A representatividade negra e o “identitarismo” estavam melhor vistos antes do BBB21 ou ficaram piores no imaginário nacional depois dessas primeiras semanas?

[Por Serge Katembera (*), em artigo publicado no The Intercepet Brasil | Foto: Reprodução TV Globo/Intercept]

Que a Globo realize uma edição do reality show Big Brother em 2021, um ano depois do início da pandemia parece com aqueles momentos em que a vida nos prega uma peça. Situação inusitada em que temos um espelhamento de pessoas confinadas: eles, os influenciadores, em busca do 1,5 milhão, e nós aqui, em casa, confinados por causa da pandemia. É bem possível que muitos brasileiros já nem estejam respeitando as recomendações do isolamento social, mas sem dúvida, aquela situação que até poucos tempos atrás nos parecia surreal, quase um ato heroico, não nos é mais estranho. Em 2021, 100% dos brasileiros sabem o que é estar confinado. Estamos, portanto, diante de uma nova relação do público com o reality show.

A particularidade do BBB é o fato dos participantes saberem que estão constantemente sob os olhares dos telespectadores mais engajados. Alguns de vocês leitores lembrarão do filme “O Show de Truman”, uma fantástica crítica contra os reality shows, estrelado por Jim Carrey – seu personagem é um homem que passa os primeiros trinta anos da vida sendo o astro principal deste tipo de programa. Ele, no entanto, desconhece sua situação, o que lhe dá um aspecto de vítima de um sistema podre e perverso. Nossas estrelas de hoje, “confinadas” pela Rede Globo, estão cientes de sua situação e, por isso mesmo, são pessoas extremamente corajosas. Ou loucas. Afinal, a linha que separa a coragem da loucura é tênue. E como diz aquele velho ditado sobre a guerra: “os mais fortes e os mais corajosos sucumbem”.

É por causa disso que pareceu acertado que vários psicólogos apontassem os efeitos desse reality show sobre os candidatos. Que Lucas, um dos candidatos negros do reality tenha dado sinal de uma saúde mental deteriorada não é anedótico. Não é anedótico que, após sofrer inúmeras agressões do outros participantes, Lucas tenha desistido do programa em 7 de fevereiro. Em Terra Estranha, o melhor livro já escrito sobre a psicologia do homem negro, vemos que nós, negros, além de tentarmos ser cidadãos plenos, precisamos exorcizar a loucura que o racismo planta em nossas cabeças. Estou grato que esse problema veio à tona agora.

Vários internautas, anônimos e intelectuais, foram às redes sociais manifestar sua preocupação quanto aos efeitos que as atitudes desses influenciadores estão tendo sobre a compreensão da questão racial pelo público. Tenho recebido até mensagens de brasileiros do exterior desejando que pessoas como Sílvio Almeida e outros intelectuais respeitados se pronunciassem e, sobretudo, se distanciassem, enquanto representantes do movimento negro, das posições tomadas por certos participantes negros do reality show.

A mais controversa até o momento é, sem dúvida, a rapper Karol Conká cujas falas contra nordestinos, visões preconceituosas sobre modos de ser de pessoas negras e até mesmo especulações sobre a higiene bucal de outro participante criaram uma forte rejeição. Me parece que tudo isso que estamos vendo é sintomático de algo muito mais profundo do que muitos querem encarar: o lugar que os influenciadores ocupam em nossa sociedade é sem precedentes na história do “star system”.

Nos anos 1970, Edgar Morin escreveu um livro seminal no qual analisava o lugar das “estrelas” na sociedade capitalista moderna. Para o pensador francês, eram ao mesmo tempo deuses e a imagem das nossas próprias projeções. Elas tiravam sua aura da televisão e, especialmente, do cinema. De Sinatra a Marilyn Monroe, de James Dean a Rock Hudson ou Grace Kelly, essa “gente como a gente” ganhava um status de divindade ao ocupar as telas e enchia nosso espaço doméstico de sonhos e esperança. Os escândalos em que se envolviam consistiam numa espécie de outro lado da moeda, o preço a pagar por se parecer tanto com os deuses. No século 21, as redes sociais substituíram o cinema na construção da fama.

