A terça-feira (6) entra para a história dos Estados Unidos como o dia em que as mulheres derrotaram o presidente Donald Trump, eleito dois anos antes atacando as questões de gênero, os imigrantes e defendendo propostas racistas e xenófobas. As semelhanças com Jair Bolsonaro não param por aí. Trump também é acusado de utilização de fake news para derrotar a adversária democrata Hillary Clinton.

“As estadunidenses se mobilizaram para avançar nas lutas por igualdade de direitos”, afirma Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB, com base em informações do jornal The New York Times. Com o resultado o Partido Democrata conquistou maioria na Câmara, mas se mantém em minoria no Senado. Nas duas casas legislativas, a representação feminina já ultrapassa os 20%.

De acordo com as repórteres Susan Chira e Kate Zernike , “as mulheres participaram de grupos de base determinadas a reconquistar o controle democrata sobre a Câmara, e lotaram organizações que as prepararam para concorrer aos cargos. Como candidatas, elas quebraram regras e derrotaram a sabedoria política convencional”.

Até o momento já foi contabilizada a eleição de 92 eleitas, em 435 parlamentares, superando o recorde anterior de 84 para a Câmara dos Representantes. “Como ativistas, expandiram a definição das questões femininas para além da educação e dos direitos reprodutivos, incluindo assistência médica, imigração, violência armada e proteção do meio ambiente”, assinalam as repórteres. No Senado foram eleitas 10 mulheres nas 35 vagas em disputa.

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Para Celina, o resultado da eleição da maior potência capitalista do mundo, significa “uma pedra no caminho dos projetos anti-imigração, belicista e armamentista, contra os direitos humanos de Trump”.

Foram muitas boas novidades. Pelos democratas: em Massachusetts, Ayanna Pressley se tornou a primeira negra eleita. Rashida Tlaib, em Michigan e Ilhan Omar, em Minnesota serão as primeiras muçulmanas no Congresso. Sharice Davids derrubou um republicano no Kansas e Deb Haaland prevaleceu no Novo México, tornando-se as primeiras indígenas eleitas para o Congresso. No Tennessee, Marsha Blackburn, uma republicana, tornou-se a primeira mulher do estado eleita para o Senado.

Kelly Dittmar, cientista política da agência de Rutgers, disse ao New York Times que "para algumas mulheres, isso significava não esperar a sua vez", enquanto “para outras, isso também significava concorrer de uma maneira que adotasse o gênero e a raça como um trunfo para a candidatura e a manutenção de escritórios, em vez de um obstáculo que precisam superar para ter sucesso no mundo da política eleitoral masculino".

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Jared Polis foi eleito no Colorado como o primeiro governador de um estado estadunidense, assumidamente gay, também pelos democratas. “Ampla derrota para Trump, que viu suas plataformas principais ruírem”, analisa a sindicalista da CTB.

Especialistas indicam polarização entre o eleitorado masculino e feminino, muito parecido com o fenômeno que aconteceu na eleição brasileira. “A luta das mulheres não vai parar enquanto houver discriminação, violência e preconceito. O resultado dessa eleição vai além dos números e traz grande signifido político para avançarmos na unidade em defesa da igualdade e do respeito a todas as pessoas”, finaliza Celina. Para ela, a reeleição de Trump em 2020 está comprometida "para o bem da humanidade".

[Por Marcos Aurélio Ruy, do Portal da CTB]

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Se depender da agenda dos candidatos de perfil conservador, as mulheres deverão fazer do movimento #EleNão um fórum permanente de lutas contra retrocessos. O líder das pesquisas de intenção de voto, Jair Bolsonaro (PSL), alvo das manifestações de domingo (29), menciona a palavra mulher apenas uma vez. E no título de um gráfico: "Outro exemplo de mudança ideológica – Combater o estupro de mulheres e crianças."

A julgar pelo programa de governo do candidato do PSL, as trabalhadoras não terão políticas políticas públicas que contemplem suas bandeiras de luta. A palavra aparece uma só vez, mas com uma conotação que tenta desqualificar aquela que caracteriza a mulher que trabalha para se sustentar e a seus filhos e familiares.

