Por José Luís Fiori, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP)

Artigo publicado originalmente no jornal Le Monde Diplomatique

As grandes epidemias repetem-se através da história, mas não existe nenhuma explicação sobre sua periodicidade. E no caso da epidemia do Covid-19, ainda não se decifraram a origem, as variações do vírus, nem o desenvolvimento provável da própria pandemia, porque não se sabe se poderá haver recidivas nacionais até o desenvolvimento de medicamentos e vacinas eficientes. Por isso mesmo, nestes momentos de grande medo e imprevisibilidade, é comum que as pessoas utilizem comparações e analogias que parecem úteis num primeiro momento, mas que são parciais e às vezes prejudicam mais do que ajudam, como no caso da referência às duas crises econômicas de 1929 e 2008. Ou também a comparação com algumas pestes que teriam provocado grandes “rupturas históricas”, como foi o caso da Peste de Justiniano, no século VI, ou mais ainda, da Peste Negra, no século XIV, que matou metade da população europeia e parece ter contribuído decisivamente para o fim do sistema feudal.

É importante ter presente que as crises de 1929 e 2008 foram crises econômicas próprias do capitalismo, enquanto que a atual está sendo provocada por um fator que não obedece às “leis” da economia capitalista, mesmo quando possa provocar um estrago econômico e social equivalente ao das duas crises econômico-financeiras que são sempre lembradas quando se fala da atual epidemia do coronavírus. Da mesma forma, com relação à Peste Negra, o historiador inglês Mark Harrison chega a sustentar a tese de que teve um papel decisivo no nascimento dos Estados territoriais europeus. E é verdade que a Peste Negra forçou uma centralização do poder, e uma delimitação territorial que foi necessária para controlar o contágio e impor novas práticas higiênicas às populações que ainda viviam sob o sistema feudal.

Além disso, a tese de Harrison ajuda a entender a resposta “egoísta” dos Estados nacionais, através dos tempos, toda vez que se enfrentaram com epidemias infecciosas que se expandiram por cima de suas fronteiras territoriais. Mas mesmo que se possa estar de acordo com este tese a respeito da Peste Negra, é muito difícil dizer o mesmo de outras grandes epidemias mais recentes, como é o caso da febre amarela, do sarampo, da varíola, da malária, da tuberculose, ou mesmo do HIV ,que já atingiu e matou milhões de pessoas ao redor do mundo. Todas foram extremamente letais, mas não provocaram nenhum tipo de grande ruptura ou inflexão histórica.

Outra analogia muito comum é entre as epidemias e as guerras. É uma comparação muito forte e pode ser útil para mobilizar os atores sociais relevantes, mas existem algumas grandes diferenças entre elas. Ao contrário das guerras, as epidemias não costumam destruir equipamentos físicos e não têm um adversário visível capaz de produzir uma identidade coletiva, emocional, e uma solidariedade nacional que se imponha por cima das próprias classes sociais. Ao contrário, as epidemias contagiosas infectam os indivíduos, classes e países com distintas intensidades, e provocam reações defensivas do tipo “cada um por si”, exatamente ao contrário das guerras. Além disso, as guerras têm vencedores que impõem sua “paz hegemônica” aos derrotados, ao contrário das epidemias, em que não existem vitoriosos nem perdedores absolutos, e não existe nenhuma força material que induza qualquer tipo de acordo ou plano de reconstrução coletiva depois do tufão epidêmico. Hoje, muitos falam de um mundo novo que poderia nascer desta experiência traumática, e até apostam em mudanças humanitárias do capitalismo, mas a possibilidade de que isso ocorra é muito pequena.

De qualquer maneira, a epidemia do COVID-19 terá um impacto econômico imediato, como no caso das guerras. O que distingue o “novo coronavírus” não é sua letalidade, é a velocidade da sua expansão e seu impacto imediato sobre as taxas de desemprego que explodem em poucos dias. O vírus foi identificado na China no final do mês de dezembro de 2019, e em apenas três meses atingiu 200 países e já contagiou mais de um milhão e meio de pessoas. Alguns infectologistas preveem de 6 a 7 meses de duração da epidemia, e alguns economistas falam num impacto recessivo cuja duração pode chegar de 2 a 3 anos. Tudo dependerá da extensão e duração da epidemia nos Estados Unidos e na Europa, e da existência ou não de recidivas nos países que já controlaram o primeiro surto epidêmico. É provável que a queda do PIB norte-americano seja maior do que a da crise de 2008/09, mas ninguém deve enganar-se com relação ao próprio futuro americano. O epicentro da crise de 2008 foi nos EUA, e no entanto, durante a segunda década do século XXI, os EUA aumentaram sua participação no PIB mundial, de 23% para 25%, enquanto seu mercado de capitais crescia 250%, ficando com 56% da capitalização financeira global, com cerca de 90% das transações financeiras globais sendo feitas em dólares. Ou seja, não há nada que impeça que os EUA superem esta nova crise e recuperem rapidamente seu poder econômico, na frente de todos os demais países desenvolvidos, com exceção talvez da China.

De qualquer maneira, deve-se incluir neste ponto a outra grande dimensão desta crise mundial, a crise da indústria do petróleo, provocada pela queda da demanda mundial em consequência da própria epidemia, começando pela desaceleração da economia chinesa, e depois alastrando-se para toda a economia mundial, com um baque imediato do preço do barril de petróleo, que caiu de U$ 70 para U$ 23 b/p/d, flutuando depois em torno de U$ 30 b/p/d. Não se sabe ainda quanto tempo durará a epidemia, nem tampouco a recessão da economia mundial, nem se consegue prever o tempo da recuperação econômica depois da pandemia. Mas mesmo que as novas negociações entre a OPEP+ e o G20 cheguem a um acordo sobre novos níveis e produção e o rateio do corte entre os países produtores, é muito pouco provável que o novo preço seja superior a U$ 35 b/p/d.

Esse novo valor deverá ter um impacto gigantesco sobre a geoeconomia da produção mundial de petróleo. Neste nível de preços, é muito provável que a indústria americana do shale oil tenha que ser protegida pelo governo para não quebrar, e assim mesmo, o mais provável é que os EUA percam sua posição atual como maiores produtores mundiais de petróleo. Poderá haver uma grande perda de mercado por parte dos países produtores de mais altos custos, com a perspectiva imediata de uma nova crise da dívida externa soberana de países como Equador, México, Iraque, Nigéria, etc. Esses preços afetariam também a capacidade fiscal da Rússia e da Arábia Saudita, e atingiriam em cheio países que já estão sofrendo sanções dos Estados Unidos, como é o caso da Venezuela e do Irã, para não falar da própria Rússia. Seja como for, as perspectivas pela frente são muito ruins para o mercado mundial do petróleo e, como consequência, para o mercado financeiro globalizado.

Num primeiro momento, como em todas as grandes catástrofes e guerras, o Estado está sendo obrigado a centralizar as decisões e o planejamento sanitário e econômico do país, e está sendo obrigado a realizar intervenções econômicas “heterodoxas”, através do aumento de seus gastos em saúde, e ainda através da multiplicação pura e simples do dinheiro disponível para pessoas e empresas. Mas nada disto garante que depois da crise os governos desses países mantenham essa mesma política econômica, e esse mesmo “voluntarismo estatal” que se encontra na contramão do neoliberalismo dominante nas últimas décadas, no capitalismo ocidental. É muito provável que, depois da tempestade, as grandes potências revejam sua participação nas produtivas globais, sobretudo no caso de bens estratégicos. E é também muito provável que a China e a Rússia, e mais alguns países europeus, procurem aumentar seu grau de liberdade com relação ao sistema financeiro norte-americano, e aumentem o grau de proteção mercantilista de suas economias. Entretanto, no caso dos países periféricos, o mais provável é que, apesar de tudo, decidam enfrentar suas “dívidas da epidemia” negociando com o FMI e retornando a suas políticas anteriores de austeridade fiscal, com a venda acelerada de seus patrimônios públicos na “bacia das almas”, para poder “pagar as contas” deixadas pelo coronavírus.