O ineditismo desse novo fenômeno de agora é que o status do influencer do século 21 lhe confere poderes que nem mesmo Sinatra e Grace Kelly sonhariam em ter. Os famosos das redes sociais se transformaram em autoridades morais, científicas e políticas que opinam sobre qualquer assunto. A expertise não importa mais. Importa a fama que se compreende em termos de audiência, engajamento e captura da atenção do público. Vale o número de seguidores nas redes sociais.

A Rede Globo, que compreende o coração dos brasileiros melhor que qualquer sociólogo da USP, vem investindo nesses influenciadores numa clara redefinição de seus programas. Na verdade, qualquer um de nós poderia adivinhar quem serão os candidatos do BBB 22. Podemos especular sobre alguns nomes. O leitor pode fazer isso sozinho e acertará em 45% dos casos ou mais.

O que me parece sintomático também é que vários intelectuais pensem que a atuação de Karol Conká causará um “grande dano aos esforços do movimento negro nos últimos anos”. Certamente causará. Porém, esse dano é maior que aquele causado pela presença de Sérgio Camargo na direção da Fundação Palmares? Em um caso, as falas do influencer só engajam quem as pronuncia podendo provocar algumas perdas em termos de sua imagem. Mas as falas de Camargo têm consequências vinculantes e carregam a força do estado. Apostaria que a maioria dos brasileiros nem sabe quem é Sérgio Camargo ou tampouco a importância da função que exerce na administração pública. Mas esses são os tempos em que vivemos. Tempos de forte anomia em que, paradoxalmente, muita gente tem algo a dizer.

A Rede Globo sabe perfeitamente interpretar esses tempos de anomia, que se caracterizam por sua indefinição moral, a ausência de regras e a dificuldade de construirmos consensos. Nesse sentido, temos apenas opiniões competindo entre si nessa grande arena que são as redes sociais. É aqui que a televisão intervém e se coloca, outra vez, como mediadora das nossas experiências.

Chego a me perguntar se toda a experiência humana atual não se tornou um vasto reality show. No auge das polêmicas provocadas por Karol Conká, aconteciam, em paralelo, às eleições para a presidência da Câmara e do Senado, em Brasília. Um dia após a eleição de Arthur Lira para o comando da Câmara, entrei na minha conta do Twitter e me deparei com um vídeo que era aparentemente uma festa. Havia várias pessoas elegantes dançando, pessoas alegres, adivinhei que o ritmo tocado poderia ser sertanejo. Pensei imediatamente que as intrigas da Karol Conká haviam dado lugar a uma daquelas festas que só Big Brother sabe proporcionar. Pois, não.Tratava-sena realidade, de uma reunião para comemorar a vitória do político. Reconheci a deputada Joice Hasselmann. Lá estava ela feliz outra vez e em sintonia com o governo Bolsonaro. Não era o BBB, mas era um reality show.

O fundamental aqui é captar qual a essência do produto que a televisão e as redes sociais estão vendendo. Elas vendem basicamente a falta de pudor combinado com um certo glamour, porque precisamos desejar aquilo que vemos. Mesmo que isso nos cause uma profundo dor, como aponta a socióloga Silvia Viana no livro “Rituais de Sofrimento”: precisamos desejar aquilo que nos vendem. Seja a política ou o BBB, a falta de pudor precisa sempre estar acompanhada de um certo glamour. Daí que os influencers sejam os candidatos ideais para sustentar o reality show.

