Parto humanizado deve ser direito de todas as mulheres. Cobrança é para que a AMS inclua cobertura para leitos e estrutura, atendendo demandas das petroleiras

[Da imprensa do Sindipetro MG | Texto de Joana Tavares |  Ilustração: Priscila Barbosa/Mundo Estranho]

O Sindipetro/MG enviou, no dia 4 de outubro, um ofício à gerência geral e para a gerência de RH da Regap solicitando que o Saúde Petrobrás inclua algumas acomodações voltadas para o parto humanizado.

“Tendo em vista o interesse da Petrobrás em propiciar uma experiência respeitosa para os futuros pais, esta entidade requer que sejam avaliadas as condições de implementação deste benefício para as petroleiras e petroleiros de Minas Gerais e que, caso não haja viabilidade, que sejam esclarecidas as motivações”, diz trecho do ofício, que lembra ainda que a Petrobrás é integrada ao Projeto Parto Adequado. Essa iniciativa propicia às gestantes e aos bebês uma experiência mais respeitosa e humana tanto no pré-parto, no parto e também no pós parto (PPP). [Confira aqui o ofício enviado: Oficio 052.2021 – Projeto Parto Adequado]

Como frisa a técnica de operação da Regap Vanessa Serbate Borges, uma experiência mais tranquila deixa todos os envolvidos mais seguros e saudáveis também no retorno ao trabalho. Ela, que está em sua terceira gestação, espera que seja possível que a reivindicação seja atendida. 

Vanessa trabalha há 13 anos no setor CCF (Craqueamento Catalítico Fluido) da Regap, e divide aqui um pouco de sua história. Ela conta que em sua primeira gestação, há seis anos, trabalhou em horário administrativo e conseguiu conciliar com a prática de atividades físicas. “Trabalhei literalmente até o dia do Lucas nascer”, lembra. Foi um parto tranquilo, mas na época não se falava muito em parto humanizado e depois Vanessa percebeu que poderia ter sido ainda melhor.

Já durante a segunda gestação, ela trabalhou no turno, no painel, o que dificultou muito a rotina de atividades físicas. Ela se sentia mais cansada e a filha estava em posição pélvica, o que levou a uma cesariana. Vanessa diz que correu tudo bem, mas que talvez não tivesse as condições previstas no plano para o parto normal, como ela gostaria. 

Nessa terceira gestação, Vanessa pesquisou as diversas circunstâncias ligadas ao parto e está convencida que o humanizado é a melhor opção para as mulheres, para que, em suas palavras, seja uma experiência de uma mulher parindo e um bebê nascendo, e não uma cirurgia num bloco cirúrgico. 

Entre as opções, há os hospitais ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS), como o Sofia Feldman e há também a possibilidade de pagamento de diversos profissionais para acompanhar um parto humanizado na rede privada. Vanessa tenta ir por um terceiro caminho: encontrar uma estrutura humanizada na rede particular, coberta pela AMS. 

“​​No Mater Dei, por exemplo, na hora do parto, as salas normais só têm a opção de ficar deitada. Mas eles oferecem também as salas PPP, que são as salas pré parto, parto e pós parto. O uso dessas salas acontece a partir do momento em que a mulher entra em trabalho de parto. E, estando tudo bem, ela fica lá até o bebê nascer. E tem toda a estrutura, bola de pilates, banco de cócoras, banheira. Tem todo um aparato que permite que o trabalho de parto prossiga de uma maneira mais fácil,  mais natural, que favoreça o nascimento sem nenhuma intervenção. Mas para fazer o uso dessa sala, no nosso plano, a gente precisa pagar pelo uso. Tem plano de saúde que cobre o uso dessa sala. Então não é um produto para ser vendido exclusivamente particular. Mas nosso plano não cobre”, explica. 

“É um parto hospitalar com uma condição muito mais natural, com muito menos intervenções, que podem ocasionar doenças, problemas, que deixa o pós parto muito difícil… e tudo isso poderia ser evitado com uma simples mudança de posição. E isso pode facilitar muito a gestação, que a gente passe com qualidade de vida. Para quando a gente retornar ao trabalho poder fazê-lo com a cabeça tranquila, tanto os homens como as mulheres. E da parte hospitalar, de parto, isso é o que consigo ver que é possível fazer, de um modo mais rápido e mais efetivo”, completa.

Ginástica

Vanessa está na 30a semana de gestação, em trabalho remoto devido à pandemia e se sente bem, física e emocionalmente. Ela conta que um fator importante para sua saúde tem sido a possibilidade de fazer atividades físicas, mesmo que em horários pouco regulares, por meio do GymPass, oferecido pela empresa.

Ela lembra que o benefício vale também para esposas de petroleiros e sugere que outras gestantes façam uso desse direito, para uma gestação mais feliz e saudável.

Luta do sindicato

Márcia Nazaré, diretora do Sindipetro/MG reforça que o sindicato segue na luta pela cobertura pelo plano de saúde da Petrobrás do acesso ao serviço e condições do parto humanizado nas redes particulares de Belo Horizonte e de Betim, pois é uma forma de deixar as trabalhadoras mais seguras.”Conhecendo os desafios pelos quais passam as trabalhadoras  petroleiras em função do trabalho que executam, o sindicato percebe que  no momento de decidirem pela maternidade, as trabalhadoras se sentiriam bem mais seguras de poder contar com a opção do parto humanizado”, reforça. Márcia lembra que o direito vale também para esposas de petroleiros. 