Apesar da devastação econômica imediata provocada pela epidemia, o mais provável é que ocorram grandes rupturas geopolíticas dentro do sistema mundial. O que ela fará é acelerar a velocidade das transformações que já estavam em curso e que seguirão se aprofundando. Alguém já disse que é na hora das grandes pestes que se conhece a verdadeira natureza das sociedades, e o mesmo se pode dizer desta pandemia que está apenas desvelando o que já estava na nossa frente e que muitos não conseguiam ver, inclusive a retirada do último véu de hipocrisia da “ordem liberal” e da “hegemonia americana” do século XX.

O epicentro da epidemia já se deslocou para a Europa, e agora para os Estados Unidos, e não se sabe quanto durará, mas de fato a grande incógnita e o grande medo é com o que possa acontecer quando ela se expanda para os países mais pobres da África, do Oriente Médio e da América Latina. Até porque, como sempre acontece nas grandes crises, serão as grandes potências que se recuperarão na frente, começando pela China e pelos Estados Unidos. Por isso, o mais provável é que esta epidemia aumente a desigualdade e a polarização do mundo, que já vinham crescendo de forma acelerada desde a crise financeira de 2008. E deve acentuar a nova virada nacionalista do sistema interestatal que já vinha se manifestando desde o início do século XXI, e assumiu alta velocidade depois da eleição de Donald Trump. A Rússia deverá sofrer um novo baque econômico com a epidemia e com a crise da indústria do petróleo, mas isto não deverá afetar a nova posição que ela readquiriu como grande potência militar dentro do sistema mundial.

No caso da União Europeia, entretanto, a pandemia deve acelerar o seu processo de desintegração que entrou em alta velocidade depois do Brexit. A China, por sua vez. não deve alterar o curso do seu projeto expansivo programado para a metade do século XXI; pelo contrário, deve acelerá-lo aproveitando as oportunidades e brechas abertas pela decomposição europeia, e pelo distanciamento norte-americano de seus antigos aliados europeus. Por fim, depois da pandemia, a competição e os conflitos entre a China e os Estados Unidos devem aumentar em escala exponencial, sobretudo se Donald Trump for reeleito no mês de novembro de 2020, e se seguir em frente com sua decisão de estrangular a economia e a sociedade venezuelanas, através de sanções comerciais e financeiras, e agora através de um bloqueio naval que pode se transformar, em breve, no pé de apoio de uma invasão militar, ou de um bombardeio aéreo feito a partir de seus próprios navios que já estão mobilizados no Caribe. Seria a primeira guerra na América do Sul envolvendo as grandes potências militares do mundo. E seria talvez a primeira grande tragédia da história da América do Sul no século XXI.

[Via INEEP]

Publicado em Petróleo

Durante a quarentena, a FUP e seus sindicatos estão divulgando a hastag #ForaCastelloBranco nas redes sociais. O objetivo é denunciar a gestão da Petrobrás por se aproveitar da crise do coronavírus para acelerar o desmonte da empresa, quando deveria estar contribuindo para minimizar os impactos sociais e econômicos da pandemia no Brasil.

Em vez de cumprir a sua função pública de garantir o abastecimento do povo brasileiro e agir com responsabilidade social nesse momento de crise humanitária, a Petrobrás é conduzida na direção contrária. A gestão Castello Branco está paralisando mais de 50 plataformas de petróleo e aumentando ainda mais a subutilização das refinarias, enquanto o povo brasileiro paga preços de importação nos combustíveis que consome.

A capacidade das refinarias da Petrobrás, que já havia sido reduzida a menos de 70%, agora está abaixo da metade, como denunciam os coordenadores dos sindicatos filiados à FUP.

Nos estados do Nordeste, a gestão da empresa quer desativar praticamente todas as suas unidades, como acontece no Ceará, onde a Fábrica de Lubrificantes do Nordeste (Lubnor) foi colocada à venda e as nove plataformas do estado, paralisadas, o que resultará no fechamento de mais de 2,5 mil postos de trabalho diretos e indiretos. 

O mesmo acontece na Bahia, no Rio Grande do Norte, Pernambuco e várias outras regiões do Nordeste. O impacto econômico desse desmonte é ainda maior diante da crise gerada pela pandemia do coronavírus. 

Num momento como este, a gestão da Petrobras deveria estar subsidiando o gás de cozinha, cujos preços continuam abusivos, mesmo com as reduções dos preços dos derivados nas refinarias. A empresa poderia garantir o abastecimento de ambulâncias e geradores de hospitais, fornecendo combustíveis a custo zero, por exemplo. A gestão, no entanto, mantém os estoques das refinarias cheios, forçando a paralisação das unidades.

 

A pandemia da Covid-19 confirma o quanto o Estado é importante no enfrentamento e superação de crises. Castello Branco continua na direção contrária, comprometendo o futuro do país, ao condenar a Petrobras a um papel cada vez mais irrelevante no cenário nacional e mundial.

#ForaCastelloBranco

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[FUP]

Publicado em Sistema Petrobrás

Estratégia geopolítica une árabes, russos e chineses para tentar parar o crescente poder do continente americano no mundo do petróleo

Artigo de Rodrigo Leão, coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep)

[Publicado originalmente  em El País]

A tão aguardada reunião da Opep+, grupo que reúne os membros da Opep e outros onze países produtores liderados por Rússia, México e Oman, que aconteceu na última quinta-feira (09) e teve seus termos ratificados no domingo (12), deve ter grandes impactos para os maiores produtores do continente americano, incluindo o Brasil. A expectativa de que ocorreria um corte substancial da produção de petróleo em consonância com a brusca queda da demanda foi frustrada.

Por trás dessa estratégia, está uma disputa em torno de quem ditará as regras do mercado mundial de petróleo nas próximas décadas.

Segundo estimativas da Rystad Energy, o consumo de petróleo no mundo deve cair cerca de 27,5 milhões de barris por dia neste mês de abril, (uma queda de cerca de 28% da demanda global) e cerca de 19,1 milhões de barris por dia no mês de maio. Por isso, as expectativas eram de que a Opep+ estabelecesse um acordo de corte inicial de produção de, pelo menos, 15 milhões de barris por dia. Mas, o acordo fechado na reunião foi de apenas 10 milhões de barris por dia. O que isso significa?

Significa que, nos próximos dois meses, a produção mundial de petróleo deve ficar num patamar (90 milhões de barris por dia) ainda muito superior ao consumo petróleo (76,5 milhões de barris por dia). Ou seja, a menos que outros grandes produtores façam um esforço semelhante ao da Opep+, o mundo será inundado de petróleo barato.

O corte aquém do esperado foi explicado, em primeiro lugar, pelo fato de alguns países, principalmente o Irã e o México, criarem dificuldades até mesmo para aceitar essa redução mais modesta, de 10 milhões de barris por dia. Segundo matéria do Wall Street Journal, os representantes mexicanos deixaram a reunião antes de o acordo ser concretizado. E, em segundo lugar, pelo desejo da Opep+ de forçar que EUA, Canadá, Brasil, Colômbia e Noruega também participem do corte de produção a fim de equilibrar a oferta e a demanda global de petróleo.

Pode-se entender o resultado da reunião como uma espécie de “resposta geopolítica” da Opep+ à escalada dos produtores do continente americano, principalmente dos EUA e seus aliados.

Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) mostram que, em 2013, a Opep representava 40,2% da produção global de petróleo, enquanto EUA, Canadá, Brasil, Colômbia e Noruega (América+1) participavam com 23,7%. Em 2019, a fatia detida pela Opep caiu para 35,1% e a do grupo América+1 subiu para 28,1% e mais grave: a projeção em 2025 era que a participação da América+1 ficasse num patamar muito próximo ou quase igual ao da Opep (cerca de 32-33%).

Esse foi apenas mais um sinal de que a Opep+ não assistirá passivamente à ascensão dos países desse grupo como protagonistas do mundo do petróleo. A abrupta queda do preço do barril no começo do mês de março; a declaração do Ministro de Petróleo do Irã, Bijan Zabganeh, no começo de abril, de que a reunião da Opec+ somente deveria ocorrer depois que EUA e Canadá sinalizassem o corte de produção que pretendiam fazer; e o adiamento da realização da própria reunião foram outros sinais de que o bloco liderado por sauditas, russos e iranianos não estão dispostos a perder sua condição de coordenar os rumos da produção e do preço global do petróleo.

