Por José Luiz Fiori, pesquisador do Instituto e Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP), professor titular de Economia Política Internacional, Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro; coordenador do GP do CNPq “Poder Global e Geopolítica do capitalismo” e do Laboratório “Ética e poder global”, do Nubea/UFRJ. Publicou recentemente o livro “Sobre a Guerra” (Editora Vozes, Petrópolis, 2018)

Geopolítica e fé

Três anos depois do início das sanções econômicas americanas contra a Venezuela, o presidente Donald Trump anunciou, numa entrevista coletiva no estado de New Jersey – concedida no dia 14 de agosto de 2017 – que os EUA poderiam fazer uma ação militar na Venezuela. E um ano depois, no dia 8 de agosto de 2018, o jornal NYT noticiou que, de fato, vários funcionários americanos já haviam se reunido com militares venezuelanos, para promover a derrubada do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Por outro lado, e dentro deste mesmo tabuleiro, no mesmo mês de agosto de 2018, o presidente venezuelano visitou Pequim e recebeu o apoio político e financeiro do presidente Xi Jinping, assinando 28 acordos de cooperação com a China, nas áreas de energia e mineração. 

Tais acordos alargam e aprofundam uma relação econômica de mais de uma década, que já superou a casa dos 50 bilhões de dólares emprestados ou investidos em 780 projetos econômicos financiados pelos chineses ou montados em parceria com os venezuelanos. Paralelamente, o presidente Maduro visitou e foi recebido na cidade de Moscou como um “aliado estratégico” da Rússia, com quem assinou acordos de investimento, no valor de R$ 6 bilhões de dólares, destinados aos setores de petróleo e mineração de ouro. 

Não há dúvida, no entanto, de que esse “conflito anunciado” mudou de qualidade, no dia 10 de dezembro do ano passado, quando aterrissaram no aeroporto internacional de Caracas dois bombardeiros estratégicos Tu-160, um avião de transporte militar An124 e uma aeronave Il-62, da Força Aeroespacial da Rússia, para participar de exercícios militares conjuntos com as forças venezuelanas. Nesse momento, com toda certeza, a Venezuela mudou de posição no cenário internacional e passou a ocupar outro lugar, muito mais importante, na competição entre as três grandes potências que lutam pelo poder global neste início do século XXI.

Uma disputa aberta e sem fim previsível que se acelerou na segunda década do século, depois da posse de Vladimir Putin e Xi Jinping, em 2012 e 2013, respectivamente, e ainda mais, depois da posse de Donald Trump, em janeiro de 2017. Como todos os analistas já entenderam, Donald Trump abandonou a velha política norte-americana de apoio e promoção ativa de regras e instituições de governança multilateral e adotou, como bússola de sua política externa, o modelo westfaliano de solução dos conflitos mundiais, através da competição e do uso agressivo do poder econômico como arma de guerra, e o uso permanente da ameaça militar para o caso em que as sanções econômicas não funcionem. Trata-se de uma luta sem quartel e sem religião, orientada pelo mesmo nacionalismo econômico da Rússia e da China, e de todos os demais países que têm ainda algum peso no sistema mundial. 

O petróleo não é a causa de todos os conflitos do sistema internacional. Não há dúvida, entretanto, de que a grande centralização de poder que está em curso no sistema interestatal também está transformando a permanente luta pela “segurança energética” dos Estados nacionais numa guerra entre as grandes potências pelo controle das novas reservas energéticas que estão sendo descobertas nos últimos anos. Uma guerra que se desenvolve palmo a palmo, e em qualquer canto do mundo, seja no território tropical da África Negra ou nas terras geladas do Círculo Polar Ártico; seja na turbulentas águas da Foz do Amazonas ou na inóspita Península de Kamchatka. 

Não há dúvida de que as descobertas mais importantes e promissoras deste início de século foram as areias betuminosas do Canadá, o pré-sal brasileiro e o cinturão do rio Orinoco, na Venezuela. Este transformou a Venezuela na maior reserva de petróleo do mundo, calculada hoje em 300 bilhões de barris, enquanto as areias monazíticas transformaram o Canadá na terceira maior reserva, estimada em 170 bilhões de barris, logo depois da Arábia Saudita, mas muito à frente do Brasil. Este assim mesmo saltou para o décimo-quinto lugar do ranking mundial, com reservas estimadas de 13 milhões de barris¹, 2 sem levar em conta, evidentemente, as estimativas de alguns centros de pesquisa que falam que haveria até 176 bilhões de barris de reserva em todo o “polígono do présal” brasileiro. 

Se somarmos a isto o salto da produção americana de petróleo e de gás, nos últimos três ou quatro anos, produzido pelo “fracking boom”, entenderemos por que o continente americano está se transformando no novo grande foco da geopolítica energética mundial. E entenderemos também duas outras coisas: a decisão norteamericana de voltar a ser o maior produtor de petróleo do mundo, e pivot ou controlador – em última instância – dos níveis de produção e preço do mercado mundial de petróleo. 