“Chega de carimbos, autorizações e burocracias. A complexidade burocrática alimenta a corrupção. Faremos um governo que confiará no cidadão, simplificando e quebrando a lógica que a esquerda nos impôs de desconfiar das pessoas corretas e trabalhadoras. Não continuaremos a tratar a exceção como regra, o que prejudica a maioria dos seguidores da lei”, diz um trecho do programa do candidato.

As mulheres podem acusar Bolsonaro de tudo, menos de incoerente. Seu programa registrado no Tribunal Superior Eleitoral é fiel a posicionamentos seus, como o de que as mulheres devem ganhar salários menores que os homens porque engravidam – "quando ela voltar (da licença-maternidade), vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano”, afirmou o candidato em entrevista.

Mulher vice

Geraldo Alckmin (PSDB), que tem uma mulher como vice – a ruralista Ana Amélia Lemos (PP-RS) – é bastante vago nas duas vezes em que menciona o termo mulher em seu programa. Na primeira, diz que “vamos estabelecer um pacto nacional para a redução de violência contra idosos, mulheres e LGBTI e incentivar a criação de redes não-governamentais de apoio ao atendimento de vítimas de violência racial e contra tráfico sexual e de crianças”.

E na segunda, “a redução das desigualdades sociais exigirá um sério comprometimento do governo, para melhorar a qualidade da educação, ampliar o acesso à saúde, combater a violência e promover o respeito às mulheres, idosos e minorias.”

A exemplo de Bolsonaro, o tucano também não menciona a palavra "trabalhadora".

Henrique Meirelles (MDB) é outro que cita mulheres apenas duas vezes, e ignora totalmente as trabalhadoras. Em sua proposta, “as mulheres, por exemplo, trabalham, em média, três horas por semana a mais do que os homens, combinando trabalhos remunerados, afazeres domésticos e cuidados de pessoas. Mesmo assim, e ainda contando com um nível educacional mais alto, ganham, em média, 76,5% do rendimento dos homens”.

Mais para frente, o texto promete “incentivar a redução da diferença salarial entre homens e mulheres, respaldado pela nova lei do trabalho aprovada em 2017”. Nada mais.

Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Eymael (DC) e Amoedo (Novo), que juntos somam 8% das intenções de votos, não mencionam a palavra mulher nenhuma vez em seus programas de governo. É como se elas não existissem.

O que dedica mais espaço e propostas à mulher é Guilherme Boulos (PSol). O termo aparece 125 vezes ao longo do programa e um capítulo inteiro intitulado "É pela vida das mulheres", sobre trabalho, educação, saúde, inclusão e muito mais.

No programa de Ciro Gomes (PDT), o termo aparece 41 vezes. O candidato dedica um capítulo, intitulado “Respeito às mulheres”.

Na proposta de Fernando Haddad (PT), há um tópico inteiro com políticas para as mulheres, visando a igualdade de gênero. Ao todo, a palavra mulher aparece 34 vezes. 

Já no programa de Marina Silva (Rede), o termo aparece nove vezes. Entre outras coisas, a candidata promete ampliar políticas de prevenção à violência contra a mulher, combater o feminicídio, qualificar a rede de atendimento às vítimas, criar políticas contra a discriminação no mercado de trabalho para garantir igualdade salarial para mulheres e homens que exerçam as mesmas funções.

Outros que se lembraram das mulheres em seus programas são João Goulart Filho (PPL), que em 20 situações se refere à mulher, e Vera (PSTU), em quatro.

[Via Rede Brasil Atual]

 

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As manifestações #EleNão contra Jair Bolsonaro (PSL) lideradas por mulheres que mobilizaram diversas cidades do país e do mundo representam uma resposta ao discurso machista e autoritário propagado pelo candidato e seus apoiadores. O movimento deve aumentar a rejeição ao presidenciável e também pode reforçar a resistência democrática na reta final do primeiro turno das eleições 2018. É como avalia a socióloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Esther Solano. 

"Não foi só contra Bolsonaro. Foi também um ato de proteção da democracia. É uma vanguarda democrática que está se formando. Um ato de cidadania como não se via há muito tempo. Foi uma resposta aos autoritarismos", diz a professora, também autora do livro O Ódio como Política (Editora Boitempo), que estuda a ascensão do discurso fascista no Brasil. "Temos um fascista, mas também temos a mobilização democrática. Isso é uma questão pedagógica muito forte para toda a sociedade", afirma Esther, que diz que o último sábado (29) registrou "a maior mobilização de mulheres que o Brasil já viu".