Nesse cenário, não pode ser esquecido o papel relevante da China que, logo antes da reunião, comprou um volume gigantesco de petróleo para estoque, principalmente da Arábia Saudita. Com isso, o país asiático, além de transferir uma cifra considerável para os sauditas, contribuiu para que a retomada da demanda global seja ainda mais lenta do que o esperado anteriormente.

Ao tudo que indica, a despeito das diferenças do posicionamento geopolítico de Rússia, Irã e Arábia Saudita, momentaneamente forma-se uma aliança entre a Opep+ e a China para que os Estados Unidos e seus vizinhos aliados percam ou – pelo menos não aumentem – sua influência nas decisões-chave do mundo do petróleo. O próprio acordo já impõe novas obrigatoriedades aos produtores americanos.

O Brasil, que já havia anunciado um redução de 200 mil barris por dia da sua produção, pode realizar cortes ainda maiores. Os Estados Unidos garantem que compensarão os cortes de produção que deveriam ser feitos pelo México. E o Canadá assevera que continuará reduzindo sua produção. Aliás, o próprio Ministro de Recursos Naturais do Canadá, Seamus O’Regan, presente na conferência realizada entre os países do G20 na sexta-feira (10), reconheceu que, independente do resultado do acordo, o Canadá seria obrigado a continuar reduzindo sua produção em Newfoundland, Alberta e Saskatchewan.

O acordo para os cortes de produção gera outros tipos de preocupações para os produtores dos Estados Unidos e de seus vizinhos.

Em razão das características da produção de Brasil, Colômbia e Noruega, cortes abruptos podem ter consequências graves no médio prazo, principalmente quando esses países decidirem colocar o “pé no acelerador” novamente. Embora EUA e Canadá tenham maior flexibilidades para ajustar a produção, suas empresas de pequeno e médio porte terão grandes dificuldades para resistir a uma crise de médio prazo na produção.

Por isso, as avaliações sobre o tempo de retomada do consumo interno e a capacidade de atuar de forma verticalizada, a fim de atender seus próprios mercados são chave para que esses países e suas empresas consigam sobreviver a essa tempestade. Tempestade que não deve ser curta. Ainda mais quando seus adversários estão dispostos a prolongá-la o tempo que for necessário.

[Via Ineep]

 

Publicado em Petróleo

Desde o início do ano, com a expansão da covid-19, o mundo vive uma retração econômica e, consequentemente, diminuição da demanda internacional por petróleo. Em decorrência disso, no dia 9 de março, os mercados entraram em colapso com a chamada “Guerra do Petróleo”. Somente nesta data, o preço do barril caiu de U$S 45 para U$S 31,52 em poucos segundos de funcionamento das bolsas de valores.

Para o diretor do Instituto de Energia e Ambiência da Universidade de São Paulo (USP), Ildo Sauer, a explicação dessa conjuntura não pode ser apenas colocada na conta da pandemia. De acordo com o pesquisador e ex-diretor de Gás e Energia da Petrobrás, “o coronavírus foi um mero estopim, uma pólvora detonadora dessa crise”.

Segundo o pesquisador, o que está no centro desse movimento é a consolidação da hegemonia da Arábia Saudita e da Rússia na geopolítica do petróleo. Juntos com os outros países que integram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), são responsáveis por cerca de 40% da produção mundial, o que representa 90% das exportações de petróleo.

“A Arábia Saudita diz que pode impor qualquer preço, já que tem condições de produzir petróleo barato e não quer assumir sozinha o ônus de produzir menos, enquanto produtores menos eficientes exportam em grandes quantidades”, explica Sauer.

Por produzirem petróleo a custo baixo e possuírem grandes reservas financeiras, Arábia Saudita e Rússia aumentaram o ritmo de produção e, consequentemente, diminuíram drasticamente o preço internacional do barril. Com isso, deram um “choque no mercado”, acrescenta Sauer, especialmente nos produtores do shale oil norte-americanos, com elevado custo de produção.

Nesse cenário, o pesquisador afirma ainda que as últimas gestões da Petrobrás estão caminhando no sentido oposto aos interesses de sua maior acionista: o povo brasileiro. Recordando seu artigo “Pré-sal e Petrobrás além dos discursos e mitos: disputas, riscos e desafios”, critica o modelo de concessão e de partilha. Na sua opinião, a única opção é a contratação direta da Petrobrás.

Os resultados dessa política, para Sauer, devem ser investidos em áreas com carências muito anteriores à crise do coronavírus: “saúde pública, educação pública, infraestrutura, proteção ambiental, ciência e tecnologia”.

Confira abaixo a entrevista concedida ao jornalista Guilherme Weimann, para o Sindipetro Unificado de São Paulo: 

O preço internacional do barril do petróleo sofreu uma queda brusca e muitos especialistas apontam o coronavírus como fator determinante. Qual a sua opinião sobre esse cenário?

Eu acho que são duas situações que “se reforçam mutuamente”. De um lado, obviamente, a crise econômica decorrente da pandemia é um fator extremamente relevante para o contexto da demanda do petróleo. Redução na atividade econômica, na circulação de pessoas e nas mercadorias determinam, obviamente, uma redução na demanda. Esse é primeiro fator, inquestionável, extremamente relevante.

Mas, o mais relevante, sem dúvida nenhuma, é o processo geopolítico de determinação do preço do petróleo para o qual tem papel decisivo, ainda, a OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo]. E, de uma certa forma, não diria que oportunisticamente, mas que esta é uma coincidência que serve para reforçar a hegemonia ainda relevante da OPEP na formação de determinação do preço do petróleo. Especialmente, está sendo reafirmado aquilo que já está enunciado e anunciado há algum tempo.

A OPEP mais a Rússia responde por mais de 40% da produção mundial de petróleo que é exportado. Os demais 60%, aproximadamente, são produzidos localmente, inclusive pelo maior produtor, até agora pelo menos, que são os Estados Unidos. Em função da produção do shale oil, [os EUA] tornaram-se os principais produtores mundiais, mas ainda continuam importadores. Fora da OPEP e da Rússia, que em 2016 e 2017 fizeram um acordo de cooperação, colocam-se como relevantes México, Canadá e Brasil. A produção da Rússia e a OPEP representa cerca de 40% do petróleo consumido no mundo antes da crise, porém o valor chega a cerca de 90% do petróleo que circula, sem os quais o mundo não consegue atender sua demanda por combustíveis líquidos.

Mas vamos fazer uma conta. O mundo consumia, antes da crise [do coronavírus], 100 milhões de barris por dia, o que representa aproximadamente 37 bilhões de barris por ano, que tem gerado um excedente da ordem de U$S 50 a U$S 60 por barril. Na Arábia Saudita, o custo de produção, sem impostos e taxas, é U$S 2 e, no Brasil, U$S 8 por barril. Já na Rússia existe um preço intermediário entre esses dois países. Neste contexto, o excedente econômico mundial apropriado pelos países, que vira lucro para as empresas e impostos para financiar os estados nacionais, situa-se na ordem de U$S 2 trilhões a U$S 2,5 trilhões por ano, num PIB mundial de cerca de U$S 80 trilhões e um excedente, um superávit, de menos de 10%, ou seja, na ordem de U$S 6 a U$S 8 trilhões por ano. Esse é o quadro.

Qual o papel específico da Arábia Saudita nesse contexto?

A Arábia Saudita é a líder, porque é a maior produtora mundial da OPEP. A OPEP foi fundada por iniciativa da Venezuela e da Arábia Saudita da década de 1960, e teve dificuldade de impor seu poderio nos choques de 1973 e 1979. Mas em 2014 e 2015, o então ministro da Arábia Saudita dizia que, a partir daquele momento, seu país não seria mais o carregador do piano sozinho. A Arábia Saudita passaria a compartilhar o ônus, ou seja, estruturar cotas de produção com países membros ou não da OPEP. Foi chamada à conferência a Rússia, o Canadá, o México, e o Brasil, que nem sequer chegou a responder naquela ocasião, já no governo Temer.