Resposta do departamento de Relações Sindicais da Petrobrás

No dia 07/10, o Sindipetro/MG recebeu, por email, uma resposta das Relações Sindicais, que reproduzimos na íntegra abaixo:

“Prezados,

Como de conhecimento o projeto Parto Adequado, desenvolvido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) e o Institute for Healthcare Improvement (IHI), com o apoio do Ministério da Saúde, tem o objetivo de identificar modelos inovadores e viáveis de atenção ao parto e nascimento, que valorizem o parto normal e reduzam o percentual de cesarianas sem indicação clínica na saúde suplementar. Essa iniciativa visa ainda a oferecer às mulheres e aos bebês o cuidado certo, na hora certa, ao longo da gestação, durante todo o trabalho de parto e pós parto, considerando a estrutura e o preparo da equipe multiprofissional, a medicina baseada em evidência e as condições socioculturais e afetivas da gestante e da família.

O Projeto foi estruturado nas seguintes fases:

Fase 1: fase piloto, entre 2015 e 2016, que contou com a participação de 35 hospitais e 19 operadoras de planos de saúde. Essa fase foi caracterizada por testes iniciais, que demonstraram a viabilidade do projeto.

Fase 2: fase de disseminação, de 2017 a 2021. Entre 2017 e 2020, participaram 108 hospitais e 60 operadoras de planos de saúde. No Ciclo Intensivo da Fase 2, de 2020 a 2021, ainda em curso, participam 28 binômios de operadoras e hospitais, com acompanhamento mais próximo e metas mais desafiadoras. Essa fase se caracteriza por estender a intervenção a uma variedade de prestadores e operadoras que representam o país. Nessa fase, já foram evitadas 20 mil cesarianas desnecessárias.

Fase 3: contempla medidas para promover a disseminação das estratégias de melhoria da qualidade da atenção do parto e nascimento em grande escala, com possibilidade de inclusão do conjunto de maternidades e operadoras do país.

Na fase atual (Ciclo Intensivo da Fase 2) o projeto prevê que cada maternidade tenha apenas uma operadora parceira, não sendo possível a Saúde Petrobras realizar parceria com a Rede de Saúde Mater Dei tanto de Betim quanto de Belo Horizonte.

Uma das melhorias implantadas pelas maternidades para atendimento ao projeto é a disponibilização de acomodações chamadas de quarto PPP, onde a gestante pode permanecer no período de pré-parto, parto e pós parto. Em virtude do número reduzido desses quartos, as maternidades têm destinado essas acomodações para as gestantes da operadora parceira no Parto Adequado.

Atenciosamente,

Relações Sindicais”

 

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Nesta sexta-feira, 27, a diretora do Sindipetro-NF, Bárbara Bezerra, participará da live “Ilha de Ferro e a vida real”, com transmissão a partir das 19h nos canis do instagram e do Youtube da Juliane Furno @julianefurno.

O encontro é com a atriz Maria Casadevall, que interpreta uma gerente de plataforma que sofre com a violência de gênero na série Ilha de Ferro, da TV Globo, e a economista Juliane Furno, pesquisadora do setor petróleo. A mediação será feita pelo comunicador Guilherme Gandolfi.

Como petroleira da Bacia de Campos, Bárbara discutirá a vida real das trabalhadoras de plataformas de petróleo e de outras plantas industriais do setor e aproveitará para abordar temáticas que vão além das questões de gênero, como a segurança no trabalho e o desmonte em curso no Sistema Petrobrás. 

Acompanhe também no instagram: @julianefurno @barbarapiabezerra @mariacasadevall

[Imprensa da FUP]

 

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Debate virtual promovido pela Federação Única dos Petroleiros mostrou dificuldades enfrentadas pelas trabalhadoras da Petrobras ante a pandemia e o desmonte da maior estatal brasileira

[Da Rede Brasil Atual]

Num cenário majoritariamente masculino e machista, em que petroleiras representam apenas 17% do total de trabalhadores da Petrobras, a luta das torna-se ainda mais “complicada”. É o que avalia a geofísica Rosângela Buzanelli Torres, única mulher no Conselho de Administração da maior estatal brasileira, de um total de 11 integrantes.

Trabalhadora da companhia há 34 anos, ela foi alçada ao conselho administrativo no último ano, com o apoio da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e seus sindicatos. “Foram os trabalhadores, o coletivo de mulheres que me alçaram nessa missão de representar a categoria dos petroleiros no Conselho”, disse durante a live “Mulheres que vão à luta”, transmitida nas redes sociais da FUP, na noite desta quarta-feira (10).

Rosângela relembrou que foi “mal avaliada” pelos seus gestores quando, no início da carreira na Petrobras, lutava por melhores condições de trabalho. “Eu era fiscal de equipe sísmica. Dormíamos no trailer ou barraca. Lutava por um banheiro feminino, por um quarto separado. Para dar mais privacidade para as mulheres e também para os homens”.

Mediado por Cristiane Barroso, da diretoria do Sindipetro da Bahia e com a presença também de Cibele Vieira, do Sindipetro de São Paulo, o debate virtual tratou sobre as dificuldades do teletrabalho, imposto pelos impactos da pandemia. Além de destacar os efeitos do desmonte da maior empresa do país no dia a dia das mulheres petroleiras.

Trabalho em casa

Questionada pela reportagem da RBA, Cibele relatou que um levantamento realizado com as petroleiras identificou que aquelas que têm filhos pequenos são as que mais estão sofrendo no atual cenário. “Conheço quem tem trabalhado durante a madrugada”.

Segundo ela, outra dificuldade com o home office repentino é a interação entre os representantes sindicais e os trabalhadores. “Se a gente pode ter acesso ao pessoal no local de trabalho físico, a gente deve ter também acesso a eles no trabalho virtual”, pontuou.

