, homens e crianças que sofreram, porque o Estado se colocou no papel de repressor e culpado. Isso se tornou legítimo e as mulheres se apropriaram dessa luta valorizando suas trajetórias. A Comissão Nacional da Verdade liberou a sala, mas, infelizmente, sua duração foi rápida.

Depois, veio as Clínicas do Testemunho para falar dos casos de estupro, que ainda são considerados privados no Brasil. Essa parte não avançou muito na Comissão, na história do país e nem em trabalhos feitos sobre mulheres. Além disso, cada militante que viveu essa experiência trágica precisa de tempo para poder falar. É uma questão delicada, mas eu acho que deveria se investigar mais sobre isso.

As mulheres também começaram a escrever suas memórias, mas não conseguem espaço na imprensa e nas editoras. Existe uma política de apagamento dessas experiências, em que se elege algumas e se despreza outras.

[Via Brasil de Fato | Edição: Juca Guimarães]

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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

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