Com isso, quando a Arábia Saudita diz que pode impor qualquer preço, já que ela tem condições de produzir petróleo barato e não quer assumir sozinha o ônus de produzir menos, enquanto produtores menos eficientes exportem em grandes quantidades. O resultado dessa discussão foi que a Rússia se juntou à iniciativa e criou, em 2017, a OPEP+. Esse “+” significa “outros”, em especial, Rússia e México. Brasil e Canadá não participaram.

Já nesta época, para demonstrar sua força, a Arábia Saudita impôs uma diminuição nos preços, que chegou a U$S 30. O que deixou a mensagem de afirmação do poder hegemônico da OPEP. Isso gerou uma enorme crise na produção do shale oil americano e nos biocombustíveis. Além disso, esse movimento teve um efeito devastador para o Irã, que, naquela ocasião, estava voltando a querer exportar. A flutuação naquele momento ocorreu por uma decisão política, geopolítica da Arábia Saudita, como agora novamente.

A Arábia Saudita está dizendo que não vai ficar com o ônus apenas para ela. E a Rússia responde que poderia resistir por até 10 anos com os preços baixos. Então, são países que acumularam reservas financeiras enormes e podem manter a guerra.

Quais são os efeitos reais dessa queda no preço do petróleo no cenário geopolítico?

O impacto foi devastador, está sendo. Uma grande empresa de shale oil dos Estados Unidos já anunciou a falência, outras estão reduzindo drasticamente suas operações. O que significa que a reunião entre o príncipe herdeiro do reino da Arábia Saudita com o Trump foi um grito de socorro. E por quê?

A indústria norte-americana de shale oil, criada nos últimos 10 anos, tem capacidade de produzir 10 milhões de barris de petróleo, ou seja, quatro vezes a capacidade da Petrobrás. E ela está quebrando. A queda do preço tem um efeito devastador nessa cadeia produtiva que não vai voltar. Não é como apagar a lâmpada e ligar novamente. Depois que demitem e quebram as empresas, não tem como retomar instantaneamente.

Isso são ondas de choques que estão ocorrendo a cada cinco anos. A primeira foi em 2015, a segunda é essa de agora. E esse movimento parece seguir a estratégia de reforçar a hegemonia da OPEP e de sua liderança principal, a Arábia Saudita. Seja em cooperação, seja em disputa com a Rússia.

O que está acontecendo então é uma queda de braço para mostrar quem domina o mercado?

Nós já aprendemos há muito tempo que o sistema capitalista não funciona em condições de concorrência pura e perfeita, como pareciam anunciar os neoclássicos e depois os liberais. O que impera é a cooperação ou a disputa baseada na teoria dos jogos, cooperativos ou não cooperativos. Então, agora, havendo cooperação entre Rússia e Arábia Saudita, ou havendo uma disputa, estão sofrendo para suportar essa queda temporária, mas ao mesmo tempo também estão sendo premiados porque mostra que detêm o poder de mando sobre esta questão no mundo.

Juntos os dois países estão perdendo cerca de U$S 100 milhões por dia ou aproximadamente U$S 3 bilhões por ano. Mas eles têm reserva e estão passando uma onda de choque aos países marginais. Eles estão mandando uma mensagem ao shale oil americano, mas também ao Brasil, e isso é importante a gente pontuar.

Qual a mensagem que eles estão passando ao Brasil neste momento?

Os contratos de partilha outorgados pelos governos de Fernando Henrique Cardoso, do PT [Partido dos Trabalhadores], mantidos por Temer, e agora por Bolsonaro, na tentativa do [ministro da Economia Paulo] Guedes de reforçar e aprofundar a liberalização, não são de interesse nacional. Muito menos o modelo de concessão. A única solução estratégica geopolítica para o Brasil é contratar diretamente a Petrobrás para num regime de serviços, como permite a lei, produzir o volume de petróleo que o país venha a necessitar. E exportar junto com a Rússia, México e Canadá, formando a OPEP+ reforçada, para gerar excedente necessário para o Tesouro Nacional e para investir nas necessidades nacionais.

E essas necessidades já existiam antes do coronavírus, que são saúde pública, educação pública, infraestrutura, proteção ambiental, ciência e tecnologia. De maneira que o aprendizado que podemos tomar dessa crise, assim como ocorreu em Yom Kippur [referência à guerra do petróleo, de 1973], é que o coronavírus foi um mero estopim, uma pólvora detonadora dessa crise.

Estes episódios são meras espoletas, detonadores, eles não são as pólvoras em si. O poder de explosão resulta da condição geopolítica hegemônica dos países da OPEP, que são treze países, mais Rússia, mais Canadá, mais México, mais Brasil, como potências determinantes na questão do petróleo. Infelizmente, o Brasil não tem política e nem estrutura estratégica à altura dos seus interesses nacionais.

As refinarias da Petrobrás já estavam sendo subutilizadas e oito delas já haviam sido colocadas no “plano de desinvestimento” da companhia. Agora, elas reduzirão suas cargas pela metade, com a justificativa de queda na demanda por derivados. Qual a sua avaliação sobre isso?

Primeiro, não podemos ignorar que o maior excedente econômico, o maior lucro, a maior renda vem da produção do petróleo. Agora não podemos negligenciar, por razões econômicas e estratégicas para o país, a indústria do refino e a logística. São setores estratégicos e econômicos muito importantes. Não para produzir lucro e excedente, porque o lucro das refinarias é o lucro médio pautado pela concorrência internacional do refino. Sua indústria é convencional, tem um lucro maior quando tem uma demanda crescente, e tem um lucro menor quando tem uma menor procura.

No Brasil, em 2014, ainda no governo de Dilma Rousseff, houve uma política desastrosa na qual a Petrobrás implementou de exportação de óleo cru e importação de derivados, chegando a uma ociosidade de 75% das nossas refinarias, espaço tomado pelos especuladores do mercado internacional de derivados. Isso foi criminoso contra o interesse econômico e estratégico brasileiro. Essa é uma consideração importante.

Há uma perda econômica nisso porque a Petrobrás deixa de cumprir o seu papel, deixa de gerar dividendos e benefícios econômicos para o país. E deixa também de atender com segurança a demanda brasileira em benefício de grandes companhias que estão comprando redes de postos no Brasil. Essas companhias, como a Trafigura, estão comprando postos no Brasil para venderem derivados importados em detrimento da capacidade de refino no Brasil.

Há seis anos esse movimento ocorre de forma criminosa. Essa política vem se mantendo desde então. A Petrobrás vem se mantendo nessa postura omissa. Não sei o quanto isso significa de estratégia do Ministério ou se é somente da Petrobrás. Mas essa conivência é desastrosa para o país.

O segundo ponto é que a exportação de petróleo só deve ser feita pelo Brasil com preços compensadores, para gerar excedente econômico necessário para um plano nacional de desenvolvimento econômico e social, para investir na saúde e educação pública.

Qual a sua opinião sobre a política de preços adotada pela Petrobrás nos últimos anos?

Nós devemos, sim, cobrar no mercado interno preços próximos dos internacionais, porque o petróleo pertence ao povo brasileiro, inclusive àqueles que andam a pé, que não têm carro. Então, o petróleo é do povo brasileiro e os derivados devem ser produzidos não para beneficiar os acionistas da Petrobrás, nem para os demais atores do processo. E, sim, para gerar renda econômica para o país, para o tesouro, e para investir nessas áreas estratégicas. É por isso que eu defendo o contrato de serviços da Petrobrás que leve em consideração o custo da produção, mais o excedente que pode chegar a 100%, para conseguir pagar regiamente os trabalhadores, e manter a atualidade tecnológica.

Mas, ao contrário disso, Brasil está acelerando a exportação a qualquer preço, o que é um crime contra a economia popular. O país deveria reduzir drasticamente a produção agora, não para proteger os acionistas, mas acima de tudo a riqueza pública do Brasil que está nos campos de petróleo, que pertencem ao povo brasileiro. Essa riqueza pertence ao povo e não à Shell, a Exxon ou a Total. Essa é a política que vai contra os interesses nacionais e está sendo aprofundada com esse governo que é subserviente ao capital privado e ao Trump.

No acumulado do ano, a gasolina caiu 43% nas refinarias, mas apenas 1,58% nas bombas; o diesel teve queda de 30%, mas apenas 5,1% nos postos; o gás de cozinha diminuiu 21%, mas subiu 0,5% nas distribuidoras. Por que essas reduções não se refletiram aos consumidores finais?