Rosângela lembrou que o home office precisa de regramento e elogiou o trabalho da FUP e dos sindicatos buscando equilibrar esses novos formatos de trabalho, de forma a manter os direitos já conquistados pelas lutas dos petroleiros. “É preciso se organizar e fortalecer os sindicatos. O que o trabalhador precisa entender é que os sindicatos são a nossa última trincheira”.

Desmonte

Outra questão abordada no debate foi sobre a destruição dos empregos causada pelos desmandos da Operação Lava Jato e o golpe que retirou a presidenta Dilma Rousseff (PT) do governo. “Em 2013 eram 360 mil trabalhadores terceirizados e 87 mil funcionários próprios. Em 2019, esse número caiu para 100 mil terceirizados e 57 mil trabalhadores próprios”, apontou Cibele.

Rosângela falou ainda da gestão de Graça Foster, que presidiu a Petrobras entre 2012 e 2015, sob o governo Dilma. “Uma das coisas que ela fez na empresa foi estimular as políticas de igualdade de gênero. Estimulou programas importantes de combate ao assédio moral e sexual, de combate à homofobia. Nesse aspecto, a gente avançou bastante na gestão dela. Implementou muitos programas importantes nessa questão de justiça e igualdade. Até o golpe chegar e o governo de homens brancos surgir”.

 Assista a íntegra do debate:

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Nesta segunda-feira, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a conselheira da Petrobrás Rosangela Buzanelli é uma das convidadas da live que vai debater a atuação de mulheres em cargos da alta administração. O evento online terá a participação de quatro conselheiras em empresas pública e estatal, que vão falar sobre suas trajetórias, conquistas, desafios e enfrentamentos no cargo ocupado, especialmente na atual conjuntura política.

A ideia de promover um debate reunindo quatro mulheres que integram Conselhos de Administração de grandes empresas nacionais foi da conselheira da Caixa, Rita Serrano. Além dela e de Rosangela, também estarão presentes no evento as conselheiras administrativas Selma Beltrão, da Embrapa, e Débora Fonseca, do Banco do Brasil. Todas elas eleitas pelos trabalhadores para representá-los no Conselho de Administração

Segundo levantamento realizado pela gestão da conselheira Rita Serrano, a participação de mulheres nesses espaços ainda é muito pequena, não ultrapassando 12% no país, mas ela é um pouco maior nas estatais federais, chegando a 16%. Entre os eleitos por trabalhadores, a presença feminina sobre para 28%.

A live com as conselheiras será transmitida segunda-feira, às19h, pelo Facebook, nas páginas de Rita Serrano, de Rosangela Buzanelli e do Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas.

[Do Face da Rosângela]

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Os impactos da pandemia e do desmonte no dia a dia das mulheres petroleiras

[Da edição especial da FUP]

A pandemia da Covid-19 está impactando de forma desigual os trabalhadores brasileiros. Além de escancarar as desigualdades social, racial e de gênero, ela também ampliou problemas estruturais da sociedade, como a violência e o desemprego. As mulheres têm sido as mais impactadas. Seja em casa, com o acúmulo de tarefas da tripla jornada e o aumento dos índices de violência doméstica, seja nas questões trabalhistas.

No caso do Sistema Petrobrás, a imposição do trabalho remoto e o fechamento das escolas deixaram as petroleiras muito mais sobrecarregadas. Nas unidades operacionais, a situação é ainda mais complexa, principalmente, em função das pressões psicológicas e da pouca efetividade dos protocolos de segurança, que não têm se mostrado suficientes para evitar o contágio, o que aumenta o medo constante de levar o vírus para casa. 

Como a indústria petrolífera é um setor prioritário, as mulheres petroleiras também estão atuando na linha de frente, seja em alto mar ou em terra, produzindo os combustíveis que abastecem as ambulâncias, as casas dos brasileiros e toda a cadeia de transportes e de petroquímica, que movimenta o país. Mas, não tem sido nada fácil para a categoria manter a saúde física e emocional com tanta pressão e insegurança. Além da complexidade das relações de trabalho e pessoais, que foram fortemente impactadas pela pandemia, as trabalhadoras e trabalhadores petroleiros ainda enfrentam o desgaste psicológico causado pelas privatizações e fechamento de unidades.

É o caso da técnica de Administração e Controle da Transpetro, Cristiane Fogaça, 34 anos, que foi deslocada para o home office em março do ano passado e, menos de dois meses depois, foi informada de que a unidade onde trabalhava, o Edifício Administrativo em Joinville (Ediville), havia sido fechada. Até agora, os trabalhadores ainda não sabem se serão transferidos após a pandemia ou se permanecerão definitivamente em teletrabalho. “Essa incerteza é mais um fator de estresse, pois, se formos deslocados para São Francisco do Sul (onde ainda há outra unidade da Transpetro em Santa Catarina), vai afetar totalmente a nossa rotina e, no meu caso, vai impactar também financeiramente, pois eu teria que pagar alguém para ficar com o meu filho”, revela Cristiane, que é mãe solo de um menino de 7 anos.

Para ela, o teletrabalho tem sido algo positivo, pois teve mais tempo para reorganizar a rotina pessoal, com a casa e com o filho. “Eu sempre fui muito impactada com a rotina de trabalho por ser mãe solo. Antes (do home office), eu já precisava, por exemplo, cozinhar à noite para ter almoço pronto para o dia seguinte. Hoje, eu tenho mais tempo para essa tarefa, estando em casa, pois não perco tempo em deslocamentos e esse tempo pode ser dedicado a dar atenção a meu filho ou realizar uma atividade física”, explica.