Segundo ela, a dimensão das mobilizações das mulheres só pode ser comparada às manifestações pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016. "A diferença é que o nosso ato foi positivo, por uma política inclusiva, pela vida, por uma política onde todo mundo caiba. E os atos deles (dos grupos pró-impeachment e pró-Bolsonaro) são por políticas excludentes, uma política de negação sempre."

Outra diferença é que, enquanto os atos pró-impeachment recebiam cobertura favorável e extensa por parte dos principais jornais e veículos de comunicação, a postura em relação às mulheres foi mais comedida. No domingo, os principais jornais do país até trouxeram os atos das mulheres com destaque em primeira página, mas com manchetes que nada tinham a ver com o evento, com o aparente intuito de causar alguma confusão.

Antifeminismo

Esther também diz que as manifestações pró-Bolsonaro ocorridas no domingo (30), em resposta ao movimento #EleNão, "foram muito menores". E mais uma vez, as feministas foram vítimas de ataques, quando o filho do candidato afirmou que as mulheres de direita são "mais bonitas e higiênicas". Segundo a professora, não é por acaso que os apoiadores do militar reformado escolheram a bandeira do antifeminismo.

"Eles se sentem ameaçados pela nossa potência. São homens que sentem medo das mulheres, por isso é que são tão violentos. Se a gente não fosse ameaça, ignorariam totalmente. São tão violentos e brutais porque sabem que a gente tem essa capacidade mobilizadora. Eles sabem muito bem que o voto feminino pode decidir contra o Bolsonaro. Eles claramente têm medo da nossa força", afirma.

Na comparação com os Estados Unidos, em que as mobilizações de mulheres, nas redes e nas ruas, não foram capazes de impedir a eleição de Donald Trump, ela avalia que no Brasil o voto feminino deve ser ainda mais decisivo. "A rejeição dele entre nós, mulheres, está subindo. No segundo turno, em que esse fator da rejeição ganha ainda mais importância, pode haver, sim, um impacto. O voto feminino pode decidir essa eleição", diz Esther. 

A professora da Unifesp também discorda da avaliação de que o movimento teria ficado restrito a universitárias e mulheres de classe média. Ela cita a presença de mães com crianças e idosas e da reação das mulheres nos ônibus que passavam pela manifestação em São Paulo, por exemplo.

"O movimento feminista sempre tem a capacidade para ir além da classe média, justamente porque o tema da mulher sensibiliza muito. Toda mulher sofre o preconceito e o machismo na pele. Passei o tempo todo na manifestação, com um cartaz escrito "Mulheres contra Bolsonaro, pelas nossas vidas". Quando passava pelos ônibus – e lá dentro não estava a classe média, mas a classe trabalhadora – a receptividade das mulheres dentro dos coletivos pareceu muito interessante. Acenavam, sorriam. A rejeição a ele é também de mulheres pobres, negras, nordestinas."

[Via Rede Brasil Atual]

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A renda das mulheres brasileiras é 42,7% menor do que a dos homens, segundo pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). De acordo com o estudo, as mulheres estudam mais, ganham menos e passam mais tempo ocupadas com tarefas domésticas do que os homens.

Dados do PNUD, no Brasil, mostram que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos homens brasileiros é de 0,761 e o das mulheres 0,755. Quanto mais próximo de 1, menor é a desigualdade.

“À medida que as mulheres assumem a chefia dos lares, sofrem com o desemprego, o subemprego ou com os salários mais baixos, a tendência é que fiquem mais perto da linha da miséria”, explica a secretária das Mulher Trabalhadora da CUT, Juneia Batista, se referindo à renda das mulheres, um dos indicadores do IDH.

O Índice de Desigualdade de Gênero avalia desigualdades em questões como saúde reprodutiva, empoderamento e mercado de trabalho. Nesse quesito, o Brasil ocupa a 94ª posição, com índice de 0,407.