Isso demonstra o desastre do atual governo. O câmbio explodiu, fazendo com que em reais o preço internacional de referência continuasse elevado aqui dentro. Mas o meu debate é que nós podemos praticar preços próximos do valor, sem negligenciar a hipótese de preços melhores para beneficiar setores estratégicos, desde que essa renda vá para pagar a conta social. Ou seja, para melhorar a saúde e educação. Não para o que fez a Petrobrás, ou seja, facilitar o lucro dos acionistas privados, das petroleiras internacionais e das operadoras e distribuidoras.

Hoje, existem muitos mercados paralelos de petróleo, os chamados páreas internacionais. Eles vêm vender derivados com o preço do mercado internacional aqui no Brasil. Esse é um quadro muito complexo que emergiu e a minha defesa dos preços para próximos dos internacionais, com estabilidade, é para gerar dinheiro para resgatar a dívida social.

O segundo ponto é que o governo tem sido omisso e incapaz de fazer a logística da distribuição. Com a saída da Petrobrás, o mercado está monopolizado por grupos privados, que estão operando esse oligopólio em favor deles próprios. Quando o preço cai eles demoram para repassar ao consumidor, quando o preço aumenta eles valorizam todos os estoques existentes vindos da Petrobrás, mesmo tendo sido comprados por um valor mais baixo. Com isso, eles conquistam um lucro enorme. Mas isso demonstra um fracasso brutal do governo e da Agência Nacional do Petróleo [ANP], mostrando que a política de preços é absolutamente equivocada.

Você acredita que esse cenário foi agravado com a privatização da BR Distribuidora?

Sim, deveria ser instrumento de investigação essa entrega da BR Distribuidora. Como o governo vende o controle acionário de uma empresa de interesse estratégico como era a BR Distribuidora, que detinha mais de um terço do mercado brasileiro e, portanto, era instrumento de comportamento menos agressivo contra o interesse público? Isso demonstra a subserviência dos últimos governos ao capital privado.

O capital quer entrar em todos os setores, inclusive nas refinarias, mas não quer fazer novas refinarias. Eles querem adquirir por preços aviltados as refinarias e participar da logística. Esse quadro é grave, tem piorado e tende piorar ainda mais agora.

A solução para isso passa, obviamente, pela mobilização da população para transformar isso tudo. Não pode ser apenas setorial. Saúde, educação, infraestrutura, energia elétrica têm sido transformadas em detrimento dos interesses da população brasileira.

Nas últimas semanas, a Petrobrás anunciou dois documentos que ela denominou como “medidas de resiliência”, que incluem cortes de direitos trabalhistas, diminuição de investimentos e redução da produção em 200 mil barris diários. Qual a sua avaliação sobre essas medidas?

Reduzir a produção para não vender por esses preços aviltados me parece que não estão equivocados. Embora as razões pelas quais eles estão tomando essa decisão são sejam as mesmas pelas quais eu as faria. Mas, de fato, não há por que jogar petróleo no mercado agora. Também deveriam cobrar das demais petroleiras que estão operando aqui a mesma coisa. Não dá para vender o petróleo brasileiro, que pertence ao povo, a esse preço aviltado.

Quanto aos salários, o maior patrimônio da Petrobrás que, inclusive, gerou a grandeza dela, que descobriu o pré-sal, que construiu isso tudo, foi o conjunto dos seus trabalhadores. Desde os técnicos operacionais, das unidades de produção, aos cientistas e aos gestores. De maneira que é uma punição injusta e inaceitável. E por um outro motivo também, porque no momento que você está com queda econômica do país a solução é manter o poder aquisitivo de todos os trabalhadores, incluindo os da Petrobrás. Essa é uma medida completamente equivocada, que visa apenas sinalizar aos acionistas, que só veem o curto prazo. Uma ação subserviente da direção contra os interesses estratégicos da Petrobrás.

[Via Sindipetro Unificado-SP  | Foto: Guilherme Santos/Sul21]

Publicado em Petróleo

 

Adriano Pires, conhecido analista que defende os interesses das empresas internacionais de petróleo no Brasil, termina seu artigo no blog Poder 360 com uma frase de Lulu Santos: 

“Tudo passa, tudo sempre passará”.

Ele parece esquecer as duas frases anteriores desta na bela canção “Como uma onda”: 

Nada do que foi será De novo do jeito que já foi um dia”

Adriano Pires, da mesma forma que vem fazendo desde a década de noventa do século passado, quer continuar defendendo na política petroleira e para o gás tudo do jeito que já foi um dia.

Propõe o aprofundamento da atual politica de desmonte do aparato produtiva do Estado no setor de petróleo e gás, com a manutenção do calendário das rodadas de entrega das áreas, extinção do modelo de partilha, redução da política de conteúdo local, redução de royalties dos campos maduros, aceleração das licenças ambientais, manutenção da venda das refinarias, aumentar impostos sobre os preços dos derivados para arrecadação fiscal, com a redução dos preços nas refinarias.

Mas “nada do que foi feito será de novo do” velho jeito. Manter o calendário das rodadas neste momento vai exigir uma profunda redução de bônus de entrada e aceitação de baixas participações no lucro-óleo, entregando as riquezas futuras para as empresas internacionais a preços extremamente baixos. O mercado internacional está contraindo seus investimentos exploratórios e só “oportunidades excelentes” – para as empresas internacionais – atrairão investimentos neste momento. 

Ao contrário, deveríamos retardar as rodadas, para esperar momentos melhores momentos e eventualmente obter maiores recursos de curto prazo, para compensar a entrega de riquezas de longo prazo.

A proposta de extinção do modelo de partilha só se justifica se a intenção for realmente reduzir a parcela do governo na renda petroleira e aumentar a parcela dos ganhos para as empresas internacionais. Elas estão acostumadas a trabalhar, tanto com contratos de partilha de produção, como com concessões – e até com contratos de serviço -, movendo-se pelas oportunidades de acesso a potenciais reservatórios, em função da economicidade esperada em cada momento.

A partilha de produção não transfere a propriedade do petróleo para o produtor, enquanto na concessão esta transferência é efetivada. A questão essencial é o grau de controle estatal sobre a produção nos dois tipos de contrato: a partilha permite maior controle estatal. Adriano Pires quer menos.

No que se refere à política de conteúdo local, não há dúvidas sobre as dificuldades da engenharia pesada nacional e sua capacidade de fornecer os equipamentos e serviços necessários para o gigantesco desafio de expansão da produção do pré sal brasileiro.

A situação econômica das empresas, preços declinantes e crises de financiamento, além dos efeitos da operação Lava Jato sobre a viabilidade física da existência destas empresas, requerem uma certa adaptação desta política, mas não seu desaparecimento, ainda que gradativo, como sugerido pelo autor.

As vendas dos campos maduros, em terra e no mar, serão ainda mais estimuladas com a redução dos royalties cobrados. Acredito que esta proposta de redução, “inclusive de forma retroativa”, tem mais como objetivo mais facilitar as vendas dos campos maduros da Bacia de Campos, do que do nordeste brasileiro.

Em termos de fluxo de caixa, aqueles com resultados positivos não deveriam sequer estar sendo colocados à venda neste momento. Por outro lado, no Nordeste, os ganhos financeiros deste desinvestimento serão muito pequenos em relação ao enorme impacto negativo sobre as economias regionais.

A aceleração das licenças ambientais, apesar de reivindicado pelas empresas, tem provocado o aumento dos riscos ambientais com consequências imprevisíveis. A melhoria dos seus procedimentos deveria ser a meta e não sua pura e simples aceleração.

Na contramão do mundo, o autor parece estar de pires na mão, querendo manter o programa de venda das refinarias, em uma conjuntura de profunda incerteza sobre a dinâmica futura do mercado, com as empresas com problemas de caixa e com o mercado brasileiro se contraindo.

As vendas serão na bacia das almas e o capital investido será destruído, com sua transferência da propriedade destas refinarias para os compradores a preços muito baixos.