Já a petroleira Carla Cristina de Almeida, 45 anos, viu sua rotina de trabalho piorar consideravelmente com o teletrabalho, principalmente, por conta da pesada agenda de reuniões e o “aumento da jornada refletida em metas que precisam ser cumpridas mesmo após o horário”.  Divorciada e mãe de duas filhas pré-adolescentes, ela trabalha no Centro Empresarial da Petrobrás no Rio de Janeiro, o Edisen, mas está em home office desde 16 de março de 2020. Apesar da facilidade de estar mais próxima da família, a mudança para o teletrabalho impactou “no planejamento das atividades e na continuidade das tarefas diárias”, muito em função da “necessidade de se resolver tudo por reunião”, o que, segundo ela, “cria uma burocracia e aumenta a tensão dos prazos sempre bem apertados”.

Não tem sido fácil para Carla essa sobrecarga de trabalho, acrescida das atividades diárias de cuidado com as filhas na pandemia. “Levanto as 04h30 da manhã, de segunda a sexta, e o dia passa rápido entre trabalho, consultas, ajuda nos estudos, organizar compras e a casa”, explica. “O segundo trimestre de 2020, bem no auge da pandemia, foi um dos mais complicados, quando explodiu uma série de sentimentos e cheguei a apresentar quadros depressivos e de síndrome do pânico”, revela. Hoje, ela já está melhor, com uma rotina de exercícios físicos que a ajudaram a superar as crises de ansiedade.

A técnica de segurança, Jessica Mayra Oliveira, 34 anos, está trabalhando presencialmente desde o início da pandemia. “Eu embarquei no dia 10 de março e a vida estava normal. Desembarquei no dia 31, sem ter como voltar pra casa, pois ônibus e aviões não estavam circulando. Meu marido dirigiu de Curitiba até Macaé pra me buscar”, lembra. Ela trabalha embarcada na P-07, na Bacia de Campos, uma das plataformas da Petrobrás que está em processo de descomissionamento, após ter sido vendida pela atual gestão da empresa.

Jéssica explica que o clima da plataforma é de muita apreensão, tanto por conta da pandemia, quanto devido à privatização. “Todos estão muito tensos, é uma incerteza tão assustadora que as pessoas mal falam disso. Tudo isso é muito deprimente”, afirma. Com dois filhos pequenos e a vida completamente desestruturada pela pandemia, ela sofre ainda hoje as consequências psicológicas das mudanças que ocorreram em sua rotina. “O meu período a bordo foi aumentado de 14 para 21 dias. Foi um choque, um desespero, pois sempre planejei muito bem meus embarques e folgas por causa das crianças. Desde então, eu não consigo descrever a loucura que a minha vida virou. Toda a tensão envolvida nas viagens do trabalho para casa, a deficiência de transporte, pois a quantidade de voos diminuiu drasticamente, as crianças sem escola... não tem sido fácil”, declara.

O desgaste físico e emocional é uma realidade que a petroleira e diretora do Sindipetro Minas Gerais, Márcia Nazaré de Lima, 46 anos, também enfrenta diariamente. Ela é técnica em enfermagem do trabalho na Refinaria Gabriel Passos (Regap), uma das oito refinarias da Petrobrás que foram colocadas à venda no governo Bolsonaro.  “A pandemia alterou completamente a rotina na refinaria. Todos os dias era tudo muito novo. Muitas incertezas. Fui me adaptando, pois preciso prestar cuidados aos empregados, tanto no aspecto físico quanto emocional”, declara.

“Os empregados sintomáticos precisam se ausentar por apresentarem sintomas ou terem tido contato com familiares. Mas, ao mesmo tempo, ficam receosos de se afastarem por causa da escala escassa. Vejo muita angústia por parte deles”, explica Márcia, que está há 11 anos na Regap e precisa também lidar com suas questões pessoais e o impacto emocional de viver sob a insegurança de privatização da refinaria. “No meu caso, tenho dois filhos e sou responsável também pelos cuidados com a minha mãe, que está com 80 anos. Além disso, por ser diretora sindical, muitos empregados me procuram. Tento ajudar de alguma forma, porque percebo como eles se sentem sendo chefes de família. O acolhimento é fundamental e a única maneira de enfrentarmos tudo isso é de forma coletiva”, afirma.


Leia também:

Manifesto das mulheres em defesa da vida

O protagonismo das mulheres no movimento sindical petroleiro e no cenário político


 

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Sábado, 06 Março 2021 20:09

MULHERES NA LUTA PELA VIDA

Neste domingo, 07, as mulheres petroleiras estarão na abertura da Jornada Nacional Feminista construída pelo Coletivo de Mulheres Petroleiras e mais de 80 organizações sociais e feministas, em formato de ato político para exigir “fora, Bolsonaro!”, vacina para toda a população, auxílio emergencial já e pelo fim das violências contra as mulheres.

A jornada começa às 13h deste domingo e será transmitida nas redes sociais das entidades que estão na construção da mobilização. Bernadete Monteiro , da Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres, disse que no dia 7 o ato virtual terá a presença das representações de mais de 80 entidades e que durará em torno de 5 horas.

“Além das intervenções culturais que vão acontecer durante o ato, terão intervenções das mulheres das organizações que ajudaram a construir o ato”, afirmou.

Manifesto

O documento assinado por dezenas de entidades, as mulheres enfatizam “a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) para a garantia da vida do povo brasileiro”. Durante a pandemia o número de casos de feminicídio aumentou em todo o país. “A violência doméstica, política, institucional e obstétrica seguem nos matando. Assistimos diariamente a morte de mulheres, dentro de suas casas e carregamos o vergonhoso lugar de 5º país no mundo em feminicídio”, destaca o texto.