Vejam, por exemplo, a forma como a questão racial é apresentada ao público. Tudo ali responde a um critério de consumo fácil e até mesmo de uma certa efemeridade. Nada precisa perdurar nas memórias. As opiniões sobre desconstrução das imagens raciais precisam ser diretas, enfáticas, brutais, às vezes. Mas, fundamentalmente, precisam ser efêmeras. Assim como as ofensas contra nordestinos, negros ou mulheres. Tudo deve ser suscetível a se perder com o tempo. Deve permanecer apenas a imagem do efêmero. Por isso, as opiniões de Silvio Almeida ou o brilho intelectual de Winnie Bueno que, certamente teria muito a dizer sobre “as imagens de controle”, não podem competir com o BBB.

Nada que possamos dizer agora poderá consertar os danos causados pelas falas polêmicas e violentas da Karol Conká porque não operamos no mesmo registro. O que escrevemos não passa pelo filtro e o controle da Rede Globo que, ao fim e ao cabo, é quem produz essas “imagens de controle” sobre a questão racial e seus representantes no debate público.

A representatividade negra e o “identitarismo” estavam melhor vistos antes do BBB21 ou ficaram piores no imaginário nacional depois dessas primeiras semanas? Do meu ponto de vista, predomina no Brasil percepções negativas tanto sobre representatividade quanto sobre “identitarismo”. Os responsáveis são principalmente os partidos políticos de esquerda e de direita. Paradoxalmente, eles não hesitam em usar eleitores negros como massa de manobra, contanto que esse debate não seja colocado na praça pública precisamente nesses termos. No final, não querem que as estruturas raciais de dominação sejam alteradas.


(*) Serge Katembera é doutorando em Sociologia pela UFPB e pesquisa a influência das Novas Tecnologias da Informação na democratização da África francófona. É co-autor de “Outsourced Information: identity and unpaid work in the age of digital journalism”.

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Segunda, 30 Novembro 2020 15:32

A política racista de recolonização

O genocídio da população negra, no Brasil, integra um processo de recolonização do país. A advertência, da arquiteta e urbanista Tainá de Paula, vereadora eleita no Rio de Janeiro pelo PT, é um dos destaques da live promovida pelo Sindipetro-NF (e retransmitida pela FUP no programa Encontro com a Categoria) no dia 24/11, para debater a representatividade da mulher negra. A conversa, moderada pelas diretoras do sindicato Conceição de Maria e Jancileide Morgado, também contou com a cientista social e mestranda em Sociologia Política, Carine Passos. A transmissão ao vivo fez parte das atividades do Dia da Consciência Negra.

[Do Boletim Nascente/Sindipetro-NF]

Para Tainá de Paula, que foi a mulher negra mais votada para a Câmara de Vereadores no pleito deste ano (com 24.881 votos), “é preciso entender o que acontece hoje com o país numa perspectiva de classe. O que está em jogo hoje é a recolonização do Brasil. O ultraneoliberalismo brasileiro é um projeto colonizador, ditatorial, autocrático e basicamente racista, na tentativa de se apagar, a partir do genocídio que acontece na base da bala, a hiper militarização dos territórios, a violência deslavada contra negros e negras”.

Ela avalia que o projeto de poder em curso no Brasil promove um “genocídio a partir do simbólico, a partir da diminuição do debate racial, da diminuição do lugar de fala, do epistemicídio [negação do conhecimento científico], do apagamento simbólico, do genocídio que acontece na base da caneta, da política de estado racista e na base da sociedade civil, que também é muito racista”.

Representatividade

Carine Passos, que também se define como militante social (integrante da CIEMH2 Núcleo Cultural e conselheira municipal da Mulher e da Criança e Adolescente em Macaé), explicou que a representatividade negra passa por “colocar o corpo negro como sujeito de possibilidades”, mas, também, reivindicar “representatividade também nos instrumentos de poder”. Essas duas dimensões da luta antirracista, segundo ela, estão associadas.

“Nosso corpo negro, quando ocupa algum espaço, a gente abre uma possibilidade para quem está vindo depois. Não tenho dúvida. Olho para minha trajetória e vejo isso. Quando me entendi ativista em Macaé, entendi que havia um caminho aberto por outras mulheres”, afirma Passos, sobre o primeiro aspecto.