Segundo a pesquisa do PNUD, o Brasil é o terceiro país da América do Sul que mais perdeu no IDH devido às medidas tomadas pelo ilegítimo e golpista Michel Temer (MDB-SP), como a PEC do congelamento dos gastos, a eliminação de programas sociais e a reforma Trabalhista.

As mulheres predominam entre as pessoas que estão fora da força de trabalho devido às dificuldades de acesso e de permanência no mercado de trabalho, explicou ao Portal CUT a economista Marilane Teixeira, pesquisadora na área de relações de trabalho e gênero do CESIT/IE – Unicamp.

“Vai se criando um círculo vicioso em que as mulheres, por estarem nos empregos piores, por terem menos oportunidades e por ser a maioria absoluta da força fora do mercado de trabalho, são as que vão ter menos autonomia econômica, vão ter menos condições de investir na sua qualificação e irão figurar entre as pessoas com renda menor”, analisou a especialista.

Segundo Marilane, quanto pior o perfil socioeconômico e quanto mais baixa a renda das famílias, maior é o número de mulheres que estão fora do mercado de trabalho e isso é um elemento que contribui muito para aumentar os índices de pobreza e desigualdade em um país.

“A mulher nessa situação socioeconômica que é chefe de família não tem acesso a empregos melhores porque é obrigada a conciliar o trabalho com a responsabilidade da casa, dos filhos, das contas. Com isso, mesmo que tenha uma escolaridade mais elevada, vai buscar empregos que são flexíveis o suficiente para que ela possa manter uma dupla jornada. E se tem filho pequeno, é mais complexo ainda.”

O estudo também aponta que, em relação ao Coeficiente de Gini – instrumento que mede o grau de concentração de renda em determinado grupo e revela a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos, entre 2010 e 2017, o Brasil ficou com o 9º lugar, pior índice do mundo (51,3).

Para a secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Juneia Batista, é obrigação dos movimentos sociais e sindicais e dos governantes trabalhar para reverter esse quadro e garantir a igualdade entre homens e mulheres. Acabar com a desigualdade de gênero é também lutar para fortalecer a democracia do país.

"Não teremos democracia plena, sem a igualdade entre homens e mulheres. Defender a igualdade salarial é defender a democracia e nunca cansarei de repetir isso", conclui a secretaria.

[Via CUT]

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Mais de 45 guerrilheiras que resistiram à ditadura militar brasileira pela Ação Libertadora Nacional (ALN) testemunham que as mulheres não foram linha auxiliar na luta armada contra a repressão. Essas memórias fazem parte do livro "Mulheres na luta armada: protagonismo feminino na ALN", da historiadora Maria Cláudia Badan Ribeiro.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a pesquisadora apresenta reflexões sobre o legado emancipatório dessas rebeldes e desmonta equívocos e preconceitos difundidos pelos agentes da ditadura militar. As militantes romperam com sociedade e família para integrarem a frente de batalha.

"Historicamente, no Brasil, a figura do desobediente político é sempre do homem, a mulher fica reservada ao lar ou tem uma pequena esfera de ação dentro das tarefas do cotidiano. Quando a mulher tinha alguma punição, diziam que ela tinha feito aquilo levada por alguém, nunca como uma decisão pessoal e independente, como se essa mulher não tivesse política na cabeça. Era uma questão que a repressão e a imprensa da época tentavam difundir, de que a mulher não tinha autonomia de militância, não era um ser político e tinha que ficar em casa".  

Leia a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato – Como se deu o protagonismo feminino na ALN na resistência aos anos de chumbo?

Maria Cláudia – Eu quis explorar o chamado setor de apoio na organização, porque sempre se associa setor de apoio e mulheres vinculando ao papel maternal de cuidar e eu quis mostrar que isso não era realidade.

Isso também aconteceu em outras organizações, mas na ALN existia maior liberdade de ação em que a mulher era protagonista da história e da luta. Eu quis mostrar que a figura da guerrilheira de armas na mão é importante, mas ela também pode ser muito abstrata se desconsidera o funcionamento real de uma organização.

Era definido, por exemplo, setor de apoio e logística da ALN, um processo que o então professor Joel Rufino participava com sete mulheres em volta. Então falavam que ele era amante dessas mulheres, mas, na verdade, elas estavam militando pela ALN, mas sempre aparecia como ele encabeçando o processo.