Para ler na íntegra e assinar o manifesto acesse: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSc-NiNvj0QbssdObGkG0RD8Vah8m-jiHaB5PR4pDnpExsOTfA/viewform

 

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25 de novembro é o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher. A data foi escolhida durante o I Encontro Feminista da América Latina e do Caribe, realizado em Bogotá, na Colômbia, em 1981, em homenagem as três irmãs ativistas políticas, Pátria, Minerva e Maria Teresa, as irmãs Mirabal, conhecidas como Las Mariposas, que foram perseguidas e mortas em 25 de novembro de 1960 pelo governo do ditador Trujillo, da República Dominicana

[Da imprensa do Sindipetro-BA]

Hoje é dia de luta, denúncia e de mobilização em repúdio à violência que destrói a vida de milhares de mulheres em todo o mundo.

Quando se fala em violência contra mulher, a primeira relação feita é com a agressão física, aquela que deixa marcas internas e externas nas vítimas. E tem-se razão para isso, já que o Brasil ocupa o 5° lugar no ranking mundial de feminicídio, de acordo com dados divulgados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Mas a violência contra a mulher não é só a que deixa marcas no corpo. Ameaças, ridicularização, humilhação, constrangimento, manipulação, limitação do direito de ir e vir, vigília constante, perseguição e chantagens são exemplos de violência contra a mulher que também devem ser denunciadas e combatidas.

Durante este período que estamos vivendo, diante de uma pandemia, o isolamento social faz com que as famílias permaneçam em casa, o que agrava o problema, pois o lar é o local onde a violência, na maioria das vezes, acontece, afinal, costuma-se ter menos testemunhas por perto.

Entre os meses de março e abril deste ano, os casos de feminicídio aumentaram em 22,2%, quando analisados dados fornecidos por 12 estados, o que demonstra um alarmante crescimento quando comparados ao ano de 2019.

Por isso, é muito importante chamar a atenção sobre índices e ausência de registros confiáveis; estimular a informação sobre o feminicídio e atuar contra a impunidade.

Importante chamarmos atenção também para o fato de que a mulher negra, segundo o Mapa da Violência, é a principal vítima da violência, com o maior número de homicídios.

Sigamos combatendo, não nos calando, não nos omitindo, mas sim, denunciando qualquer tipo de violência contra as mulheres!

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O Encontro com a categoria desta terça, 24, transmitiu a live do Sindipetro-NF sobre representação da mulher negra nos ambiente de trabalho, na academia, na política, na cultura, entre outros espaços de poder na sociedade brasileira.

Participaram do debate a diretora do Sindipetro-NF, Conceição de Maria, que também é escritora, formada em Letras e Pós Graduada em Literatura, a técnica em química, petroleira e também diretora do sindicato, Jancileide Morgado, a cientista social e mestranda em Ciências Políticas, Carine Passos, e a arquiteta e vereadora eleita do Rio de Janeiro, Tainá de Paula.

Veja abaixo a íntegra: 

Desigualdade na Petrobrás

Estudo feito pela subseção do Dieese na FUP revela a baixa representatividade de mulheres e homens pretos em cargos de gerência no Sistema Petrobrás. Segundo os relatórios da empresa e balanços financeiros e sociais analisados, o percentual de trabalhadores negros que ocupam cargos de gerência na holding e subsidiárias vem caindo. Em 2008, cerca de 30% das gerências eram ocupadas por petroleiras e petroleiros pretos. Em 2019, esse número caiu para 19,3% e chegou a 17,7% em 2018, o mais baixo índice desde o início da série histórica, revela o Dieese em entrevista dada à revista Carta Capital.

Analisando só a holding Petrobrás, dos 46.416 trabalhadores, 9,42% (4.374) são homens brancos em cargos de gerência, e 1,95%  (907) são mulheres brancas em cargos de gerência. Enquanto isso, somente 0,54% (252) são homens pretos em cargos de gerência, e 0,07% (31) são mulheres pretas nesses postos.

Segundo Cloviomar Cararine Pereira, técnico do Dieese na subseção da FUP e autor da análise, o objetivo foi mostrar que a tendência desigual no mercado de trabalho brasileiro entre brancos e negros se repete de forma pior no alto escalão da Petrobras.

Para isso, ele faz uma comparação com dados da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Enquanto, na Petrobras, somente 0,54% do quadro de funcionários total é de homens negros em cargos de gerência, o Brasil aponta percentual médio de 2,4%. No caso das mulheres negras, se na Petrobras é de 0,07%, o país tem média de 1,9%.

“Se, no Brasil, os cargos de decisão são ocupados, em sua maioria, por homens brancos e mulheres brancas, no caso da Petrobras isso também acontece, com uma diferença ainda maior”, comenta Cararine.

 

[Com informações da Carta Capital]

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Reportagem da Revista Marie Claire, publicada nesta terça-feira, 27, dá visibilidade às lutas das trabalhadoras petroleiras em um "ambiente absolutamente machista", como relata Andressa Delbons, operadora da Reduc e diretora da FUP. Coordenadora do Coletivo Nacional de Mulheres Petroleiras, ela é uma das cinco trabalhadoras da Petrobrás que foram ouvidas pela revista.