O problema é que agora, do outro lado desta disputa, já não está apenas a OPEP, liderada pela Arábia Saudita, que segue sendo um “Estado-cliente” dos Estados Unidos. Está a Rússia, que é o segundo maior produtor mundial de petróleo, e que está cada vez mais próxima e articulada com a OPEP, e com a própria Arábia Saudita. E está ainda a China, cada vez mais interessada em diversificar e garantir seu fornecimento de energia, impedindo ao mesmo tempo que os Estados Unidos imponham sua supremacia e seu controle sobre o mercado do petróleo, somando-o ao controle que já exercem sobre a moeda de referência internacional. 

Tudo indica que essa disputa deverá se acirrar ainda mais no ano de 2019, quando os EUA estarão tentando aumentar a produção mundial de óleo, enquanto a Rússia e a OPEP estarão forçando na direção contrária. Mesmo ano de 2019 no qual, aliás, a OPEP será presidida pela Venezuela, e a Rússia talvez entre na organização com o apoio da Arábia Saudita. Dessa perspectiva, talvez se possa compreender melhor a “ordem unida” que os norte-americanos decidiram impor em seu hemisfério, e o enfrentamento geopolítico e geoeconômico que se anuncia na Venezuela. 

Dentro desse quadro de enorme complexidade econômica e geopolítica, soa absolutamente delirante, quase infantil, imaginar que está sendo travada na Venezuela uma batalha em defesa da fé cristã, e dos valores e arquétipos da civilização ocidental. Esse tipo de visão milenarista costuma reaparecer de tempos em tempos, em certas idades, e em alguns momentos da história, mas não costumam chamar atenção nem causar maiores danos coletivos enquanto se mantenham como uma fantasia individual. 

No entanto, tudo muda de feição quando esses arroubos milenaristas se transformam numa Cruzada que pode dar lugar a uma guerra insana – neste caso, envolvendo pelo menos três países da América do Sul que não têm a menor experiência, nem a menor competência técnica, logística e psicológica para fazer uma guerra com suas próprias pernas. Em momentos como este, de grande exuberância teológica e entusiasmo salvacionista, é bom lembrar aos cruzados uma velha lição da história, a respeito dessas “guerras santas”, entre pequenos “peões militares” terceirizados pelas grandes potências: depois que começam, elas não costumam ter fim.


 Fonte:

¹ Dados publicados em 1º de janeiro de 2017, no The World Factbook, da Central Intelligence Aghency/ CIA, www.cia.gov/library

[Via INEEP]

Publicado em Petróleo

No encerramento da VII Plenária Nacional da Federação Única dos Petroleiros, no último dia 05, o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível Zé Eduardo Dutra (INEEP) lançou seu primeiro livro: "Energia e Petrolíferas Globais: Transformações e Crise".

A obra, organizada pelos diretores técnicos do INEEP, Rodrigo Leão e William Nozaki, tem prefácio do ex-ministro Celso Amorim e reúne artigos produzidos pelos pesquisadores do Instituto. O objetivo é disseminar conteúdo qualificado para áreas de interesse em torno da geopolítica do petróleo.

Editado pela Flacso - Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, o livro foi financiado pela FUP e conta com textos dos pesquisadores Caroline Vilain, Cloviomar Pereira, Eduardo Costa Pinto, José Luís Fiori, José Sérgio Gabrielli, Paola Azevedo, Rafael Rodrigues, Rodrigo Leão e William Nozaki.

Durante o lançamento na Plenafup, foram distribuídas 280 cópias para os trabalhadores, assessores e convidados que participaram da plenária.

O livro pode ser adquirido gratuitamente, através de download na página do Ineep: https://www.ineep.org.br/livro1

[FUP]

Publicado em Petróleo

O quarto dia da VII Plenária Nacional da FUP começou com um importante debate realizado pela manhã, que será fundamental para as deliberações que os trabalhadores irão aprovar no final do dia. O painel “Geopolítica do petróleo e erros de estratégias da Petrobrás” reafirmou a importância estratégica do Pré-Sal e do Sistema Petrobrás para o desenvolvimento nacional e a retomada do crescimento econômico, com geração de empregos e renda no país.

O debate teve a participação do diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), o economista Rodrigo Leão, do pesquisador do Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), e de José Maria Rangel, coordenador licenciado da FUP.

Assista a íntegra do painel, que foi transmitido ao vivo pelo facebook da FUP: 

A VII Plenafup reúne até domingo (05), no Rio de Janeiro, cerca de 250 petroleiros de todo o país, que irão deliberar sobre planos de luta contra a privatização do Sistema Petrobrás e das demais empresas públicas, em defesa do Pré-Sal para o povo brasileiro e da reconquista da democracia e da soberania nacional, além da defesa de direitos e conquistas da categoria e da classe trabalhadora.