Quanto aos preços dos derivados, a ideia de um colchão regulador dos preços já foi tentada no Brasil, com a CIDE, e talvez a melhor política fosse a manutenção da integração vertical da empresa estatal Petrobras, uma política amortecida de ajuste dos preços internos aos preços internacionais e o acompanhamento cotidiano do comportamento dos preços nas bombas para ajustar a política de preços da companhia.

Por fim, a dissonância de Adriano Pires se apresenta também na sua análise macroeconômica. Para ele, as disputas geopolíticas da Arábia Saudita-Rússia e EUA são meras “desavenças” e a crise mundial vem somente da crise do coronavírus na China.

Esquece os sinais, anteriores à atual pandemia, da tendência de contração da atividade econômica, expansão de uma bolha especulativa devido ao acúmulo dos ganhos financeiros, concentrador dos enormes fluxos econômicos do mundo. Quanto ao Brasil, vale a pena continuar com a canção de Lulu Santos:

Não adianta fugir Nem mentir Pra si mesmo agora Há tanta vida lá fora

A crise brasileira não vem principalmente da crise externa. Ela se agrava pela falta de política econômica adequada do atual governo, numa fé cega na ideologia do mercado, que abandonou as possibilidades de intervenção produtiva das politicas públicas, que desmontou os instrumentos de política social e que, no momento da pandemia, atrasa a implantação dos instrumentos emergenciais aprovados pelo Congresso, com o apoio dos governadores, e a resistência do governo de Bolsonaro. 

Querer fazer mais do mesmo, quando o mundo está em frangalhos, só fará agravar a crise. Isto vale para o mundo, para o Brasil e especialmente para o setor de petróleo e gás.

Jose Sergio Gabrielli de Azevedo é ex-presidente da Petrobras e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep).

Foto: Agência Petrobras

Artigo originalmente publicado em https://revistaforum.com.br/noticias/irresponsavel-politica-para-a-covid-19-e-para-o-petroleo-por-sergio-gabrielli/

[Por Nicola Pamplona, na Folha de São Paulo]

Enquanto busca soluções para lidar com a pandemia de coronavírus e a queda do preço do petróleo, a Petrobras está propondo a seus acionistas triplicar o teto para pagamento de bônus a sua diretoria. A medida provocará um aumento de 26,6% na projeção de gastos com salários e benefícios dos executivos.

A proposta, que será debatida em assembleia de acionistas agendada para o dia 22 de abril, já contempla mudança feita na política de remuneração variável da companhia adotada em 2019 e criticada por sindicatos, por ampliar a diferença entre a premiação dos executivos e a dos demais trabalhadores.

O documento foi protocolado na sexta-feira (20), no mesmo dia em que a estatal informou que vai recorrer a US$ 8 bilhões (cerca de R$ 40 bilhões) de linhas de crédito para enfrentar a crise, que levou o petróleo a bater na semana passado os níveis mais baixos em 17 anos.

A Petrobras afirmou que a crise do coronavírus poderá causar restrições à saúde de sua força de trabalho, com reflexo na operação de algumas de suas instalações, causando impacto negativo em seus resultados e condição financeira.

Segundo o documento enviado aos acionistas sobre o bônus, a Petrobras propõe desembolsar R$ 43,3 milhões para pagar salários, benefícios, bônus por desempenho e encargos a seus administradores no período entre abril de 2020 e março de 2021. No mesmo período do ano anterior, foram R$ 34,2 milhões.

No texto, o presidente da companhia, Roberto Castello Branco explica os salários não serão reajustados - para eles, a Petrobras reservou R$ 14,1 milhões, uma média de R$ 120 mil (incluindo décimo terceiro) por diretor.

Segundo ele, 91% do aumento do bônus corresponde à provisão para remuneração variável, item que compreende desempenho. A proposta mais que triplica o teto de gastos para o pagamento dos bônus, que passa de R$ 3,3 milhões em 2019 para R$ 12,5 milhões.

Desse total, segundo a empresa, R$ 700 mil referem-se a uma parcela da remuneração variável de 2018, que foi dividida em quatro prestações. Assim, a projeção de prêmios pelo desempenho de 2019 é de R$ 11,8 bilhões, mais do que o dobro dos R$ 5,5 bilhões (considerando as parcelas que ainda restam) de 2018.

Daria uma média de R$ 1,3 milhão por diretor, incluindo os encargos. A Petrobras diz, porém, que o valor que final ainda está sendo apurado. Em nota, informou apenas que as projeções consideram o centro das metas previstas no programa de remuneração —que garante dez salários de bônus ao presidente e aos diretores.

OUTRO LADO

Em nota enviada à Folha, a Petrobras defende que o pagamento dos bônus "refere-se ao cumprimento de metas desafiadoras estabelecidas para o ano de 2019". No ano, a estatal teve lucro recorde de R$ 40 bilhões, impulsionado pela receita obtida com venda de ativos como gasodutos e ações da BR Distribuidora.

O aumento na premiação dos executivos é fruto do Programa de Prêmio por Performance, instituído em 2019 em substituição à antiga PLR (Participação nos Lucros e Resultados). Segundo a estatal, o novo modelo "visa valorizar a meritocracia e trazer flexibilidade para um cenário em que a empresa busca mais eficiência e alinhamento às melhores práticas de gestão".

O sistema foi criticado por sindicatos de petroleiros por ampliar a distância entre os valores pagos ao alto comando da companhia e os empregados de menor remuneração.

No modelo anterior, a empresa distribuía aos empregados entre 4,25% e 7,25% do lucro líquido, dependendo do cumprimento das metas. A distribuição respeitava um piso de R$ 21,9 mil e um teto equivalente a quatro salários. Em 2013, foi aprovado um programa adicional de bônus para os executivos, com teto de oito salários.

No modelo atual, o presidente pode receber até 13 salários, caso as metas seja ultrapassadas. Já empregados sem cargo de liderança estão sujeitos a um teto de 2,6 vezes o rendimento mensal. No centro da meta, enquanto o presidente recebe dez salários, os demais receberiam dois.

[Via Folha de São Paulo]

Apesar da Petrobras adotar a política de preços internacionais desde o governo Temer, a queda nos preço do barril no mundo dificilmente aliviará os bolsos dos consumidores 

A queda nos preços do barril do petróleo no mundo dificilmente vai favorecer os consumidores brasileiros. Os preços nas bombas dos postos de combustíveis, do diesel, da gasolina e até mesmo o gás de cozinha, devem ficar estáveis.

A análise é do técnico da subseção do Dieese na Federação Única dos Petroleiros (FUP), Cloviomar Cararine. Para ele, após a Petrobras ter iniciado a política de acompanhar os preços internacionais, a estatal ficou mais vulnerável às turbulências do mercado externo, prejudicando a economia do país e fazendo o consumidor pagar pela conta.

“As reduções podem se perder ao longo da cadeia, entre distribuidores, até chegar aos postos de gasolina. A falta de estabilidade dos preços prejudica a fiscalização”, afirma Cloviomar.

O técnico do Dieese diz ainda que para entender como a atual política de preços da Petrobras impede que a redução do preço do barril chegue ao consumidor, é preciso analisar as políticas econômicas dos três últimos governos: Dilma Rousseff (PT), do golpista Michel Temer (MDB-SP) e do ultraliberal Jair Bolsonaro (sem partido).

Antes do golpe que derrubou a ex- presidenta Dilma, em 2016, a direção da Petrobras levava em consideração vários fatores para chegar ao preço: aumento da produção de petróleo no Brasil, o custo dessa produção, o preço de custo na refinaria, a taxa de câmbio, o valor que as importadoras pagavam para trazer derivados, entre outros, o que favorecia o consumidor.

Já Michel Temer mudou a estratégia da Petrobras e passou a reajustar diariamente, para cima ou para baixo, o valor do preço do petróleo de acordo com o mercado internacional. Subiu lá fora, aumentava aqui, se caísse, baixava, o que na grande maioria das vezes fazia o consumidor pagar mais caro.

O atual governo de Jair Bolsonaro misturou as duas políticas. De um lado, já não reajusta diariamente o preço dos combustíveis (a média de reajuste é a cada 15 dias), mas mantém a política de preços atrelada ao mercado internacional. No entanto, em virtude de sua visão privatista deixou de levar em consideração as variáveis que Dilma utilizava para diminuir o valor que o consumidor pagava. Atualmente, a Petrobras já não olha o volume e o custo de produção de petróleo porque a decisão do governo é exportar óleo cru e, assim, os preços continuam em alta.