Na segunda dimensão, explica, seria preciso entender que “o corpo negro não é o fim em si mesmo da representatividade. Não é só colocar uma pessoa num determinado lugar que a gente vai dar por fim que a gente conseguiu chegar como a gente queria. É um debate que a gente tem que fazer com cuidado. Porque muitas empresas têm usado esse lugar de representatividade como marketing, quando dizem que têm tantos funcionários negros, mas não têm nenhuma política para diminuir a desigualdade”.

Assista na íntegra

A live continua disponível na íntegra no canal do Youtube do Sindipetro-NF e pode ser assistida em is.gd/representatividadenegra

 

 

 

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Estudo feito pela subseção do Dieese na FUP revela a baixa representatividade de mulheres e homens pretos em cargos de gerência no Sistema Petrobrás. Segundo os relatórios da empresa e balanços financeiros e sociais analisados, o percentual de trabalhadores negros que ocupam cargos de gerência na holding e subsidiárias vem caindo. Em 2008, cerca de 30% das gerências eram ocupadas por petroleiras e petroleiros pretos. Em 2019, esse número despencou para 19,3% e chegou a 17,7% em 2018, o mais baixo índice desde o início da série histórica, revela o Dieese em entrevista dada à revista Carta Capital.

Veja a íntegra da reportagem publicada nesta segunda-feira, 23/11:

O Sistema Petrobras reduziu o número de pessoas negras que ocupam cargos de gerência no período entre 2008 e 2019, segundo análise divulgada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), na sexta-feira 20.

Os percentuais se referem ao Grupo Petrobras, que inclui tanto a empresa matriz quanto as companhias subordinadas. As informações foram extraídas de um relatório da própria estatal, divulgadas por meio de demonstração financeira, segundo o Dieese.

De acordo com a análise, em 2008, 29,9% dos cargos de chefia eram ocupados por negros, e em 2019 o percentual foi de 19,3%. O índice mais baixo foi identificado no ano de 2018, de 17,7%. Somente após 2018 foram registrados percentuais abaixo de 20%, se comparado a toda a série histórica, desde 2009.

Entre 2014 e 2016, houve uma oscilação de 5%. O Dieese supõe que a variação pode ter ocorrido por influência de dois planos de demissão voluntária, um lançado em 2014 e outro em 2016, ou por venda de empresas subsidiárias, entre outras hipóteses. 

  • Em 2008 e 2009, 29,9% dos cargos de chefia no Sistema Petrobras eram ocupados por pessoas negras;
  • Em 2010, o percentual foi de 25,3%;
  • Em 2011, 24,9%;
  • Em 2012, 25%;
  • Em 2013, 25,2%;
  • Em 2014, 20,3%;
  • Em 2015, 25,3%;
  • Em 2016, 20,8%;
  • Em 2017, 22,2%;
  • Em 2018, 17,7%;
  • Em 2019, 19,3%.

O estudo também analisa a situação da empresa matriz isoladamente, por meio do Relatório de Sustentabilidade de 2019, primeiro ano em que a companhia descreveu percentuais separados para homens negros e mulheres negras, diz o Dieese.

Dos 46.416 trabalhadores da Petrobras, 9,42% (4.374) são homens brancos em cargos de gerência, e 1,95%  (907) são mulheres brancas em cargos de gerência. Enquanto isso, somente 0,54% (252) são homens pretos em cargos de gerência, e 0,07% (31) são mulheres pretas nesses postos.

Segundo Cloviomar Cararine Pereira, técnico do Dieese na subseção da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e autor da análise, o objetivo foi mostrar que a tendência desigual no mercado de trabalho brasileiro entre brancos e negros se repete de forma pior no alto escalão da Petrobras. 