[FUP]

Publicado em VII PlenaFUP

Em artigo publicado na edição brasileira do jornal francês Le Monde Diplomatique, o diretor da FUP, Alexandre Finamori, explica porque a Petrobras passou a importar, demasiadamente, derivados de Petróleo, demonstrando que a empresa tem plena capacidade de suprir o abastecimento nacional

Leia a íntegra:

Nos recentes eventos ocorridos no Brasil – greve dos caminhoneiros e greve do petroleiros – a política de preços aplicada pela Petrobras e a produção nacional de óleo diesel tomaram proporções de debate público. Mesmo bombardeada com informações falsas sobre a necessidade de importação, por falta de capacidade em nosso parque de refino, a população brasileira se posicionou contra as privatizações e a favor de uma intervenção do Estado na política de preço da Petrobras.

Conforme pesquisa do Datafolha divulgada em 11 de junho, 68% dos brasileiros são contra a política de reajustes de combustíveis utilizada atualmente pela Petrobras, a qual atrela os valores domésticos à variação internacional do barril de petróleo e à variação interna do preço do dólar. Antes, em 5 de maio, esse mesmo instituto de pesquisa apontou que 74% da população é contra a venda da Petrobras para empresas estrangeiras.

O que fica como um questionamento para a sociedade é se a Petrobras conseguiria alçar a posição de empresa com capacidade de suprir todo o abastecimento nacional de óleo diesel, não necessitando – dessa forma – recorrer à importação.

É desse ponto em específico que queremos tratar nessa reflexão. Por que a Petrobras passou a importar, demasiadamente, derivados de Petróleo? Ela não teria capacidade interna de suprir o abastecimento nacional?

Os dados que trazemos abaixo demonstram a produção total nas refinarias brasileiras, o consumo de diesel total e a importação total de óleo diesel dos últimos dez anos.

A partir dos dados acima, percebe-se que para atendimento anual das nossas necessidades de consumo interno de diesel, temos que recorrer à importação de cerca de 10% do nosso consumo total. Ocorre que o central desse debate é que nós não estamos operando no refino com capacidade total!

É importante ressaltar que esses valores de produção não são os valores máximos possíveis, as refinarias estão trabalhando muito abaixo da capacidade máxima, isso se reflete em um fator de utilização, que avalia qual percentagem da capacidade máxima ela está trabalhando. Podemos, ainda com dados da ANP, recuperar o fator de utilização desses períodos e, considerando um fator de 95%, valor abaixo do máximo já praticado (98%), calcular o que chamaremos de produção possível.

Outro fato que contribui mais positivamente para referendar nossa tese de que a Petrobras pode produzir o necessário para nosso consumo interno é a inserção do biodiesel na mistura do óleo diesel. Essa mistura teve início em 2004, com sua obrigatoriedade ocorrendo em 2005 com um teor de 2% e aumentando gradativamente até chegar a 8% em 2017. Chamaremos de “produção nacional possível de óleo diesel” a “produção possível levando em conta a capacidade produtiva em 95%” acrescentada da inserção do biodiesel.

Comparando a capacidade produtiva de óleo diesel, considerando os avanços obtidos com investimentos no parque de refino e a incorporação do biodiesel, e o consumo nacional, chegamos à clareza que é possível abastecer o mercado interno com a produção das refinarias nacionais.

No momento anterior às greves dos caminhoneiros e dos petroleiros e petroleiras, a produção no parque de refino nacional estava próximo a 68% da capacidade produtiva. Nesse momento já estávamos batendo recorde na importação de derivados de petróleo e avançando na exportação de óleo cru.

Ou seja, a pergunta que precede nosso debate deveria ser: Por que a Petrobras tem operado com capacidade ociosa no refino de derivados e aberto mão da possibilidade de garantir o abastecimento nacional sem recorrer às importações?

Para nós, a resposta a essa questão só pode ser compreendida dentro de um projeto mais geral, que envolve a desestruturação da Petrobras, mediante políticas que enfraquecem seu peso político e econômico no desenvolvimento nacional. Um dos principais pilares de enfraquecimento da companhia é a comercialização de ativos fixos, como a anunciada venda de 40% do controle do refino nacional.

Ou seja, a política de preços praticada pela Petrobras só tem como objetivo possibilitar as privatizações, pelo aumento da concorrência interna e a retirada de qualquer possibilidade do Estado intervir em um setor tão estratégico para o país.

A Petrobras, com seu parque de refino e a exploração do pré-sal, pode atender a demanda nacional de combustíveis e nos tornar um país com soberania energética, podendo assim suavizar na indústria nacional e no bolso dos consumidores as variações do petróleo e do dólar. A política de preço da Petrobras não pode ter como objetivo o desmonte da própria empresa, privatizações e o ataque aos interesses de seu sócio majoritário, a população brasileira. A política de preços de uma empresa estratégica como a Petrobras tem que ter como objetivo central um projeto de desenvolvimento nacional e de curto, médio e longo prazo.

Publicado em Petróleo

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

Instagram