“Não importa se o custo de produção e refino caíram. O que importa agora é se aproximar do preço internacional sem levar em consideração essas variáveis, até porque interessa ao governo vender as refinarias e privatizar a Petrobras. Por conta disso, os preços dos combustíveis sobem”, conta o técnico do Dieese/FUP.

Ainda segundo Cloviomar, se o governo levasse em consideração a redução dos custos da produção, os preços dos combustíveis poderiam cair. No entanto, a equipe econômica do governo, liderada pelo banqueiro e ministro da Economia, Paulo Guedes, tem uma política de  privatização, de retirada do Estado da economia.

“A retirada do Estado da economia passa pela privatização da Petrobras, que já começou com a BR Distribuidora sendo privatizada e agora existe a tentativa de vender metade do parque de refino, além de permitir a entrada forte de empresas estrangeiras na produção de petróleo no Brasil”, alerta.

Cloviomar afirma ainda que sem o Estado controlar a venda e o refino do petróleo, o consumidor paga um preço maior, porque a decisão do mercado é o lucro e não o abastecimento.

A retirada do Estado do mercado petrolífero aumenta a instabilidade. É como se o Brasil não produzisse petróleo e a população não é beneficiada
- Cloviomar Cararine


Como é composto o preço dos combustíveis

Além das políticas econômicas de cada governo, o preço final da gasolina depende de uma série de fatores.

A constituição do preço começa na refinaria com o preço do barril, soma-se aos impostos federais e estaduais, a participação da indústria agro alcooleira, já que o etanol entra na composição da gasolina, os valores cobrados pelas distribuidoras, que compram na refinaria e levam até o posto, e , por fim, o próprio dono do posto de gasolina que determina o preço final.

 “O problema é que quando a Petrobras aumenta o preço nas refinarias automaticamente sobe o preço na bomba de gasolina. Os postos de combustíveis não fazem a redução de preços, a indústria agro alcooleira aumenta o preço do álcool e do etanol e as distribuidoras aumentam sua margem de lucro. Com isso, quando se reduz o preço na refinaria,nem sempre ele cai na mesma velocidade nos postos”, critica Cloviomar.

Atuação do governo Bolsonaro deixa país mais vulnerável 

Na tentativa de reverter o cenário de instabilidade nas bolsas (a Petrobras responde por 11% do Ibovespa) e no câmbio (dólar) o governo tem queimado as reservas cambiais deixando o país vulnerável. O governo Bolsonaro já queimou US$ 42 bilhões, que agora somam US$ 350 bilhões. Essa não pode ser a única medida adotada pelo governo, alerta a técnica da Subseção Dieese/CUT Nacional, Adriana Marcolino.

“O maior entrave é o baixo crescimento dos últimos anos e a falta de credibilidade internacional do Brasil (nas instituições, no comando do país e na economia). Falta atuação do governo para retomar crescimento com investimento público e utilizando todas as ferramentas disponíveis ao Estado brasileiro”, afirma Adriana.

Entenda a crise do petróleo

Na última sexta-feira (06),  a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) discutia um acordo para a redução da produção em todos os países, devido à baixa produção da economia mundial atingida pelo Coronavírus 19. Rússia e Arábia Saudita não chegaram a um acordo sobre o tamanho das cotas de cada um nesse novo cenário.

 Diante disso, a Arábia Saudita anunciou, na segunda-feira (09), que irá aumentar a produção de barris de petróleo de 9,7 milhões/dia para até 11 milhões/dia (o país tem capacidade para produzir até 12 milhões/dia).

Os sauditas cortaram entre US$ 4 e U$ 6 o preço de seus barris para entrega em abril com destino à Ásia e em 7 dólares os destinados aos Estados Unidos. A  Aramco reduziu o preço do barril da petroleira Arabian Light a um preço sem precedentes de 10,25 dólares, diz o site Bloomberg.

Como resultado da briga entre os dois países, os preços internacionais do petróleo caíram cerca de 25% , o maior tombo em quase 30 anos.

No Brasil, o efeito desta decisão derrubou o valor da Petrobras. Em 24 horas, a estatal brasileira perdeu num só dia, em valor de mercado mais de R$ 91 bilhões, o equivalente a 15 vezes o prejuízo alegado pela Operação Lava Jato.

 

Fonte: CUT

 

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A diretoria do Sindipetro-NF já está em contato com a gerência da Petrobrás para acompanhar as medidas que estão sendo tomadas sobre o vazamento de óleo registrado na Praia de Imbetiba, em Macaé, nesta quinta-feira (23).

A princípio o vazamento do derivado foi em pequenas proporções e já foi contido.

Uma amostra do material foi colhida para que seja analisada e comparada com amostras colhidas em embarcações, que atuam na área afetada. Mas, neste primeiro momento não foi constatado nenhum vazamento nas embarcações ancoradas no píer.

O Sindipetro-NF irá acompanhar não só a análise como também as ações preventivas e corretivas, que devem ser realizadas. Ressaltando que é necessária uma atuação no local, visando calcular os danos ambientais, que possam ter sido causados, principalmente, devido a presença constante de tartarugas naquela região.

“O Sindicato acompanhará de perto o caso. Afinal, um acidente ambiental é sempre muito perigoso. O que ficamos preocupados, como um todo, é que percebemos ao longo dos anos a precarização das condições de trabalho, da manutenção das plataformas e precisamos ficar sempre atentos para entender se esse vazamento é um produto da precarização de manutenção e evitar que novos casos ocorram”, frisou a diretora Rosângela Buzanelli.

[Via Sindipetro-NF]

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Por Isadora Coutinho e Sérgio Trabali Neto, pesquisadores do INEEP


Há possibilidades de que o setor petróleo melhore as condições socioeconômicas deste país com baixo grau de desenvolvimento no médio prazo. De todo modo, alguns obstáculos e desafios que o país terá de enfrentar nos próximos anos devem ser considerados. Dentre eles, questões relacionadas à instabilidade política e à administração governamental das receitas petrolíferas, à baixa experiência em regulamentação de uma indústria petrolífera ou em negociação com empresas internacionais, além da falta de infraestrutura necessária para sustentar um cenário de boom do petróleo. 

A Guiana tem se destacado como fronteira promissora de exploração e produção de petróleo na América do Sul, em razão das descobertas offshore realizadas em seu território desde 2015. No final de 2019, a descoberta de petróleo no bloco Stabroek no sudeste do campo de Liza, anunciada pela petrolífera ExxonMobil, foi mais um marco desse processo. Essa descoberta acrescenta mais de 6 bilhões de barris equivalentes de óleo aos reservatórios daquele bloco. 

No mesmo mês, no bloco Stabroek no campo de Liza, a primeira produção de petróleo na história do país foi iniciada pelo FPSO Liza Destiny. A plataforma que deve atingir sua capacidade total de 120 mil barris por dia nos próximos meses. Um segundo FPSO está em construção para poder entrar em operação por volta de 2022, com intuito de produzir 220 mil barris/dia. Operadora do bloco, a ExxonMobil (45%) tem como sócias a estadunidense Hess Corp. (30%) e a chinesa CNOOC (25%). 

O presidente da ExxonMobil, Darren Woods, declarou que a Guiana assumiu uma posição estratégica no portfólio de investimentos da empresa. Exemplo disso foi o anúncio da petrolífera de um investimento de US$ 200 bilhões em projetos de óleo e gás pelo mundo nos próximos sete anos. Segundo o relatório financeiro publicado em 2018, as principais áreas de investimento estão localizadas na Guiana, na Bacia do Permiano e no Brasil. 

5 milhões até 2025

Desse modo, a Guiana surge como um dos projetos de desenvolvimento mais importantes da Exxon, sendo fundamental para o objetivo da petrolífera de atingir 5 milhões de barris de produção de óleo equivalente até 2025. De acordo com o vice-presidente de Exploração e Novos Empreendimentos da ExxonMobil, Mike Cousins, há ainda a possibilidade de lançarem novos projetos de desenvolvimento no bloco Stabroek, prevendo atualmente uma produção no local de mais de 750 mil barris por dia até 2025. 