Para isso, ele faz uma comparação com dados da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Enquanto, na Petrobras, somente 0,54% do quadro de funcionários total é de homens negros em cargos de gerência, o Brasil aponta percentual médio de 2,4%. No caso das mulheres negras, se na Petrobras é de 0,07%, o país tem média de 1,9%.

“Se, no Brasil, os cargos de decisão são ocupados, em sua maioria, por homens brancos e mulheres brancas, no caso da Petrobras isso também acontece, com uma diferença ainda maior”, comenta Cararine.

 

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O Encontro com a categoria desta terça, 24, transmitiu a live do Sindipetro-NF sobre representação da mulher negra nos ambiente de trabalho, na academia, na política, na cultura, entre outros espaços de poder na sociedade brasileira.

Participaram do debate a diretora do Sindipetro-NF, Conceição de Maria, que também é escritora, formada em Letras e Pós Graduada em Literatura, a técnica em química, petroleira e também diretora do sindicato, Jancileide Morgado, a cientista social e mestranda em Ciências Políticas, Carine Passos, e a arquiteta e vereadora eleita do Rio de Janeiro, Tainá de Paula.

Veja abaixo a íntegra: 

Desigualdade na Petrobrás

Estudo feito pela subseção do Dieese na FUP revela a baixa representatividade de mulheres e homens pretos em cargos de gerência no Sistema Petrobrás. Segundo os relatórios da empresa e balanços financeiros e sociais analisados, o percentual de trabalhadores negros que ocupam cargos de gerência na holding e subsidiárias vem caindo. Em 2008, cerca de 30% das gerências eram ocupadas por petroleiras e petroleiros pretos. Em 2019, esse número caiu para 19,3% e chegou a 17,7% em 2018, o mais baixo índice desde o início da série histórica, revela o Dieese em entrevista dada à revista Carta Capital.

Analisando só a holding Petrobrás, dos 46.416 trabalhadores, 9,42% (4.374) são homens brancos em cargos de gerência, e 1,95%  (907) são mulheres brancas em cargos de gerência. Enquanto isso, somente 0,54% (252) são homens pretos em cargos de gerência, e 0,07% (31) são mulheres pretas nesses postos.

Segundo Cloviomar Cararine Pereira, técnico do Dieese na subseção da FUP e autor da análise, o objetivo foi mostrar que a tendência desigual no mercado de trabalho brasileiro entre brancos e negros se repete de forma pior no alto escalão da Petrobras.

Para isso, ele faz uma comparação com dados da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Enquanto, na Petrobras, somente 0,54% do quadro de funcionários total é de homens negros em cargos de gerência, o Brasil aponta percentual médio de 2,4%. No caso das mulheres negras, se na Petrobras é de 0,07%, o país tem média de 1,9%.

“Se, no Brasil, os cargos de decisão são ocupados, em sua maioria, por homens brancos e mulheres brancas, no caso da Petrobras isso também acontece, com uma diferença ainda maior”, comenta Cararine.

 

[Com informações da Carta Capital]

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A pandemia no Brasil acentuou a desigualdade entre negros e brancos no mercado de trabalho, afirma o Dieese em estudo divulgado nesta semana da Consciência Negra.

"A persistente desigualdade entre negros e não negros no mercado de trabalho ficou ainda mais acentuada durante a pandemia. Homens e mulheres negros sentiram, com maior frequência, os danos do isolamento e da redução do nível de atividade econômica", ressalta o documento, ao analisar as pesquisas do IBGE que mostram que "mais de 6,4 milhões de homens e mulheres negros saíram da força de trabalho – como ocupados ou desempregados, entre o 1º e o 2º trimestre de 2020, isto é, perderam ou deixaram de procurar emprego por acreditar não ser possível conseguir nova colocação".

"Entre os brancos, o número de pessoas nessa mesma situação chegou a 2,4 milhões. Na comparação entre o 4º trimestre de 2019 e o 2º trimestre de 2020, entre os negros, o número subiu para 7,4 milhões. Para os não negros e não negras, o total pouco se alterou, chegando a 2,7 milhões de pessoas (...) Dos 8 milhões de pessoas que perderam o emprego entre o 1º e o 2º trimestre de 2020, 6,3 milhões eram negros e negras, o equivalente a 71% do total", revela o estudo do Dieese.