Na realidade, era uma rede de apoio que mantinha a organização: elas ajudavam a tirar gente pela fronteira, davam dinheiro, emprestavam o carro para fazer ação e empregavam gente que tinha sido despedida dos empregos, já que não se podia ter atestado ideológico. Enfim, são vários os gestos que mostram o compromisso político dessas mulheres.

Então houve uma continuidade, não uma ruptura. O próprio Carlos Marighella era um dirigente cercado de mulheres e estimulava muito a militância delas. O Marighella tinha uma visão diferente: ele tentava convencer os companheiros de deixarem suas mulheres participarem das reuniões, trazerem os problemas sociais da dona de casa.

Inclusive, por exemplo, os acordos entre o Marighella e Cuba para treinamento guerrilheiro, os cubanos não queriam aceitar as mulheres. O Marighella mandou a Zilda Xavier Pereira para Cuba para dizer aos cubanos que se as mulheres não participassem do treinamento rural, onde principalmente elas eram proibidas com a justificativa que causavam problemas na tropa, ele não ia aceitar o acordo e ninguém mais ia treinar. O Marighella defendeu até o fim a participação das mulheres na luta da ALN.

Uma série de mulheres foi para Cuba fazer treinamento, outras fizeram aqui; minimamente, todas tiveram algum contato com arma de fogo para se defender. O homem nem sempre fez parte de ação armada ou era bom atirador.

Elas se identificavam com a horizontalidade, porque a organização não era como um partido com hierarquia muito rígida, a ALN dava espaço para apoios e em qualquer lugar que você pudesse militar, no setor estudantil, junto aos operários.

No livro, eu considero o papel das associações de bairro e movimentos de mulheres que foram anteriores à luta armada. A ALN saiu do Partido Comunista e levou muitas pessoas de lá. Uma das pioneiras da ALN, na realidade, era a chamada Liga Feminina da Guanabara, que era um grupo de mulheres que militava no partido, algumas que ajudaram pessoalmente o Marighella, mas não aderiram a ALN.

Então não foi um rompimento total, eu tentei mostrar essa luta como um processo e quis trabalhar com a militância feminina porque eu percebi que ela era muito rede. A luta armada não foi só violência e eu quis mostrar isso.

A luta armada foi uma experiência de bastante importância para a história do Brasil e há uma certa dificuldade em lidar com isso até hoje, principalmente quando as mulheres fazem parte.

Como você analisa a invisibilidade dada às mulheres guerrilheiras, mesmo quando integravam a frente de batalha?

Historicamente, no Brasil, a figura do desobediente político é sempre do homem, a mulher fica reservada ao lar ou tem uma pequena esfera de ação dentro das tarefas do cotidiano.

Existe uma pesquisa muito interessante que fala como as mulheres chilenas começaram a militar politicamente de maneira mais incisiva a partir de grupos de mulheres donas de casa. Eu acho que no Brasil também aconteceu um pouco disso.

Foi um caminho de crescimento pelo contexto em que se vivia: a mulher saiu para o mercado de trabalho, foi para a universidade, ocorreu o êxodo rural, então ela viu os campos de vida mais abertos, inclusive a militância. Elas começaram a se colocar publicamente, com certas dificuldades, claro, porque o mundo político sempre foi muito masculino.

Agora, essa invisibilidade, de qualquer maneira, eu mostro no livro que também ajudou, porque o fato de a mulher nunca ser suspeita de entrar em um assalto, por exemplo, também a protegia. Essa invisibilidade foi causada pela ditadura, porque as mulheres que participaram da luta armada, geralmente, eram inocentadas na Justiça Militar, porque diziam que elas tinham sido levadas a fazer ações por conta de seus namorados, maridos, irmãos… o que não era verdade.

De alguma maneira, os advogados dos presos políticos também usaram esse artifício para liberar as mulheres, para dizer que elas não eram culpadas pelas ações, que não tinham panfletado ou feito pichação.

A ditadura criou a ideia da "loura dos assaltos", que também foi uma maneira de desvalorizar a luta e de transformar a mulher em uma figura desviante do papel que era aceito na sociedade.