Outras empresas petrolíferas estão interessadas na costa da Guiana. A britânica Tullow Oil, a francesa Total e a canadense Eco Atlantic Oil & Gas também estão envolvidas na exploração de petróleo na Guiana, tendo descoberto em setembro de 2019 um novo poço no bloco Orinduik. Neste, a britânica é operadora e conta com 60% de participação, enquanto a francesa possui 25% e a canadense,15%. Já em janeiro de 2020, a Tullow Oil fez nova descoberta no bloco Kanuku, com 37,5% de participação, mesma porcentagem que a espanhola Repsol, operadora do bloco. A Total também participa com os 25% restantes. 

Alguns estudos geológicos sugerem que a quantidade de reservas ainda pode aumentar nos próximos anos, gerando um clima de muito otimismo em relação à produção petrolífera no país. Com uma população de 780 mil habitantes, a Guiana já possui mais de 3,9 mil barris de petróleo por dia por pessoa, índice superior ao dos Emirados Árabes Unidos, da Noruega e da Arábia Saudita. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia do país deve crescer 86,5% em 2020 em função do setor petrolífero, o qual vai representar cerca de 40% da economia em cinco anos.

Foto: Foto: Andrey Rudakov/Repdrodução Le Monde Diplomatique

Melhorias

Há possibilidades de que o setor petróleo melhore as condições socioeconômicas deste país com baixo grau de desenvolvimento no médio prazo. De todo modo, alguns obstáculos e desafios que o país terá de enfrentar nos próximos anos devem ser considerados. Dentre eles, questões relacionadas à instabilidade política e à administração governamental das receitas petrolíferas, à baixa experiência em regulamentação de uma indústria petrolífera ou em negociação com empresas internacionais, além da falta de infraestrutura necessária para sustentar um cenário de boom do petróleo. 

Chama a atenção o fato de o país não possuir uma empresa petrolífera nacional e nem mesmo refinaria. Sem previsões de que haja mudança nesse quadro, a Guiana se mantém dependente da atuação das companhias multinacionais estrangeiras. A Exxon, por exemplo, conta com um contrato de exploração e produção bastante generoso e favorável à empresa: inicialmente, os termos do contrato assinado em 1999 nem mesmo previam o pagamento de royalties ao Estado guianense. Revisado em 2016, o contrato prevê ao país uma taxa de 2% de royalties e uma retenção de menos de 54% de receitas do setor, o que é menos do que costuma ocorrer em contratos comparáveis. 

Ainda assim, à época, houve resistência da Exxon para mudar os termos do contrato. Já em 2019, o diretor do Departamento de Energia do país, Mark Bynoe, anunciou que a Guiana está planejando aumentar a porcentagem dos royalties de 2% para 5% em contratos futuros. Esses episódios sugerem que o país enfrentará dificuldades para se apropriar da riqueza gerada pelo petróleo. Isso se agrava quando se considera que a Guiana é altamente dependente da atuação de operadoras estrangeiras para explorar as gigantescas reservas descobertas em território nacional. 

Fundo soberano

Nessa mesma linha, é também sugestivo o fato de que, enquanto as grandes empresas estrangeiras avançam rapidamente sobre o território guianense, o país ainda está pensando em como criar um fundo soberano para guiar o direcionamento e investimento das receitas advindas do petróleo. 

Junto à ausência de uma regulação mais favorável à apropriação da renda petrolífera e de uma empresa nacional para explorar as reservas recém descobertas, a inexistente política energética autônoma deve limitar os benefícios econômicos para a sociedade guianense.

Ao observar essa conjuntura, não se pode deixar de salientar que decisões relacionadas às questões regulatórias, institucionais e estratégicas do setor de petróleo no país devem considerar também a dimensão geopolítica. As recentes descobertas e o início da produção de petróleo no país aumentam a relevância estratégica da região, demonstrando a importância do continente sul-americano como fornecedor para os mercados mundiais de petróleo. Reforçando, desse modo, a tese de reposicionamento da América do Sul na indústria petrolífera mundial, atrás da Venezuela e do Brasil em termos de reservas estimadas, a Guiana desponta enquanto nova fronteira de exploração e produção de petróleo, garantindo maior visibilidade mundial à sua costa e, desse modo, o interesse das empresas petrolíferas estrangeiras nas potencialidades ali existentes.

[Via Ineep | Artigo publicado originalmente no jornal Le Monde Diplomatique]

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O jornalista e deputado federal Paulo Pimenta elencou onze razões que não justificam o governo Bolsonaro se posicionar a favor do conflito entre os Estados Unidos e o Irão. Para começar, o Brasil possui relações amistosas com o Irã de longa data e o fluxo de comércio entre os dois países é de US$ 2,1 bilhões. Leia o texto, publicado na Revista Carta Capital

1. O mundo precisa de paz para que a economia global se recupere. O único setor econômico que tem interesse num conflito de grandes proporções é a indústria bélica.

2. Um dos principais motivos – senão o principal motivo – para a escalada beligerante de Donald Trump é fortalecer a sua campanha para evitar o impeachment e, na sequência, conseguir a reeleição. Ou seja, assim como vários de seus antecessores, o magnata das fake news quer se reeleger à custa de milhares de vidas, inclusive de seus compatriotas.

3. Um eventual conflito entre Estados Unidos e Irã tem grande possibilidade de envolver todos os países da Ásia – inclusive China e Rússia – e se transformar numa guerra de escala mundial. Ao contrário da 1ª e da 2ª Guerras, entretanto, as potências militares hoje possuem capacidade para exterminar a vida humana no planeta.

4. Há muitas alternativas à guerra que passam pelo diálogo e por outras medidas, como sanções econômicas. Aliás, as sanções econômicas impostas pela comunidade internacional – por pressão dos Estados Unidos – ao Irã só encontram precedentes na história quando comparadas ao embargo econômico contra Cuba. A guerra é um recurso extremo cujas consequências são impossíveis de estimar.

5. Além das sanções comerciais, o Irã sofre há mais de duas décadas com a ação sistemática de agências de espionagem que perseguem e “eliminam” cientistas iranianos de várias áreas, não apenas daqueles suspostamente relacionados ao programa nuclear do país.

6. Do ponto de vista do Brasil, a guerra pretendida por Donald Trump, definitivamente, não favorece qualquer interesse do país. Muito ao contrário.

7. A postura do governo Bolsonaro de apoiar a operação militar que resultou no assassinato do general Qasem Soleimani foi precipitada e irresponsável, fruto da submissão incondicional aos Estados Unidos que nos envergonha perante o mundo. Nenhum país emitiu uma nota de apoio ao governo Trump tão vassala quanto a do Brasil.

8. Em 2010, através do governo Lula e do governo da Turquia, foi feito um acordo com o Irã para que este país se comprometesse com o uso do urânio para finalidades pacíficas. Outro acordo foi firmado em 2015, desta vez com os Estados Unidos, então presidido por Barack Obama. Em 2018, Trump abandonou o acordo unilateralmente e impôs sanções ao Irã.

9. O sentimento do povo brasileiro é amplamente favorável à promoção da paz e isso é expresso nas tradições da nossa diplomacia, que é historicamente reconhecida no mundo inteiro por privilegiar a construção de consensos multilaterais e não por instigar o conflito, como o atual governo vem fazendo agora, ao jogar gasolina na fogueira acesa por Donald Trump. Ao adotar como sua a posição beligerante dos Estados Unidos, Jair Bolsonaro está traindo o povo brasileiro.

10. O Brasil possui relações amistosas com o Irã de longa data. Atualmente, o fluxo de comércio entre os dois países é de US$ 2,1 bilhões, com a balança favorável ao Brasil em US$ 2 bilhões. Em 2018 o Irã foi o maior mercado para o milho brasileiro e o quinto maior destino da carne bovina e da soja exportadas pelo Brasil.

11. A cooperação entre Brasil e Irã se dá em várias áreas e setores da economia: ciência e tecnologia, agricultura, engenharia, energia (hidroeletricidade e energias renováveis), capacitação industrial, entre outras.

[Via Carta Capital]

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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.