Leia a íntegra da reportagem:

Em alto mar ou terra firme, petroleiras enfrentam solidão, assédio e precarização
[Reportagem e ilustração: Revista Marie Claire]

Ao chegar para o primeiro dia de trabalho como técnica de operação da Petrobras em uma refinaria em Manaus, Elita Balbino Azevedo, 34 anos, realizava um sonho. Depois de seis meses de curso de formação, a engenheira de produção não via a hora de ir a campo. "Na primeira vez que entrei em um laboratório químico da Petrobras, meus colegas falaram que eu parecia uma criança na Disney", diz. "Sou apaixonada por química industrial e é um privilégio poder contribuir diretamente para o PIB do país."

Apesar do deslumbramento, logo de cara percebeu que enfrentaria dificuldades. Elita ouviu do supervisor que ele era obrigado a recebê-la ali, mas que não concordava com a presença de mulheres no ambiente."Respondi que eu tinha sido aprovada em um concurso público, então não era ele que ia me impedir de fazer nada", conta.

Apenas em 2000 foram abertos concursos públicos para o posto de técnico de operação, o que aumentou o espaço para mulheres nessa função. "Até então só homens eram contratados, por ser uma função que exige esforço físico: subir e descer escada de marinheiro, abrir e fechar válvulas pesadas. Para você ter uma ideia, quando as primeiras mulheres chegaram na refinaria, cinco anos antes de mim, nem banheiro feminino tinha", recorda Elita. Ainda hoje, mulheres são apenas 16% do quadro de funcionários da Petrobras.

A empresa, por meio de sua assessoria de imprensa, diz que o registro mais antigo de admissão de mulheres no cargo de técnico de operação data de 1975 e que não há qualquer restrição à contratação das profissionais: "A representatividade feminina na Petrobras de 16% ocorre principalmente em função do desequilíbrio, presente na sociedade como um todo, entre homens e mulheres nas carreiras STEM (da sigla em inglês: Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Há avanços recentes, principalmente nos cargos da alta administração. Na diretoria executiva, mulheres ocupam duas das oito cadeiras. E, nos últimos dois anos, o número de gerentes executivas aumentou de cinco para onze".
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A função de técnica de operação é considerada perigosa e envolve diversos riscos: a exposição ao benzeno, um composto tóxico e cancerígeno, e ao alto ruído das máquinas. Além disso, trabalhar na exploração de gás e petróleo significa lidar com produtos inflamáveis. "Estamos literalmente trabalhando em cima de uma bomba", diz Elita, que está há 10 anos no polo de Urucu, no meio da floresta amazônica. "A minha atribuição é extremamente técnica. Trabalho em uma planta de processamento, onde o gás natural é separado em porções que podem virar o gás de automóvel ou de cozinha, por exemplo. Tomo conta do processo da unidade, monitoro equipamentos como bombas, compressores, verifico as temperaturas de cada processo", explica.

Elita já passou por inúmeras situações de assédio ao longo dos quase 15 anos de carreira. Desde episódios como o de um chefe que pediu a ela que passasse um cafézinho para a equipe ou então o de um colega que foi entregar um documento e aproveitou para alisar sua coxa em direção à sua vulva. Teve também a vez em que Elita criticou o enxugamento do quadro de funcionários durante uma reunião e o chefe reagiu de forma violenta: "Ele ficou muito nervoso e veio para cima, quase encostando a cabeça dele na minha. Aí foi uma confusão grande". Depois disso, Elita foi afastada e ficou três anos em uma função administrativa – como uma forma de punição, diz ela. Desenvolveu crises de ansiedade e precisou de acompanhamento psicológico por seis meses.

Quem trabalha em plataformas passa temporadas longe de casa. A escala geralmente é em turnos de 8h, de 14 dias de trabalho em alto mar para 21 de folga. Com a pandemia, foi aumentado para 21 dias de trabalho e o mesmo período para descanso, em turnos de 12h. Esse regime de trabalho é especialmente difícil para as mulheres com filhos.

É o caso de Monique*, 34, que atua como técnica de segurança em uma unidade na Bacia de Campos, litoral de São Paulo. Mãe de um menino de 3 anos e de uma menina de 2, afirma que o maior desafio é ficar longe deles. Com a pandemia, passou a ficar mais dias embarcada e as crianças, em casa sem escola. Os familiares que ajudavam a cuidar deles moram longe e, por causa da Covid-19, não podem mais se deslocar. O marido trabalha à noite. Da embarcação, e pelo celular, Monique entrevista possíveis babás e administra as demais necessidades da casa. "É uma sobrecarga imensa", diz ela. "Hoje sei que preciso de ajuda psicológica. Sinto vontade de quebrar uma perna para não ter que embarcar de novo e deixar meus filhos. Sou dona de casa à distância. Minha filha fica bem, mas tem medo de qualquer pessoa sair de perto dela. Meu filho não fala comigo, fica com raiva de mim enquanto estou aqui. Tento fazer chamada de vídeo e ele fala que não quer conversar comigo, nem me ver."

Monique conta que quando entrou na profissão, com 22 anos, era tratada pelos colegas como "boneca" até conseguir se impor pela primeira vez – e aí passar a ser vista como "louca", "mal amada" e "chiliquenta". "É um caminho muito longo até propor uma ideia e ser escutada, não arregar só porque estão todos contra você. Ficam todos comendo pipoca e esperando que eu cometa algum erro", diz ela.

"Teve uma vez que embarcou um colaborador para fazer manutenção nos equipamentos da minha área. Eu precisava acompanhar esse serviço e ele já chegou com má vontade de trabalhar, ficava perguntando se era eu que precisava acompanhar, visivelmente incomodado. No fim faltavam alguns equipamentos no relatório dele. Questionei e ele disse que simplesmente não deu tempo e que não ia fazer. Falei que então não ia assinar o relatório e aí ele subiu o tom, ficou agressivo. Falei que não adiantava gritar, não ia chancelar o serviço feito pela metade. Aí ele saiu da sala me xingando, fazendo escândalo", conta.