"Homens e mulheres negros, ocupados em situação de informalidade, no trabalho doméstico e sem vínculo legal, foram os que mais sofreram os efeitos da crise do coronavírus. A mobilização do movimento sindical conseguiu proteger parte dos empregos formais, com a MP 936, mas cerca de 8 milhões de pessoas (a maioria negra) ficaram sem trabalho e sem renda. O Auxílio Emergencial de R$ 600, conquistado também por intensa pressão sindical e social, garantiu certa dignidade a muitos, mas muitos outros não conseguiram receber a ajuda ou tiveram o pagamento liberado com atraso. Aos que ficaram sem proteção, coube escolher entre a fome ou ir para rua buscar trabalho mesmo com a possibilidade de encontrar o vírus", explica o economista e técnico do Dieese, Cloviomar Cararine, que assessora a FUP.


> Acesse aqui a íntegra do Boletim Especial do DIEESE para o Dia Nacional da Consciência Negra

[Imprensa da FUP, com informações do Dieese |Foto: Andre Coelho/Bloomberg/Getty Images]

Quantas petroleiras ou petroleiros negros há na categoria? Você sabe dizer? Transferindo para sociedade, a regra desigual da injustiça por acesso ao mercado de trabalho, por exemplo, não é clara, é negra. 

[Da imprensa da FUP e do Sindipetro-PR/SC]

A crise sanitária e social gerada pela pandemia da covid-19 é o maior exemplo de como a população negra continua sendo segregada no Brasil. Durante o painel “Racismo estrutural e a classe trabalhadora”, que encerrou a programação desta quinta-feira, 16, do 18º Congresso Nacional da FUP, o historiador Flávio Gomes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou que estudos recentes indicam que mais de 60% dos óbitos causados pelo coronavírus no país são de pessoas negras. A quilombola ativista da Via Campesina, Selma Dealdina, e a socióloga política, Katucha Bento, professora da Universidade de Leeds, também enfatizaram em suas falas como a pandemia tem um impacto muito mais cruel sobre a população negra.

O Brasil é o país do mundo onde mais morrem profissionais do setor de saúde em consequência da covid-19. E as maiores vítimas são mulheres negras. Nas filas para receber o auxílio emergencial na Caixa Econômica Federal, a maioria são negros. E isso é reflexo de um sistema historicamente racista, hoje chamado de racismo estrutural. Uma forma de dizer que o sistema brasileiro tem preferência e privilegia uma parcela branca da sociedade. Um problema secular.

Um assunto urgente e pertinente, como as falas dos convidados que participaram da live, que se estendeu por mais de duas horas e, até o início da noite desta quinta, já havia tido mais de 800 visualizações. “Temos uma estrutura que está pronta para matar as pessoas negras, seja ela quem for. As pessoas que estão dentro do sistema, reproduzem o discurso colonial, porque é uma questão que continua fluindo”, disse Katucha Bento. 

Ela ainda provocou: “Como os petroleiros vão se comprometer em modificar o racismo estrutural? Como vamos ser antirracistas?”. A questão foi prontamente atendida pelo petroleiro mediador, Jailton Andrade, que já articulou um grupo para fazer o debate dentro da própria Federação Única dos Petroleiros. 

Trabalho e escravidão

O historiador Flávio Gomes enfatizou que os direitos trabalhistas conquistados no século XX, como a jornada de oito horas, e a consolidação das formas de organização da classe trabalhadora são resultado das lutas diárias dos trabalhadores, desde a escravidão. Ele criticou a falsa ideia de que há uma desvinculação da escravidão com o mundo do trabalho, pensamento que durante muito tempo foi reproduzido pelos manuais de história no Brasil. “É como se o trabalho só tivesse passado a existir após a abolição, como se a história do trabalho só pudesse estar vinculada à experiência do trabalhador livre”.