Em todas as ditaduras, como na Espanha e na maior parte dos países latino-americanos, o arcabouço prático e jurídico era desmerecer a mulher e sua capacidade política, resumindo como a mãe de família, cuidadora dos filhos e da casa, nunca envolvida em nada que fosse público. É um pensamento conservador que existe até hoje.

O modo de agir fechado de todo o regime militar era baseado em desmobilizar politicamente o homem e, principalmente, a mulher, porque ela tem um espírito "pacífico" na visão da repressão. Então a ditadura limitou o espaço da mulher ao ar.

Nos documentos da Justiça Militar e na própria imprensa, aparecia muito "mulher de fulano foi envolvida sentimentalmente e fez processos para a organização porque estava apaixonada". Isso foi uma maneira da repressão não chamar a atenção para a militância feminina como independente e autônoma.

Isso não foi uma postura da mulher, nenhuma delas queria ser colocada como coadjuvante ou dependente do marido, muito pelo contrário. Muitas delas entraram na luta armada tendo pais da repressão ou um parentesco com ministros da ditadura, então elas foram muito valentes ao romper com a família e a sociedade para estar na militância.

No livro, eu também abordo como foi a volta dessas mulheres à sociedade depois do exílio ou da prisão. Muitas eram adolescentes. Tem histórias de mulheres que foram presas com os filhos ou que tiveram o parto na prisão.

A ALN não teve um fim formalizado, ela acabou por perseguição e repressão. Essas mulheres se dedicaram muito, deram tudo o que tinham e a luta custou a vida de muitas. Era a luta pela sobrevivência, pela justiça. Então o protagonismo também é delas, porque foram vanguarda em tudo o que pensaram e fizeram.

Eram feministas?

As mulheres estavam em um processo de liberação, o feminismo como a gente conhece hoje ainda não tinha chegado no Brasil. Existiam muitas mulheres que estavam na universidade e tinham contato com leituras como Simone de Beauvoir e outras referências europeias ou estadunidenses que chegavam aqui.

Mas, naquele contexto, as mulheres estavam mais preocupadas em derrubar a ditadura do que falar mais de si. Eu não posso dizer que o movimento de mulheres contra a ditadura, ainda que na luta armada, fosse feminista. O movimento feminista enquanto teoria e prática é posterior e quem se engajou naquela luta se propunha a destruir a ditadura sem saber se no dia seguinte estaria viva.

Mas já se questionava todas as amarras para a vida pessoal, sexual e sentimental da mulher. E isso não só no Brasil, essa liberação se deu no mundo todo, principalmente a partir dos anos 1970.

A Comissão Nacional da Verdade estimulou essas mulheres a falarem mais sobre o assunto?

Eu acredito que com as comissões da verdade, o Brasil passou a olhar um pouco mais para essa questão, mas eu não sei até que ponto isso envolveu a sociedade. Não foi feito um debate amplo, ela mobilizou alguns núcleos, movimentou a sociedade, mas tem muita gente que nem sabe o que é. Existem pessoas que pedem a volta da ditadura sem nem saber o que foi. Ela trouxe muita documentação, muitos testemunhos e permitiu a mulher de falar o que viveu sem ser sob tortura. Isso é muito positivo. O primeiro fundo de documento espontâneo de histórias foi a Comissão da Anistia.

Isso deu voz a mulheres, homens e crianças que sofreram, porque o Estado se colocou no papel de repressor e culpado. Isso se tornou legítimo e as mulheres se apropriaram dessa luta valorizando suas trajetórias. A Comissão Nacional da Verdade liberou a sala, mas, infelizmente, sua duração foi rápida.

Depois, veio as Clínicas do Testemunho para falar dos casos de estupro, que ainda são considerados privados no Brasil. Essa parte não avançou muito na Comissão, na história do país e nem em trabalhos feitos sobre mulheres. Além disso, cada militante que viveu essa experiência trágica precisa de tempo para poder falar. É uma questão delicada, mas eu acho que deveria se investigar mais sobre isso.

As mulheres também começaram a escrever suas memórias, mas não conseguem espaço na imprensa e nas editoras. Existe uma política de apagamento dessas experiências, em que se elege algumas e se despreza outras.

[Via Brasil de Fato | Edição: Juca Guimarães]

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