Monique diz também que "cantadas" por parte dos colegas são frequentes. "Um rapaz me achou no Facebook e ficou me mandando mensagem. Essa vez foi ruim, me deu medo. Ele ficava falando que não conseguia trabalhar porque pensava em mim o dia inteiro, que sonhava comigo. Falei para ele parar e ficar longe de mim. Aí ele continuou, eu bloqueei ele, e ele desembarcou logo depois. Muito desconfortável."

Segundo Andressa Delbons, 33, técnica de operação na refinaria de Duque de Caxias (Reduc), RJ, dirigente do Sindipetro Caxias e coordenadora do Coletivo de Mulheres da FUP (Federação Única dos Petroleiros), a entidade não recebeu nenhuma denúncia formal de assédio e por isso não há um levantamento dos casos. "Quem te disser que nunca foi assediada está mentindo. É um ambiente absolutamente machista. Quando comecei, recebia diversos convites desnecessários. Ouvi de colegas que eu não precisava trabalhar, que podia ficar enfeitando o ambiente."

Andressa conta que a principal conquista do coletivo, criado em 2012, foi a extensão da licença paternidade de 5 para 20 dias. Agora lutam para que seja equivalente à licença maternidade, de 6 meses. Também conseguiram assegurar espaços de amamentação em boa parte das unidades da Petrobras e a redução de jornada para lactantes. "Criar o coletivo foi importante porque o ambiente sindical é ainda mais masculino do que o petrolífero. Até pouco tempo atrás, não tinha mulher dentro do sindicato. Hoje, já temos um número proporcional de mulheres na direção. As políticas de gênero passaram a ganhar mais importância".


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Paula*, técnica de segurança de uma empresa terceirizada em uma plataforma na Bacia de Campos, fez parte de uma equipe com outras três mulheres por 4 anos. Em uma reunião com o gerente, reivindicou melhorias nas condições de segurança e ouviu como resposta que ele deveria então simplesmente trocar aquela equipe por uma formada somente por homens. "Nesse século acontecer algo assim foi a coisa mais ridícula que já ouvi de um líder", diz.

As petroleiras entrevistadas pela reportagem denunciam uma piora drástica nas condições de trabalho ao longo dos últimos anos e um quadro de adoecimento mental generalizado dentre os trabalhadores, agravado na pandemia da Covid-19. A maior parte preferiu falar sob anonimato por temer retaliações da Petrobras. Elas descrevem uma "caça às bruxas" dentro da empresa. Um dirigente sindical do Sindipetro Caxias foi punido com uma suspensão após conceder entrevista ao jornal O Globo em junho deste ano, na qual afirmou que a explosão ocorrida na Reduc naquele mês foi causada por falhas de manutenção e inspeção na tubulação da unidade de destilação.

A Petrobras alega que o funcionário foi punido por descumprir a norma de confidencialidade de informações relativas a investigações do acidente.

A empresa também nega a precarização das condições de segurança das unidades: "Pelo contrário, podemos citar o aprimoramento do programa de auditorias internas de segurança operacional com o objetivo de combater desvios de segurança. Também tornamos mais rígidos os padrões de segurança para atividades de mergulho e de aviação, entre outras. As manutenções preventivas, realizadas justamente para evitar acidentes, são realizadas em intervalos de tempo definidos conforme regulamentação e as características de cada unidade".

Foram registrados ao menos dois suicídios de trabalhadores do setor neste ano: um petroleiro de uma refinaria da Bahia em setembro e outro no Rio de Janeiro em outubro, que estava em isolamento no quarto de hotel um dia antes de embarcar, conta Marcelo Juvenal Vasco, da secretaria de saúde da FNP (Federação Nacional de Petroleiros). "Temos muitos casos de trabalhadores depressivos e dependentes químicos. Não só pela condição do trabalho em si, mas também pela exposição a substâncias químicas que absorvem pelas vias aéreas e cutâneas. Existem estudos que evidenciam que essa exposição pode levar a transtornos mentais", diz.

A Petrobras afirma possuir um programa de treinamento e palestras com enfoque em saúde mental, e uma equipe multidisciplinar para atendimento. No período de pandemia, a empresa disponibilizou um canal interno para atendimento psicológico de forma remota e individual. Elita, no entanto, diz que as equipes de atendimento foram reduzidas e praticamente não embarcam mais, e o canal é pouco divulgado. O mesmo é dito por outra entrevistada, sob anonimato: "O serviço é absolutamente insuficiente, principalmente nas áreas operacionais. Esse programa de treinamento e as palestras com esse enfoque eu desconheço".

Monique conta que já viu uma colega desembarcar de uma plataforma com camisa de força, em surto. Foi afastada e nunca mais voltou ao trabalho. Também já passou por uma unidade, no ano passado, em que quatro funcionários estavam com síndrome do pânico.

Segundo ela, o começo da pandemia foi particularmente difícil: "Não tenho nem palavras para descrever. Todo mundo em casa e a gente tendo que embarcar, sem máscara, sem vacina, sem saber quem está contaminado. Não tinha transporte para irmos e voltarmos das plataformas. Hoje estamos bem, me sinto segura. Mas no começo ninguém sabia que tipo de medida de proteção tínhamos que tomar".