Flavio chamou também a atenção para as experiências de organizações de trabalhadores escravizados que ocorreram tanto nas áreas rurais, quanto nas áreas urbanas, citando o exemplo do movimento grevista que houve na Bahia, em 1857, denominado pelos historiadores de greve negra. “A imagem de que os trabalhadores negros não estavam preparados para o trabalho fabril, para o trabalho nas indústrias, após a abolição foi muito mais uma imagem da produção de um pensamento social e de uma historiografia, do que uma experiência do mundo do trabalho”, afirmou. 

Quilombo 

Selma Dealdina enfatizou que o sistema brasileiro conta uma história única e racista. Disse que a reforma agrária começou no quilombo, mas que essas terras nunca foram protegidas. “E assim, foram traçadas nossas linhas para que nós estivéssemos aqui. E dentro dessa estrutura há um crime perfeito: o racismo. Porque as pessoas o cometem, mas quem sofre o crime é que precisa provar!”. 

Historicamente o Brasil racista impede a igualdade desde o fim do século XIX, quando, por lei, impediu que os quilombolas tivessem suas terras. O resultado dessa linha desigual na história é a desigualdade, escancarada na pandemia. “A covid-19 só veio para acentuar ainda mais esse problema. Lembre-se que a primeira vítima do vírus foi uma mulher negra e doméstica. Esse é o racismo estrutural e as chibatadas não vão cicatrizar”, completou Dealdina. 

O que é racismo estratural, afinal?

Trata-se de uma questão que está mais nas instituições e dentro de uma retórica. É o estado autorizando no discurso ações excludentes. “Isso vem da ideia do colonizador. Do patrão. Do imperialista. Eles querem que quando a gente fala de raça, pensemos em divisão de classes. Ideia de hierarquizar as raças, mesmo que essas que já existiam antes”, disse Katucha.   

Essa raiz, essa cultura, dentro da sociedade, naturaliza a violência que veio depois. “Não são as pessoas, mas as instituições que têm essa raiz. E é lógico que isso reflete na classe trabalhadora. Não é uma coisa romântica, o racismo mata. Sempre matou”, completou a pesquisadora.   

Flávio Gomes tem a mesma opinião: “No Brasil, o racismo é algo muito mais institucional, estrutural, do que um preconceito de dimensão individual”. Ele chamou a atenção também para o fato do racismo ser visto como um problema que deve ser debatido pelos negros e não pela sociedade brasileira. 

Selma Dealdina finalizou enfatizando que é sempre necessário discutir o racismo. “Precisamos falar cada vez mais. Nesse exato momento uma pessoa está sendo vítima de racismo em qualquer parte do planeta. Dentro disso, a luta quilombola é o reflexo da luta negra no país”. 

 

 

 

 

Publicado em 18 CONFUP

Começa às 17h o terceiro painel que integra a programação desta quinta-feira, 16, do 18º Congresso Nacional da FUP. O debate terá como tema “Racismo estrutural e a classe trabalhadora”, com participação do historiador Flávio Gomes, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a quilombola ativista da Via Campesina, Selma Dealdina, e a socióloga política Katucha Bento, professora da Universidade de Leeds, na Inglaterra.

O painel será transmitido ao vivo pelo canal da FUP no Youtube e também pelo Facebook. A mediação será feita pelo diretor do Sindipetro-BA, Jailton Andrade. 

Serviço:

Painel “Racismo estrutural e a classe trabalhadora”

Quando: quinta, 16, às 17h

Ao vivo pelo Youtube e Facebook:

> https://www.youtube.com/fupbrasil

> https://www.facebook.com/fupetroleiros

Acompanhe a programação completa e as atividades do 18º Confup pelo hotsite do congresso: https://18confup.com.br/

Publicado em 18 CONFUP

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.