Elita foi contaminada com a Covid-19 no primeiro embarque. Ao contrário de alguns colegas infectados, ela não precisou ir para a UTI, mas ainda hoje sofre com as sequelas da doença. "Sentia muita dor no peito, na cabeça, no corpo todo. Precisei de repouso constante. Depois tive uma crise renal, fiz tomografia, expeli as pedras, mas os médicos suspeitam que tenha sido efeito colateral da doença."

Paula conta que os espaços de lazer nas plataformas foram fechados por questões sanitárias, prejudicando ainda mais a saúde mental dos trabalhadores. "A gente passa 12 horas trabalhando e 12 horas dormindo. Trabalhamos com metas, com prazos, sob muita pressão o tempo inteiro. Com esse desgaste, o trabalhador começa a sentir incapacidade, nessa carga excessiva de trabalho de 12 horas. Um bom profissional não quer atingir meta, quer o serviço feito com qualidade. O trabalho em confinamento não é para qualquer um. Vai acumulando até chegar no nível de estresse limite. O cliente não quer saber disso, só das metas. Você é só mais uma peça. Se não trabalha feito robô, não serve. Essa desvalorização que nos adoece."

Os cortes de gastos na estatal provocaram a diminuição no quadro de funcionários mas não no volume de trabalho, o que leva a situações de acúmulo de funções, denunciam os sindicatos. Com a pandemia, trabalhadores do grupo de risco foram afastados, diminuindo ainda mais o pessoal. Em meio à privatização de unidades da empresa, vivem sob a incerteza de serem transferidos para outras localizações e áreas de atuação.

Entre janeiro de 2019 e julho de 2020, a Petrobras abriu 48 processos de vendas de ativos, uma média de 2,5 por mês, de acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos). A média era de 1,4 por mês durante o governo Michel Temer e 0,4 por mês no último mandato de Dilma Rousseff, segundo reportagem da Folha de S. Paulo.

Sandra*, que trabalha como técnica de operação na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná, conta que, com a implementação do chamado estudo de O&M (Organização e Método), em 2017, a equipe foi reduzida em 40%. A metodologia do modelo, segundo ela, é questionada por especialistas da área de segurança do trabalho, e foi utilizada pela direção da Repar para justificar a redução do pessoal. Por causa disso, ela passou a monitorar mais operações ao mesmo tempo.

Em uma ocasião, percebeu e conseguiu conter por uma questão de minutos o aumento repentino na pressão de gás sulfídrico em um equipamento. "O risco de acidentes geralmente é controlado, no entanto com a sobrecarga esse tipo de evento torna-se mais frequente. Acidentes na indústria química têm um alto potencial de risco e uma possível contaminação poderia ter matado não só os funcionários, mas também quem vive nos arredores da refinaria", diz Sandra.

Para Elita, é uma questão de tempo até um acidente grave acontecer: "Faltam materiais, manutenções são declaradas mesmo sem a troca de todos os componentes, as unidades estão sucateadas. Equipamentos estão envelhecendo. Uma tubulação corroída, com vazamento, pode levar a uma explosão. A gente pode perder uma vida e todas ao mesmo tempo".

*Nomes foram trocados a pedido das entrevistadas

Publicado em Sistema Petrobrás

Você sabia que tem supervisor e até gerente na Reduc que, apesar do código de ética e de toda informação corporativa contra a discriminação, ainda acha que a operação não é lugar de mulher? 

[Da imprensa do Sindipetro Duque de Caxias]

Na Petrobrás, do efetivo total de trabalhadores, cerca de 16% são mulheres. Na área operacional, a quantidade de mulheres é ainda menor – chegando a 10% ou menos dependendo da unidade. Uma das possíveis razões talvez seja esse mesmo preconceito que atinge as mulheres, antes mesmo de realizar o concurso para preenchimento de vagas em cargos técnicos.

“Quando entrei ouvi alguns homens falarem que ali não era lugar de mulher, que deveria estar em casa cuidando do marido ou estudar para estar num lugar melhor. Estou há 12 anos provando o contrário. São sempre comentários revestidos de um caráter de cuidado por parte dos homens”, critica Andressa Delbons, técnica de operação da Reduc, diretora do Sindipetro Caxias e da Federação Única dos Petroleiros, além de coordenadora do Coletivo de Mulheres Petroleiras da FUP.

A diferença de tratamento é reforçada em períodos de retrocesso democrático, como esse que o Brasil e outros países do mundo enfrentam. E se afirma como uma reação do conservadorismo à conquista de direitos.

Quando a mentalidade predominante é de submissão, ela irá transparecer em todos os setores da nossa vida, negando não só a autonomia das mulheres mas também do país. Por isso vemos o Estado voltando a abrir mão da soberania nacional com ideais de privatização e sucateamento da educação, saúde… e isso também nos afeta.

Foi sob a gestão Temer que o subcomitê de diversidade – que é um requisito para que Petrobrás mantenha o selo pró-equidade de gênero, e que tinha uma representante das trabalhadoras, foi totalmente esvaziado. Um retorno desse fórum no governo Bolsonaro seria uma utopia, dada a ideologia do novo governo. Esse pensamento tacanho e retrógrado impacta no dia a dia das trabalhadoras e dificulta o avanço em questões fundamentais para a classe trabalhadora, como por exemplo o direito à amamentação. A partir desse fórum foi, por exemplo, expandida e facilitada a utilização das salas de amamentação em diversas unidades do Sistema Petrobrás.

Se você é homem e está parado no tempo, se atualize! Mas se você é mulher e se identificou ou já sofreu qualquer tipo de assédio dentro do local de trabalho, participe do Coletivo Nacional de Mulheres Petroleiras e vamos juntas combater este pensamento!


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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.